O sagrado, a desigualdade e o limite moral da democracia. Artigo de Paulo Baía

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24 Janeiro 2026

A intolerância religiosa é sempre um aviso. Onde ela cresce, a democracia adoece. Onde ela se normaliza, a violência encontra justificativa.

O artigo é de Paulo Baía, sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ, publicado por Agenda do Poder, 21-01-2026.

Eis o artigo.

Escrevo como um católico praticamente. Não como identidade fechada, mas como experiência cultural, afetiva e histórica. Escrevo a partir das missas simples, das procissões de bairro, do sino que organiza o tempo comum, do gesto quase automático de acender uma vela e pedir proteção. Talvez por isso o 21 de janeiro me atravesse como inquietação e não como celebração vazia. Esta data não repousa. Ela interpela. Ela pergunta que tipo de país somos quando o sagrado do outro se torna motivo de escárnio, suspeita ou violência.

O Dia de Combate à Intolerância Religiosa foi criado para promover o respeito, a tolerância e o diálogo entre todas as religiões existentes no mundo. No Brasil, entretanto, essa missão ganha contornos mais ásperos. Aqui, a religião nunca foi apenas fé. Sempre foi também poder, disciplina, hierarquia, linguagem política e instrumento de distinção social. O sagrado, entre nós, carrega marcas de classe, raça, território e história.

Celebrar o 21 de janeiro é reconhecer que a liberdade religiosa garantida na Constituição ainda vive sob tensão permanente. Não porque falte lei, mas porque sobra desigualdade. O Brasil construiu, ao longo do tempo, uma hierarquia silenciosa entre crenças. Algumas são vistas como legítimas, civilizadas, aceitáveis. Outras são toleradas sob condição. Outras ainda são empurradas para a margem, tratadas como ameaça moral, atraso cultural ou desvio perigoso.

As estatísticas recentes sobre intolerância religiosa não são acidentes. Elas revelam padrões. Mostram que as religiões de matriz africana seguem como alvos preferenciais da violência simbólica e material. Mas seria um erro sociológico imaginar que apenas elas sofrem discriminação. Católicos são hostilizados em determinados contextos políticos.

Evangélicos são ridicularizados em ambientes intelectuais ou midiáticos. Espíritas kardecistas enfrentam desqualificação em espaços marcados pelo dogmatismo religioso. Budistas são tratados como exotismo inofensivo, raramente como tradição espiritual complexa. Religiões indígenas são frequentemente negadas como religião e classificadas como folclore.

Muçulmanos convivem com a suspeita permanente, associados a estigmas globais de violência. Judeus enfrentam o peso histórico do antissemitismo, que ressurge sempre que crises sociais buscam culpados fáceis.

A intolerância religiosa no Brasil é seletiva, contextual e profundamente atravessada pela desigualdade social. A fé das elites raramente é questionada. A fé dos pobres quase sempre é vigiada.

A religiosidade dos favelados e periféricos carrega, desde sempre, uma marca de suspeição. Quando o sagrado nasce no asfalto quebrado, no barraco improvisado, no quintal de terra batida, ele é rapidamente associado ao perigo, à desordem, à criminalidade ou ao atraso.

Não importa se é um culto evangélico na periferia, uma gira de Umbanda, uma celebração católica popular ou um ritual indígena urbano. O que incomoda não é apenas a crença, mas o lugar social de quem crê.

A intolerância religiosa funciona, assim, como uma pedagogia silenciosa da desigualdade. Ela ensina quem pode expressar sua fé em voz alta e quem deve praticá-la com discrição. Ensina quais símbolos podem ocupar o espaço público e quais devem permanecer escondidos. Ensina que nem todo sagrado tem o mesmo valor social.

O crescimento das denúncias nos últimos anos pode ser lido de forma ambígua. Há, sem dúvida, mais consciência de direitos, mais disposição para romper o silêncio, mais redes de apoio. Mas há também um endurecimento das fronteiras morais.

A fé foi capturada pela lógica da guerra cultural. Tornou-se identidade política, senha de pertencimento, instrumento de exclusão. Em nome de Deus, constrói-se inimigos. Em nome da moral, naturaliza-se a violência simbólica. Em nome da verdade, desumaniza-se o outro.

A intolerância religiosa não é um conflito horizontal entre crenças equivalentes. Ela é um conflito vertical, marcado por relações de poder. Quem detém capital simbólico suficiente transforma sua fé em norma. Quem não detém, aprende a negociar sua existência. Esse padrão atravessa a história brasileira desde a colonização.

O cristianismo imposto como matriz civilizatória conviveu, desde o início, com a repressão das cosmologias africanas e indígenas. O que muda no tempo são as formas. A lógica permanece.

Como católico praticamente, isso me inquieta. Porque a tradição cristã que aprendi fala de amor ao próximo, de hospitalidade, de reconhecimento da dignidade humana antes de qualquer crença. Quando a religião se transforma em instrumento de humilhação, ela trai sua própria promessa. Quando se aproxima do autoritarismo moral, ela abandona o cuidado e escolhe o controle.

O 21 de janeiro também é memória. Memória de Mãe Gilda, cuja morte simboliza uma violência que não foi episódica, mas estrutural. Sua história nos lembra que a intolerância religiosa adoece, destrói e mata. Não apenas fisicamente. Mata simbolicamente. Mata trajetórias. Mata pertencimentos. Mata a possibilidade de um país que se reconheça plural.

Defender o combate à intolerância religiosa é defender a democracia em sua dimensão mais delicada. Não basta garantir o direito ao voto se o direito de crer continua sob vigilância. Não basta falar em pluralismo se apenas algumas formas de fé são consideradas aceitáveis. Onde o sagrado do outro é tratado como ameaça, a cidadania se torna frágil e condicional.

O Dia da Religião, celebrado internacionalmente na mesma data, amplia esse horizonte. Ele lembra que o diálogo entre crenças não enfraquece a fé. Apenas a torna menos arrogante. Só uma fé insegura precisa destruir o outro para existir. Só uma fé capturada pelo medo transforma diferença em inimigo.

O Brasil que se reflete no 21 de janeiro é um país em disputa permanente. Entre o fechamento moral e a convivência difícil. Entre a pureza imaginada e a mistura real. Entre a fé como ponte e a fé como muro. Essa disputa não se resolve apenas com discursos oficiais ou leis bem escritas. Ela se resolve no cotidiano. Na escola que respeita. No bairro que acolhe. No modo como olhamos o culto do outro sem riso, sem desprezo, sem suspeita.

A intolerância religiosa é sempre um aviso. Onde ela cresce, a democracia adoece. Onde ela se normaliza, a violência encontra justificativa. Onde ela se silencia, a desigualdade se reproduz.

Que o 21 de janeiro não seja apenas uma data lembrada. Que seja um incômodo permanente. Um alerta sedutor e desconfortável. Um convite a rever certezas. Porque onde uma religião é atacada, todas se tornam vulneráveis. E onde a fé é usada para excluir, a democracia perde sua alma.

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