A América de Trump e a honra ao horror. Artigo de Gian Antonio Stella

Foto: Michael Vadon | Wikimedia Commons

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03 Outubro 2025

"O massacre durou seis ou oito horas... Vou lhe dizer, Ned, foi difícil ver crianças de joelhos tendo suas cabeças esmagadas por homens que se diziam civis..."

O artigo é de Gian Antonio Stella, jornalista italiano, publicado por Corriere della Sera, 01-04-2025. A tradução é de Luisa Rabolini

Eis o artigo. 

"Os ovos de piolho viram piolhos", rosnava John Chivington, o sanguinário oficial que, em 1864, ordenou a seus homens a carnificina de mulheres e crianças no Sand Creek River, um dos mais hediondos massacres de índios indefesos da história estadunidense. Tão feroz que até os estadunidenses da época, sem chegar a um processo público, se envergonharam.

No entanto, hoje há quem tema que mesmo aquela condenação moral (apenas moral) possa ser superada após a decisão indecente de Pete Hegseth, fortemente apoiado por Trump como Secretário de Defesa, de bloquear o processo que nos últimos anos parecia em andamento para revogar as Medalhas de Honra, a mais alta condecoração estadunidense, a cerca de vinte soldados que, em 1890, participaram de outro massacre, o de 350 Lakotas que em vão agitaram a bandeira branca em Wounded Knee. Uma revogação simbólica, quase um século e meio depois. Mas teria sido importante restaurar um resquício de justiça aos descendentes daqueles mortos. Tanto que Frank Star Comes Out, descendente do Chefe Big Foot, assassinado em Wounded Knee, rotulou no Washington Post a decisão como "desprezível e ofensiva à Grande Nação Sioux".

As palavras do Capitão Silas Soule, que se recusou a participar do massacre de Sand Creek, dizem tudo sobre esses massacres: "O massacre durou seis ou oito horas... Vou lhe dizer, Ned, foi difícil ver crianças de joelhos tendo suas cabeças esmagadas por homens que se diziam civis... Vi dois índios de mãos dadas, perseguidos até a exaustão, depois se ajoelharam, se abraçaram pelo pescoço e foram mortos a tiros... Todos foram escalpelados. Todos foram horrivelmente mutilados. Uma mulher foi esquartejada, uma criança foi arrancada de seu ventre e escalpelada... White Antelope, War Bonnet e muitos outros tiveram suas orelhas e partes íntimas cortadas como troféus. Se poderia pensar que era impossível para homens brancos massacrarem e mutilarem seres humanos como fizeram lá, mas cada palavra que digo é a verdade..."

Poucos meses depois, Silas Soule foi assassinado. Para os assassinos, ele havia traído sua raça. Somente em 2010 a Sociedade Histórica do Colorado pôde homenageá-lo com uma lápide. Sabe-se lá se ela resistirá à reescrita trumpiana da história...

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