12 Janeiro 2026
A Oxfam insta os governos do mundo a aplicarem políticas redistributivas e a agirem sobre os maiores poluidores para travar a crise climática e a desigualdade que esta gera.
A informação é de Pablo Rivas, publicada por El Salto, 10-01-2025.
A confederação de ONGs Oxfam batizou-o em 2025 como Pollutocrat Day, um termo que poderia ser traduzido como o Dia do Poluidocrata. Refere-se à jornada em que o 1% da população que detém mais recursos ultrapassa o seu “orçamento anual” de emissões de gases de efeito estufa, ou seja, o máximo de CO2 que uma pessoa pode emitir proporcionalmente para que a temperatura do planeta não aumente 1,5ºC acima dos níveis pré-industriais. Pois bem, foram necessários apenas dez dias para que esses aproximadamente 82,6 milhões de pessoas mais ricas da Terra o tenham ultrapassado.
A organização, especializada na luta contra a pobreza e a desigualdade, tornou isso público este sábado. Esse 1% seria responsável por 75,1 toneladas de CO2 por pessoa ao ano, usando dados de 2023 recolhidos pela Oxfam no relatório "O Saque Climático: uma minoria poderosa nos leva ao desastre", enquanto a última edição do Relatório sobre a Lacuna de Emissões, elaborado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, aponta que o orçamento anual de carbono compatível com limitar o aquecimento global a 1,5 °C seria de 2,1 toneladas de CO2 por pessoa.
As estimativas da Oxfam apontam que as emissões geradas em um ano pelo 1% mais rico provocarão 1,3 milhões de mortes antes que o século termine.
Refinando os números, a Oxfam denuncia que, se focarmos no 0,1% mais rico do planeta — pouco mais de oito milhões de pessoas —, o limite teria sido superado muito antes: no dia 3 de janeiro. De fato, as emissões geradas por uma pessoa neste grupo de super-ricos são 55 vezes superiores às emitidas por alguém pertencente à metade da população com menos rendimentos.
Políticas redistributivas contra o sobreconsumo irresponsável
“Denominamos esta data como Pollutocrat Day para denunciar a responsabilidade desproporcional das pessoas ultrarricas na aceleração da crise climática”, afirma o especialista em Políticas sobre Mudança Climática da Oxfam Intermón, Norman Martín.
Este porta-voz, para quem é urgente que os governos do mundo apliquem políticas redistributivas para proteger dos impactos aqueles que menos têm e ajam sobre os maiores poluidores, recorda que “a mudança climática não apenas aquece o planeta, mas também agrava as desigualdades”.
As estimativas da organização indicam que as emissões geradas em um único ano pelo 1% mais rico provocarão 1,3 milhões de mortes relacionadas ao calor antes do fim do século. Além disso, “o impacto acumulado de décadas de sobreconsumo de emissões também está causando um grande dano econômico aos países de renda baixa e média-baixa, com perdas que podem alcançar os 44 trilhões de dólares até 2050”, acrescentam.
Os dados indicam que um milionário europeu gera em uma semana as mesmas emissões de gases de efeito estufa que uma pessoa do 1% mais pobre do planeta ao longo de toda a sua vida. Um estilo de vida associado ao luxo e ao desperdício — com os jatos privados como exemplo máximo — unido aos investimentos financeiros deste seleto grupo, está por trás destes números.
Na Espanha, mais do mesmo
Para chegar à versão espanhola do Pollutocrat Day não será preciso esperar muito: basta somar seis dias à data global. No dia 16 de janeiro, o 1% da população espanhola teria gasto o seu “orçamento de carbono” se mantido o ritmo atual de emissões.
Algo semelhante ocorre com o 0,1% com mais recursos do país. As cerca de 500.000 pessoas que mais acumulam riqueza teriam gasto as emissões permitidas no dia 4 de janeiro, apenas um dia depois dos seus homólogos a nível global.
Soluções e responsabilidades
As soluções apresentadas pela Oxfam são tão conhecidas quanto pouco utilizadas. Para limitar o aumento da temperatura global a 1,5ºC, o 1% mais opulento teria de reduzir as suas emissões em 97% até o ano 2030. Isso implicaria que os Governos pressionassem para que estes ultrarricos assumissem a responsabilidade pelo dano que produzem à população.
Aumentar os impostos sobre este reduzido grupo e aplicar taxas sobre os lucros dos grandes poluidores estão entre as primeiras medidas propostas. Destaque especial para a proposta de taxar lucros extraordinários de 585 empresas de petróleo, gás e carvão, o que poderia arrecadar até 400 bilhões de dólares no primeiro ano — valor equivalente ao custo dos danos climáticos no sul global.
Eliminar os subsídios à gasolina e outros combustíveis fósseis também é uma medida destacada. Em essência, para travar a desigualdade e a crise climática, seria necessário redistribuir o esforço de redução de emissões de acordo com a pegada de carbono e a capacidade econômica.
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