24 Fevereiro 2026
"'Fraternidade e moradia' não é apenas um tema, mas um chamado radical à vivência do Evangelho. Jesus continua pedindo morada em nosso meio, na pessoa de nossos irmãos e irmãs em situação de rua, sem teto e sem-terra", escreve Alvim Aran, filósofo e irmão formado pelo Seminário Provincial Sagrado Coração de Jesus, em Diamantina/MG.
Eis o artigo.
“Uma casa para cada família é um direito, não um privilégio” - Papa Francisco
No princípio da Boa-Nova narrada por São João Evangelista, afirma-se que a Palavra de Deus armou sua tenda no meio de nós (cf. Jo 1,14), [1] isto é, que Jesus veio habitar conosco. A expressão “armar a tenda” possui uma riqueza teológica singular, pois remete à presença concreta e solidária de Deus no meio do seu povo. Não por acaso, a Campanha da Fraternidade de 2026 abordará justamente essa realidade com o lema “Ele veio morar entre nós”, tendo como tema central “Fraternidade e moradia”. [2]
Esse tema surge em um momento particularmente oportuno, pois muitos irmãos e irmãs ainda não têm onde repousar a cabeça, assim como o próprio Filho do Homem (cf. Lc 9,58; Mt 8,20). [3] Em contrapartida, há pessoas que possuem inúmeros imóveis, muitas vezes em excesso. Trata-se de uma realidade marcada por profundas desigualdades sociais: para que alguns tenham muito, outros acabam tendo nada ou quase nada. Essa concentração de riquezas e posses nas mãos de uma pequena minoria fere o projeto do Reino de Deus anunciado e vivido por Jesus.
Quanto mais uns acumulam, mais falta a outros. Muitos acreditam que a propriedade privada constitui um direito absoluto, porém o Magistério da Igreja afirma o contrário. Na encíclica Populorum Progressio, [4] São Paulo VI ensina que “a propriedade privada não constitui para ninguém um direito incondicional e absoluto” (PP, 23). Em nome do bem comum, os bens devem cumprir uma função social, [5] de modo que ninguém seja privado do direito fundamental à moradia e que as desigualdades sociais sejam enfrentadas de forma concreta.
A Igreja Católica no Brasil, por meio de sua Comissão Pastoral da Terra (CPT), [6] assume a missão profética de lutar contra essas desigualdades, especialmente no que diz respeito ao direito à moradia. Esse compromisso encontra fundamento na vida de Jesus de Nazaré e na espiritualidade da Encarnação anunciada por São João Evangelista. Ao se fazer carne, Jesus revela que a realidade histórica e material é lugar da ação salvífica de Deus e, portanto, não pode ser desprezada.
Entretanto, muitas vezes nós mesmos desprezamos essa realidade. A falta de moradia não é apenas um problema material, mas também simbólico e relacional. Negamos ao outro, com frequência, até mesmo o espaço de ser acolhido entre nós, seja por motivos de raça, etnia, cor, divergência de pensamento ou outras diferenças que marcam a diversidade humana. Essas exclusões geram segregações tão profundas que o outro deixa de ser reconhecido como irmão.
E não deveria ser assim. Pela lógica do Reino de Deus, todas as pessoas são chamadas à comunhão e à dignidade. Não deveriam existir pessoas em situação de rua ou sem moradia. As Sagradas Escrituras nos recordam que, na casa do Pai, há muitas moradas (cf. Jo 14,2), [7] sinal de que o céu é espaço de acolhida para todos. Também aqui na terra existem muitas moradas, mas elas estão concentradas nas mãos de poucos, o que contradiz o projeto de Deus.
Como católicos, em comunhão com a CPT, somos chamados a lutar pela moradia digna para todos, acolhendo cada pessoa como se fosse o próprio Cristo e oferecendo condições concretas para que todos tenham onde repousar a cabeça. Isso exige envolvimento nas políticas públicas e compromisso efetivo no enfrentamento das profundas desigualdades sociais presentes em nosso Brasil e no mundo. A moradia digna faz parte da salvação integral da pessoa humana, pois moradia é dignidade. Sem dignidade não é possível viver plenamente, como recorda São João XXIII, na encíclica Pacem in Terris (n. 11),8 “todo ser humano tem direito à vida, à integridade física e aos meios necessários para o desenvolvimento da vida, como alimentação, vestuário e habitação”.
Enfim, Jesus armou sua tenda entre nós para nos ensinar que a fé cristã passa necessariamente pelo acolhimento e pela promoção da vida digna. Cada vez que fechamos as portas a um irmão ou irmã sem teto, fechamos as portas ao próprio Cristo. “Fraternidade e moradia” não é apenas um tema, mas um chamado radical à vivência do Evangelho. Jesus continua pedindo morada em nosso meio, na pessoa de nossos irmãos e irmãs em situação de rua, sem teto e sem-terra.
Notas
[1] BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Paulus, 2002. (Jo 1, 14)
[2] CARVALHO, Larissa. CNBB lança cartaz da Campanha da Fraternidade 2026 com foco na moradia digna. CNBB. Disponível aqui.
[3] BÍBLIA, 2002.
[4] PAPA S. PAULO VI. Populorum Progressio. A Santa Sé. Disponível aqui.
[5] BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal, 1988. Art. 5° XXIII.
[6] CPT. Quem somos? Comissão Pastoral da Terra. Disponível aqui.
[7] BÍBLIA, 2002.
[8] PAPA S. JOÃO XXIII. Pacem in Terris. A Santa Sé. Disponível aqui.
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- Desigualdade na renda, moradia e instrução. Artigo de Fernando Nogueira da Costa
- Direito à Moradia, Direito à Cidade. Revista IHU On-Line, Nº. 533
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