Deus não é (mais) assim. Artigo de José María Vigil

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24 Fevereiro 2026

José María Vigil é padre claretiano. Passou quarenta anos de sua vida na América Latina, onde esteve ao lado de Pedro Casaldáliga, o bispo "profeta da Amazônia". É considerado um dos representantes mundiais do pensamento "pós-teísta". É autor de inúmeros livros, ensaios e artigos, incluindo, em italiano, A construção do dogma cristológico (Roma, 2008).

A entrevista com José María Vigil, é publicada por Settimanna News, 23-02-2026. 

Eis a entrevista. 

O que o senhor entende por "pós-teísmo"?

"Pós-teísmo" é um termo que pode ter diversos significados. O primeiro refere-se a uma corrente teológica interna ao cristianismo – presente também no catolicismo – que postula o que a palavra sugere: que o tempo do "teísmo" está, de fato, se pondo em uma parte significativa do Ocidente, com repercussões em todo o mundo.

Mas, em um sentido mais amplo, o termo evoca todo um fenômeno social contemporâneo – cultural e religioso – de dimensões imensas no Ocidente, a ponto de interessar à ciência, à universidade, à cultura, ao mundo jovem e ao mundo leigo.

Antes de dar definições, portanto, sugiro aos leitores que observem: no Ocidente em que vivemos, o pós-teísmo está presente em toda parte, na sociedade, na cultura, no fôlego... na rua: transmite-se por "osmose".

Acontece que esta minha geração – aquela que está atualmente chegando ao fim de sua jornada – seja talvez a que viveu as maiores mudanças no pensamento e nos valores. Vimos cair verdades indiscutíveis, até mesmo verdades consideradas eternas, juntamente com toda a visão de mundo que recebemos de nossos pais.

Nascemos na "Idade Média": quero dizer que nascemos e crescemos com a concepção de um Deus que "está em cima", de um inferno que "está embaixo"; com a concepção da graça e do pecado, dos sacramentos; nascemos e crescemos na ideia de uma Igreja "docente" e de uma filosofia "perene" (a escolástica), de uma sociedade civil inteiramente submetida à Igreja, na total ignorância da modernidade iluminada pelos direitos humanos racionais.

Isso foi o que respirei desde criança, e pelo qual sou muito grato pela experiência religiosa que pude cultivar; tudo isso me ajudou muito em minha vida. Não nego, portanto, os valores que recebi. Mas agora, de tudo isso, guardo o principal: "jogo fora" apenas o inútil e o prejudicial.

Ora, aquela sociedade – conosco dentro dela – conheceu uma transformação realmente radical. Ocorreu a mudança no nosso modo de pensar e de nos sentirmos neste mundo: quase não nos reconhecemos mais no que éramos, nas formas como pensávamos e vivíamos.

Mas é verdade que existem pessoas que pararam naquele tempo e se apegaram a certas verdades tornadas dogmáticas: a religião, em muitos casos, tornou-se para essas pessoas um instrumento muito eficaz de segurança e conservação. Enquanto outras abraçam com paixão a aventura de viver e de estudar a fundo tal mudança cultural e religiosa profunda, até onde isso é possível.

Hoje, também nós cristãos, católicos, estamos, portanto, junto com todos os seres humanos, muito perplexos, mas no íntimo estamos felizes com esta busca sempre nova de sentido no ponto em que chegamos, e em vista do que está por vir.

Dado de fato

Portanto, seu pensamento teológico se coloca decididamente em uma perspectiva pós-teísta?

Sim – sinceramente, e em consciência – para continuar a "dar as razões da minha esperança" (1Pd 3,15-16), sim. Sinto empatia com o crescente movimento do pós-teísmo que percorre nossas sociedades.

Penso na Europa, vejo as estatísticas: existem centenas de milhões de pessoas pós-teístas "de fato", embora provenham historicamente – em sua genética cultural e espiritual – do cristianismo clássico, teísta. A maioria dessas pessoas não se considera pós-teísta porque nunca sequer ouviu pronunciar esta palavra.

Parafraseando Karl Rahner, eu digo que são "pós-teístas anônimos": e para eles seria – e é – uma boa notícia saber que existem cristãos que empreenderam um caminho espiritual que lhes permite acessar uma versão pós-secular do cristianismo. E estou, portanto, feliz em contribuir com meu humilde trabalho de teólogo para isso.

Sinto-me dentro dessa corrente desta nova teologia que pensa ser possível outro modo de compreender a realidade: sem mais um "segundo andar" sobrenatural, sem mais dualismos, sem freios contra a razão ou contra a ciência; sem complexos de superioridade; sem exclusivismos (nulla salus extra Ecclesiam, extra Christum), sem crenças míticas; mas com diversos e outros "novos paradigmas". Estou convencido de que esta teologia – esta nova visão – seja justamente uma boa notícia para a sociedade de hoje.

