No governo Lula, o perspectivismo indígena e a perspectiva sobre os indígenas. Artigo de Ivânia Vieira

Sônia Guajajara e Joênia Wapichana (Foto: Cristina Ávila/Amazônia Real)

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09 Janeiro 2023

"Em 522 anos e oito meses da ocupação europeia neste país, esse é fato histórico: os indígenas estão inseridos no executivo e poderão, por meio de Sônia Guajajara, no Ministério dos Povos Indígenas, e Joênia Wapichana, na Funai, confeccionar a política indigenista brasileira considerando o perspectivismo indígena", escreve Ivânia Vieira, jornalista, professora da Faculdade de Informação e Comunicação da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), doutora em Doutora em Processos Socioculturais da Amazônia, articulista no jornal A Crítica de Manaus, cofundadora do Fórum de Mulheres Afroameríndias e Caribenhas e do Movimento de Mulheres Solidárias do Amazonas (Musas).

Eis o artigo.

O Brasil tem pela primeira vez uma instância no primeiro escalão do governo federal destinada aos povos indígenas e comandada por uma indígena. Na Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), órgão fundamental na articulação da política indigenista governamental, outra indígena está à frente.

Em 522 anos e oito meses da ocupação europeia neste país, esse é fato histórico: os indígenas estão inseridos no executivo e poderão, por meio de Sônia Guajajara, no Ministério dos Povos Indígenas, e Joênia Wapichana, na Funai, confeccionar a política indigenista brasileira considerando o perspectivismo indígena.

Os indígenas, por meio direto dessas duas mulheres, chegaram ao governo e estarão nas reuniões deliberativas do corpo ministerial agora inseridos noutro tipo de participação. Levam suas maneiras culturais e de experiência no movimento indígena desde os anos de 1980 na versão mais pública. E irão conhecer mais a fundo as outras maneiras, as atitudes coloniais até mesmo de alguns parceiros das lutas, mas que não conseguem compreender o ser indígena, suas cosmovisões e cosmologias.

Aos indígenas uma das tarefas pela qual lutaram e lutam – participar do espaço de poder e estabelecer outras condicionantes nas relações de poder – é desafiadora. De um lado, as demandas acumuladas dos povos indígenas situadas entre pequenas e históricas necessidades na saúde, na educação, na cultura, na defesa da terra, o território da significação da vida; de outro, a compreensão de que estão num embate quase companheiro com diferentes forças e têm o desafio de fazer funcionar em sintonia com suas bases, os diferentes povos indígenas, e com os compromissos assumidos publicamente pelo governo ora empossado.

Nossa torcida é para que dê certo. Porém, é preciso mais que torcer porque não se trata de campeonato de futebol, a disputa é acirrada, voraz e engloba diferentes interesses desses povos, das organizações indígenas, do movimento indígena, de grupos nacionais e internacionais, e de alguns que se consideram ainda hoje “donos” dos indígenas mantendo os níveis de tutelagem branca e eurocêntrica.

A estrutura destinada aos povos indígenas do Brasil foi concebida pela dominação com viés de exclusão caso esses povos não fossem integrados. A violência prevaleceu e ocupou as páginas da história, com muito sangue derramado. É esse ingrediente que resiste entranhado nas instituições e aprendido em sala de aula. O pensamento anti-indígena se espraiou na sociedade e naturaliza as atitudes racistas contra esses povos, refaz e reforça agendamentos a partir dessa matriz. Desconstruí-lo leva tempo e pede medidas contínuas que tem no processo educacional uma de suas bases.

A escola dos brancos, do primeiro ao terceiro grau, foi edificada em modelos vindos de fora e que trouxeram normas e códigos de enquadramento para os povos estranhos. Em Manaus, até hoje, existem complexos educacionais que sustentam slogans/missões como “educar a Amazônia” reforçando a ideia de que a região não é educada; outras recorrem ao “integrar e desenvolver a Amazônia”. Sônia e Joênia têm pela frente muito malabares na produção de maior ranhuras e rupturas no Brasil oficial e real.

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