19 Fevereiro 2026
Quatro das cinco primeiras colocadas do Grupo Especial do Rio têm ligação direta com famílias de contraventores
A reportagem é de Gustavo Kaye, publicada por Agenda do Poder, 19-02-2026.
Quatro das cinco primeiras colocadas do Carnaval do Rio de Janeiro em 2026 são comandadas ou influenciadas por herdeiros de contraventores ligados ao jogo do bicho. A apuração do Grupo Especial, realizada na Quarta-feira de Cinzas, confirmou o protagonismo dessas famílias no topo da maior festa popular do país. As informações são de reportagem de O Globo.
A grande campeã foi a Unidos do Viradouro, que conquistou seu quarto título e consolidou uma trajetória recente de ascensão e vitórias. A escola é presidida por Marcelo Calil Petrus Filho, conhecido como Marcelinho Calil.
Ele é neto de Antônio Petrus Kalil, o Turcão, figura histórica do jogo do bicho no estado do Rio de Janeiro, falecido em 2019. Desde que assumiu a presidência, em 2017, quando a agremiação ainda estava no antigo Grupo de Acesso, Marcelinho conduziu a escola a uma sequência de conquistas e desfiles marcados pelo luxo e pela grandiosidade.
Viradouro amplia hegemonia recente
Com o título de 2026, a Viradouro soma campeonatos em 1997, 2020, 2024 e agora 2026. A escola saiu do acesso para se tornar uma das maiores potências do carnaval carioca na última década.
A gestão de Marcelinho Calil é apontada como decisiva para a reestruturação financeira e artística da agremiação, que passou a investir em produções grandiosas e elencos de peso na avenida.
A influência familiar no comando da escola reforça uma tradição histórica do carnaval do Rio, em que patronos ligados ao jogo do bicho tiveram papel relevante no financiamento e fortalecimento das agremiações.
Vila Isabel mantém protagonismo no pódio
A terceira colocação ficou com a Unidos de Vila Isabel, presidida por Luiz Guimarães desde 2022. Ele assumiu o cargo aos 24 anos.
Luiz é filho de Aílton Guimarães Jorge, conhecido como Capitão Guimarães, nome histórico do jogo do bicho no Rio. O pai segue como patrono da escola e mantém influência nos bastidores.
Em seu primeiro ano na presidência, Luiz levou a Vila ao terceiro lugar, resultado que se repetiu no Carnaval de 2026, consolidando a agremiação entre as favoritas do Grupo Especial.
Imperatriz segue tradição familiar
Na quinta posição apareceu a Imperatriz Leopoldinense, presidida por Cátia Drumond. Ela é filha de Luizinho Drumond, que comandou a escola por décadas até sua morte, em 2020.
Luizinho esteve à frente da agremiação de Ramos desde os anos 1970 e acumulou oito títulos no período. Sob a gestão de Cátia, a escola conquistou mais um campeonato, em 2023.
A sucessão familiar manteve a tradição administrativa da verde e branco, uma das mais vitoriosas da história recente do carnaval carioca.
Beija-Flor tem patrono histórico e nova geração nos bastidores
Vice-campeã em 2026, a Beija-Flor de Nilópolis segue tendo como patrono Aniz Abraão David, o Anísio, apontado como um dos nomes mais conhecidos do jogo do bicho no estado.
Aos 87 anos, ele continua presente nos desfiles e nos eventos preparatórios da escola, mesmo com limitações de locomoção. A Beija-Flor foi campeã no ano anterior e soma 15 títulos no Grupo Especial.
Nos bastidores, o dia a dia da agremiação é atribuído a Gabriel David, filho de Anísio. Atualmente, ele preside a Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa) e é apontado como uma das principais lideranças da nova geração do carnaval carioca.
O resultado da apuração de 2026 reforça um cenário em que tradição familiar, poder financeiro e influência histórica seguem entrelaçados no comando das principais escolas de samba do Rio, mantendo viva uma relação antiga entre o jogo do bicho e o espetáculo da Marquês de Sapucaí.
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