Pós-teísmo significa também pós-religioso?

Refleti e escrevi que há tempos estamos entrando em um "paradigma pós-religional". Não escrevi "pós-religioso", porque penso, junto com tantos outros, que nós humanos somos religiosos no sentido profundo da palavra, e seremos sempre. Enquanto formos justamente humanos, carregaremos em nós, no profundo, o sentido do Mistério, a necessidade de conhecer e de encontrar o significado de nossas vidas, de encontrar os valores, de cultivar a qualidade profunda da vida humana.

Isso, para mim, já é ser religioso, e é isso que entendo com a palavra "religioso": uma palavra que se poderia também mudar, obviamente: talvez substituir por interioridade, profundidade, qualidade humana profunda e outros. Penso que o dia em que perdermos esse caráter religioso deixaremos de ser humanos.

Enquanto, em outra acepção, o "religional" é o que diz respeito aos modos, aos condicionamentos, aos mecanismos essenciais, às características estruturais... ou seja, o que são as religiões que conhecemos desde nossa infância.

As religiões, no fundo, apareceram há relativamente pouco tempo na face da terra: não mais de 4.500 anos atrás. No passado, "nós" éramos religiosos, mas sem religiões. A humanidade viveu muito mais tempo sem as religiões do que com as religiões. Mas hoje vivemos em um período em que as religiões estão falhando. A mídia ocidental nos fala há 40 anos da queda drástica das estatísticas, do fechamento de templos, de mosteiros, de paróquias... de batismos ou de casamentos religiosos em diminuição, etc. Às vezes, essa descida é descrita como "em queda livre".

Parece-me então claro que o "religional" – entendido como a cosmovisão e epistemologia das religiões históricas – que nos acompanha há milênios, está desaparecendo: sem nem saber o motivo, parece que o "religional" das tradições deixou de ser útil, compreensível, plausível. Em outras palavras, já nos encontramos em uma sociedade predominantemente pós-religional em que o sagrado e o religioso estão sofrendo uma grande metamorfose, juntamente com a própria sociedade humana.

Mudança de paradigma

O que os cristãos podem continuar acreditando em tal visão?

Penso que não se trata mais de "acreditar": devemos entrar em outro paradigma. Porque não se trata mais de "salvar a si mesmo", nem de "aplicar os méritos da Paixão de Cristo"; nem se trata de "tornar-se Deus" como "Deus se tornou homem por nós"; nem de "servir e louvar a Deus nosso Senhor para salvar nossa alma" (princípio e fundamento de Inácio de Loyola). Todas estas são expressões e imagens provenientes de outro tempo, que já perderam seu contato com a realidade cultural atual, e que fazem perder o contato também em quem cultiva tal contato.

Aquele paradigma de fé – isto é, acreditar no que não se vê, aceitar a revelação acima da razão, acreditar no que Deus nos revelou e que a Santa Mãe Igreja nos ensina etc. – é matéria obsoleta para grande parte da humanidade.

Essas centenas de milhões de europeus e americanos que abandonaram as crenças em que foram criados e educados não são capazes de receber a proposta do ato de fé, não são capazes de submeter sua própria compreensão à Revelação, porque esta é dita em uma língua que para eles é incompreensível.

Está em questão, portanto, o "acreditar" que este ser humano seja colocado aqui por Alguém externo e onipotente, que brinca de esconde-esconde conosco, e que nos pede para "acreditar Nele" apenas porque existe uma Igreja que diz ser depositária da primeira Revelação, para que a transmita a outros inalterada, pelos séculos dos séculos, sem que estes discípulos tenham jamais visto nem ouvido: eles simplesmente não entendem; e eu entendo que não possam entender.

Por esse motivo, acredito que não se trata mais de evangelizar, nem de proclamar as mesmas boas novas, nem de "voltar à primeira proclamação", como no Dia de Pentecostes: estamos em outro mundo, enquanto estas são fórmulas provenientes de uma sociedade que não é mais a atual.

Agora é possível apenas um "Cristianismo 2.0", no qual é preciso recomeçar com uma arquitetura teológica interna diferente. É preciso, ou seja, um novo paradigma do cristianismo, paralelo ao novo paradigma que a humanidade assumiu há algum tempo, agora de modo acelerado. Falar deste "Cristianismo 2.0" seria muito interessante. Mas deixo isso para outro momento.

Pós-teísmo e Igreja

Quais consequências o senhor vê para a institucionalidade da Igreja?

O horizonte que vejo diz respeito às religiões tradicionais em geral, não apenas ao cristianismo em particular. Mas, se você me pergunta sobre a Igreja Católica como instituição, temo ter que dizer que seu futuro é bastante sombrio, sobretudo porque não está se preparando para reagir adequadamente: é refém de si mesma, de seus dogmas; considera que não pode mais apresentá-los de outro modo, nem pode reconhecê-los como obsoletos ou revogá-los; não muda as regras do seu próprio direito canônico, ou seus costumes – por exemplo, sobre as mulheres na Igreja e sobre o celibato eclesiástico – não toca nos símbolos da fé, no Credo e nos Sacramentos que ela mesma criou e regulamentou.

