Cardeal Steiner: Amazônia, uma Igreja que se evangeliza a si mesma “na força laical, ministerial, da mulher, de indígenas, de missionários e missionárias”

Foto: SL Photography | Getty Images Canva

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13 Julho 2023

O 35º Congresso Internacional da Sociedade de Teologia e Ciências da ReligiãoSOTER, que está sendo realizado na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais de 11 a 14 de julho, com o tema “A Amazônia e o futuro da humanidade: povos originários, cuidado integral e questões ecossociais”, contou com a reflexão do cardeal Leonardo Ulrich Steiner, arcebispo de Manaus, tendo como tema: “Amazônia: Evangeliza-te a ti mesmo”.

A reportagem é de Luis Miguel Modino.

Uma reflexão que não pode ignorar o território e o bioma, mas também a atitude que está ou deve estar presente na Igreja da Amazônia: “A Igreja está na Amazônia, não como aqueles que têm as malas na mão para partir depois de terem explorado tudo o que puderam. Desde o início que a Igreja está presente na Amazônia com missionários, congregações religiosas, sacerdotes, leigos e bispos, e lá continua presente e determinante no futuro daquela área. Penso no acolhimento que a Igreja na Amazônia oferece hoje aos imigrantes haitianos depois do terrível terremoto que devastou o seu país”, recordando as palavras do Papa Francisco aos bispos brasileiros durante a Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro (2013).

Uma oportunidade em que o Papa fez um chamado a buscar o “rosto Amazônico” da Igreja que está na Amazônia, com sacerdotes adaptados à realidade, corajosos, com parresia. Uma Igreja missionária, que assume a missão que Jesus confiou, destacou o cardeal, “uma Igreja que evangeliza e uma Igreja que se deixa evangelizar”. E para isso ele propôs alguns documentos para ser “uma Igreja aberta, responsável, servidora, samaritana, escutadora; uma Igreja atenta a toda a realidade onde se encontra”.

Dom Leonardo analisou o conceito de evangelização, destacando a importância da Exortação Pós Sinodal Evangelii Nuntiandi, de Paulo VI, que apresenta a evangelização como “levar a Boa Nova a todas as parcelas da humanidade”, e pergunta “quem é que tem a missão de evangelizar?”, respondendo que é o Povo de Deus, dado que “existe uma ligação íntima entre a Igreja, a comunidade, e a evangelização”. O cardeal mostrou uma dupla orientação na Igreja que é enviada a evangelizar: “evangelizar não é um ato individual e isolado, mas profundamente eclesial”, e junto com isso, “se cada um evangeliza em nome da Igreja, nenhum evangelizador é senhor da sua ação evangelizadora”. Uma evangelização que ele intui, “tem a dinâmica de sair e receber”.

Na Igreja da Amazônia tem um papel fundamental, segundo o arcebispo de Manaus, o Encontro de Santarém, como momento decisivo no caminho para uma Igreja que evangeliza a si mesma. Uma oportunidade para a Igreja da Amazônia fazer um caminho próprio após o Concilio Ecumênico Vaticano II e a Conferência de Medellin. Em 1972, os bispos da Amazônia brasileira se encontraram para refletir e discutir, o que foi recolhido no “Documento de Santarém”, que segundo o cardeal, “ele deu impulso e vida à ação evangelizadora na Amazônia”, insistindo em que “Santarém firmou uma Igreja encarnada e libertadora!”

Se firmou um caminho que “proporcionou frutos de encarnação e de profecia na evangelização junto aos povos da Amazônia”, destacando “a audácia profética recolhidas no Documento de Santarém”, inspirando a Igreja da Amazônia “no seu modo de ser e de agir”, com “Comunidades de Base onde as leigas e os leigos foram assumindo um protagonismo”. Reflexões que ele considera as sementes do Sínodo para a Amazônia, e que deu passo a sucessivos encontros onde “foi nascendo o desejo do encontro entre as Igrejas da Pan-amazônia”, um processo que levou ao Sínodo para a Amazônia, onde “percebe-se o desejo da Igreja que está na Amazônia assumir a missão de evangelizar a partir do chão em que ela se encontra”.

50 anos depois de Santarém, a Igreja da Amazônia se reuniu no mesmo local, assumindo as orientações da Querida Amazônia, mas também uma Igreja que evangeliza desde a encarnação na realidade e libertação da realidade, uma Igreja que para se evangelizar a se mesma “tem a grandeza da inculturação e da interculturalidade”, insistiu o cardeal Steiner, uma Igreja que “tem a marca da evangelização integral e libertadora”, que é servidora.

Dom Leonardo analisou a Querida Amazônia desde a hermenêutica da totalidade, insistindo desde o conceito de rosto amazônico em “traços que pudessem visibilizar a Igreja que está na Amazônia”, buscando não impor e sim despertar para a fé, para a vida do Evangelho. Uma Igreja que tem a encarnação a “expressão das culturas, religiosidades, a relação com o meio ambiente e eliminação das exclusões”. O arcebispo vê na “hermenêutica da totalidade a possibilidade de uma Igreja evangelizar”, definindo os quatro sonhos da exortação pós-sinodal como “quatro dimensões da realidade amazônica, essenciais para uma Igreja frutuosa, misericordiosa, consoladora, inculturada, transformadora, libertadora, ilumina o todo da Amazônia ou a Amazônia na sua totalidade. Os sonhos apresentados ajudam a perceber a vida e o ser da Igreja que está na Amazônia”.

O cardeal propôs alguns sinais para responder ao tema da conferência: “Amazônia: Evangeliza-te a ti mesmo”. O primeiro, uma Igreja discipular missionária e sinodal, com a missionariedade como fundamento; uma Igreja servidora, profética e defensora da vida; uma Igreja do cuidado da criação, sempre atenta ao clamor da obra criada, o cuidado com a Casa Comum; uma Igreja sinodal, com a participação dos batizados, das expressões de Igreja; uma Igreja da escuta, do diálogo, de uma realidade que na Amazônia é multirreligiosa, multicultural e multiétnica; Igreja dos mártires, expressão da fidelidade à missão recebida e a verdade do Evangelho vivida com radicalidade.

O cardeal chamou a estar juntos a caminho, considerando a Conferência Eclesial da Amazônia (CEAMA), como elemento para a Igreja da região avançar nesse Evangeliza-se a si mesma. Dom Leonardo insistiu na necessidade de desenvolver “Linhas de Pastoral de Conjunto com rosto amazônico, tendo como horizonte a encarnação e libertação, a comunhão e a participação”. Ele insiste na necessidade de muita escuta no caminho para uma Igreja com rosto amazônico, vendo a busca do rito amazônico, como elemento que “deverá ajudar na visibilização do modo de ser amazônico”, chamando a ir além de um rito litúrgico, buscando “visibilizar as manifestações culturais diferentes”.

Finalmente, o cardeal Steiner ressaltou que “a Igreja que se encarna na Amazônia está sendo gerada na multiformidade, da riqueza de dons e na diversidade cultural”. Uma Igreja que se evangeliza a si mesma, “na força laical, ministerial, da mulher, de indígenas, de missionários e missionárias; com uma hermenêutica da totalidade, com um rosto samaritano, missionário”, destacando que “é o futuro da Amazônia e da humanidade, na busca de proximidade com os povos originários, no cuidado integral e ecossocial”.

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