Ano eleitoral, energia em risco: por que o Brasil não pode negligenciar o debate nuclear em 2026. Artigo de Celso Cunha

Foto: Eletronuclear/Divulgação | Agência Brasil

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26 Fevereiro 2026

"O Brasil tem todos os ingredientes para se posicionar como referência em energia nuclear na América Latina. Resta agora convergir esforços para que este potencial se traduza em ação ainda em 2026", escreve Celso Cunha, presidente da Associação Brasileira para o Desenvolvimento das Atividades Nucleares (ABDAN).

Eis o artigo.

Enquanto entramos em 2026, o Brasil se encontra em um momento de grande expectativa para o setor energético, em especial para o nuclear. Com o calendário eleitoral movimentado, é natural que muitas decisões estratégicas tenham sido postergadas em 2025, refletindo incertezas sobre futuras composições ministeriais, inclusive no Ministério de Minas e Energia. Essa conjuntura traz desafios, mas também abre espaço para reflexão, diálogo técnico e elaboração de políticas que possam dar ao país um novo impulso em direção a uma matriz energética mais segura, diversificada e de baixo carbono.

A energia nuclear sempre figurou como uma alternativa sólida no mix energético brasileiro, capaz de fornecer eletricidade firme, confiável e com emissões praticamente nulas de gases de efeito estufa, características hoje essenciais diante da crescente demanda por energia estável, impulsionada pela digitalização da economia, pelos data centers, pela expansão da inteligência artificial e pela necessidade de sustentar o crescimento industrial e social do país.

Apesar de essa demanda estar ficando cada vez mais evidente, a decisão sobre a conclusão de Angra 3 permaneceu, ao longo de 2025, em compasso de espera técnico-político. O CNPE adiou a deliberação sobre o projeto, na busca por mais dados e mais clareza econômica e regulatória. Enquanto isso, a obra, iniciada há décadas, continua gerando custos, mas também representa uma oportunidade concreta de ampliar a oferta de energia firme no Brasil.

Nesse cenário desafiador, surge um elemento novo de esperança: a entrada da Âmbar Energia na Eletronuclear, por meio da aquisição da participação anteriormente detida pela Eletrobras. A transação, avaliada em R$ 535 milhões e sujeita à aprovação dos órgãos reguladores, marca a entrada do grupo J&F no setor nuclear brasileiro, com participação significativa no capital total da Eletronuclear, que opera Angra 1 e Angra 2 e lidera o projeto de Angra 3.

Essa movimentação do mercado privado sinaliza que o Brasil ainda atrai interesse na energia nuclear, mesmo em um ambiente de incerteza política. A presença de um investidor estratégico com experiência em múltiplos segmentos energéticos pode trazer novos olhares, eficiência e estímulo à governança corporativa, sem que o controle divergente da União, mantido por meio da ENBPar, seja alterado.

Seja qual for o resultado eleitoral deste ano, esse movimento de diversificação de atores no setor nuclear deve ser interpretado como uma oportunidade para que o país fortaleça a sua governança e atraia investimento orientado por critérios de sustentabilidade, previsibilidade e retorno técnico e econômico. Isso é especialmente relevante em um momento em que o mundo, impulsionado por crises climáticas e pela necessidade de descarbonização, redescobre a energia nuclear como peça fundamental nas matrizes elétricas modernas.

Outro ponto que merece destaque em 2026 é o avanço das tecnologias emergentes, como os Reatores Modulares Pequenos (SMRs). No Brasil, ainda que essa tecnologia esteja em fases iniciais de discussão e estudo, há potencial de inovação significativa em aplicações industriais e locais remotos, além de contribuir como complemento à geração em larga escala. A perspectiva mundial de desenvolvimento de SMRs é uma tendência que pode ser alinhada com políticas públicas brasileiras, capazes de atrair investimentos em pesquisa, desenvolvimento e know-how tecnológico.

Também é importante lembrar que a energia nuclear vai muito além da geração elétrica tradicional. Sua contribuição em medicina nuclear, produção de radioisótopos, agricultura, pesquisa e processos industriais reafirma o papel estratégico do setor para o desenvolvimento científico e tecnológico do país.

Portanto, embora 2026 se apresente como um ano de incertezas políticas, vejo motivos para otimismo. A combinação entre necessidade de energia firme, interesse do setor privado, evolução tecnológica, e a chance de alinhar o Brasil com as melhores práticas internacionais de clima e energia cria condições para que avancemos. Este é um momento para fortalecer a narrativa técnica, consolidar parcerias e preparar o terreno para que, com estabilidade institucional e diálogo entre setores, possamos transformar esperança em políticas públicas concretas.

O Brasil tem todos os ingredientes para se posicionar como referência em energia nuclear na América Latina. Resta agora convergir esforços para que este potencial se traduza em ação ainda em 2026.

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