A Igreja Católica continua a dar as costas à realidade, enquanto olha para si mesma, para sua salvaguarda institucional, para sua própria sobrevivência, para os números de suas estatísticas demográficas. Não busca sequer a "verdade": não aceita sinceramente a ciência e suas conclusões; prefere refugiar-se na repetição do que foi dito há séculos, perpetuando um mundo imaginário encerrado na linguagem teológica clássica, em metáforas e alegorias ultrapassadas, na linguagem litúrgica, na linguagem eclesiástica tradicional, com uma literatura escrita ao longo de milênios.

Mas a Igreja parece não se importar: continua a falar de tudo isso como sempre, sem estudar nada do que a ciência nos assegura hoje, e sem apresentar e comentar nada aos "fiéis" a fim de "protegê-los". A ciência nos diz hoje que o cérebro não foi feito para buscar a verdade, mas para "sobreviver": parece-me que algo semelhante acontece na Igreja e em todas as instituições religiosas; a sociologia nos diz que as instituições têm uma concupiscência própria e inevitável, que afeta também a Igreja enquanto instituição.

Na Igreja não existe um departamento de P+D+I (Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação), quando muito existe o oposto há cinco séculos, com a Inquisição, o Santo Ofício, a Congregação para a Doutrina da Fé (pela qual 500 teólogos foram perseguidos pelos papas Wojtyla e Ratzinger).

Em um mundo como o atual, que atravessa essa séria e acentuada mudança cultural de que falei, e que produz o sonoro fracasso expresso pelas estatísticas, a Igreja precisaria de uma nova teologia, aberta aos novos paradigmas do mundo moderno, pós-moderno, atual; esse P+D+I seria sua atividade mais necessária.

No entanto, tenho esperança: penso que a Humanidade fará seu caminho, apesar de a Igreja estar ocupada com seus interesses institucionais. Penso, portanto, no pós-teísmo como um grande movimento de antigos crentes que desceram em massa de um "Titanic" que afunda, para embarcar em uma nova aventura criativa – religiosa, não "religional" – para rumar a uma nova via de salvação livre de bagagens teológicas obsoletas ou de pesadas mochilas dogmáticas. Penso que Jesus estará – nessa rota – à nossa espera, para nos acompanhar na nova humanidade. E eu ficaria muito feliz em estar também lá, com minha modesta contribuição teológica.

Oração

Padre, o senhor reza? O que significa para o senhor rezar?

Certamente, eu rezo todos os dias e também, algumas vezes, à noite. Quando fui ordenado sacerdote, passei um pouco de tempo como capelão dos migrantes em Olten (Suíça). Lembro-me ainda de um livro que encontrei lá, na casa do padre que fui substituir: Beten ist Menschlich (Rezar é humano).

A oração é algo simplesmente humano, é a expressão daquela religiosidade do profundo de que falei antes, mesmo que se reze de um modo "não religioso", ou seja, não "religional": porque – sim – é possível rezar de um modo muito laico, simplesmente humano, nas profundezas da nossa humanidade.

Consiste em parar para entrar conscientemente em si mesmo, na profundidade: o oposto de estar distraído e o oposto de permanecer naquela superfície sobre a qual, inevitavelmente, nos movemos predominantemente.

Rezar significa então tocar a si mesmo em silêncio, escutar-se diante do Mistério da existência, do Mistério da vida e da morte – da minha vida e da minha morte que está sempre próxima –, o Mistério da amada incerteza com que posso atravessar este deserto conjuntural, o Mistério da necessidade de desfrutar de um significado bem-aventurado. Sem esta oração não poderia viver, porque não poderia me sentir humano.

Obviamente, fui teísta pela maior parte da minha vida: como todos os outros, como meus pais, como minha amada Igreja, como a sociedade, até algumas décadas atrás. Agora agradeço ao curso da Vida que me permitiu chegar a um tempo em que assisto à descoberta histórica de que Theos é um modelo de explicação da realidade que nós mesmos construímos, certamente com um bom senso e um sucesso que nos acompanharam historicamente, tornando-nos vitais.

Com muita modéstia, considero que a teologia pós-teísta está configurando – razoavelmente e bem, de modo muito responsável – o que está em questão, ou seja, o conceito de "Theos": aquela construção humana que a teologia pós-teísta está convidando a superar, além das metáforas e linguagens que confundem, e que não são mais sustentáveis.

Para uma abordagem aprofundada ao estudo do pós-teísmo, recomendo a síntese Sincere to Theos disponível em inglês. A propósito de oração, escrevi Carta a Deus para atualizar o livro das Cartas a Deus da América Latina publicado pelo PPC de Bogotá.

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