Martin Luther King diante de Gaza. Artigo de Paolo Naso

Martin Luther King | Foto: National Park Service/Wikimedia Commons

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08 Outubro 2025

"Hoje, diante da tragédia de Gaza, dos medos dos israelenses e do desespero dos palestinos, não sabemos o que Martin Luther King teria dito ou feito. Mas se faz sentido lembrar seu testemunho e seu sacrifício, podemos tentar substituir Birmingham por Gaza", escreve Paolo Naso, sociólogo italiano da Comissão de Estudos da Federação das Igrejas Evangélicas na Itália e professor da Universidade de Roma La Sapienza, em artigo publicado por Riforma, 08-10-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Em 16 de abril de 1963, o pastor batista Martin Luther King estava em Birmingham, Alabama, para protestar contra a segregação racial que ainda prevalecia na cidade, apesar das decisões judiciais e das tímidas leis que deveriam tê-la proibido.

Poucas horas depois de entrar na cidade, King foi preso sob a alegação genérica de que sua presença poderia causar tumultos. Essa alegação foi apoiada por vários pastores brancos que, em uma carta aberta, acusaram seu colega de ser um agitador que estava em Birmingham para provocar inúteis desordens em uma cidade onde, segundo eles, prevalecia uma serena convivência multirracial.

Com algumas citações evangélicas defendendo o princípio teológico do respeito às autoridades e o valor da ordem pública, o convite feito a King era para retornar a Atlanta o mais rápido possível.

King ficou profundamente amargurado com a carta, vinda de colegas que, como ele, subiam ao púlpito de uma igreja todos os domingos de manhã para pregar o evangelho da graça, da liberdade e da justiça. Indignado, pediu caneta e papel para responder aos seus críticos, mas as autoridades da prisão não lhe deram nem uma coisa nem outra. Então, pegou papel higiênico e, com a ponta de um lápis que, por sorte, encontrara em sua cela, escreveu um texto fundamental na história da não violência: a Carta da Prisão de Birmingham. "Não posso ficar ociosamente parado em Atlanta e não estar preocupado com o que acontece em Birmingham", escreveu.

"A injustiça em qualquer lugar é uma ameaça à justiça em todos os lugares ... Vocês deploram as manifestações que estão ocorrendo em Birmingham. Mas sua declaração, sinto dizer, deixa de expressar preocupação semelhante com as condições que provocaram as manifestações ... É lamentável que as manifestações estejam ocorrendo em Birmingham, mas é ainda mais lamentável que a estrutura de poder dos brancos da cidade tenha deixado a comunidade negra sem alternativa... Por que ação direta? Por que sit-ins, marchas e assim por diante? Não seria a negociação um caminho melhor? Vocês estão bastante certos em clamar por negociações. Na verdade, esse é o real propósito da ação direta. A ação direta pacífica busca criar uma tal crise e promover uma tal tensão que a comunidade que constantemente se recusou a negociar é forçada a confrontar o tema. Ela busca, assim, dramatizar um tema que não pode mais ser ignorado... Sabemos por meio de experiências dolorosas que a liberdade nunca é voluntariamente concedida pelo opressor; ela tem de ser exigida pelo oprimido.... Já faz anos que ouço a palavra ‘Espere!’ Ela ressoa nos ouvidos de cada negro com uma familiaridade aguda. Esse ‘espere’ quase sempre significou ‘nunca’”.

Assim se expressava King em 1963. Hoje, diante da tragédia de Gaza, dos medos dos israelenses e do desespero dos palestinos, não sabemos o que Martin Luther King teria dito ou feito. Mas se faz sentido lembrar seu testemunho e seu sacrifício, podemos tentar substituir Birmingham por Gaza. E é impressionante como aquelas palavras proferidas em 1963 podem soar atuais e apropriadas em referência ao que aconteceu nos últimos meses e está acontecendo nestas horas.

As mulheres e os homens da Flotilha Global Sumud que tentaram se aproximar de Gaza para romper o isolamento imposto por Israel a milhões de civis palestinos deram vida a uma ação direta não violenta que segue o modelo de mobilização que foi de King e do movimento pelos direitos civis. E, como acontecia então, aqueles que nos últimos meses nada fizeram para parar a deportação forçada de centenas de milhares de palestinos de suas casas e de suas terras, hoje pedem prudência e moderação e alertam que outros caminhos poderiam ter sido seguidos. Ou afirmam que ainda são prematuros os tempos para o reconhecimento de um Estado palestino.

A história expressará seu julgamento político sobre a ação da Flotilha Global Sumud, mas já hoje devemos reconhecer sua moralidade e o fato de que essa iniciativa conseguiu quebrar o manto de silêncio da inação e da resignação em relação ao destino dos palestinos.

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