A beatificação coletiva de Matteo Zuppi, padre dos últimos

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31 Mai 2022

 

“Ele não é somente um padre de rua, mas também um padre do mundo.” Quem rejeita o retrato do cardeal Matteo Maria Zuppi como padre callejero foi Andrea Riccardi, fundador da Comunidade de Santo Egídio, em 2015, lembrando o amigo eleito arcebispo metropolitano de Bolonha: “Muitos se concentraram na imagem dos padres de rua. Na minha opinião, eles simplesmente têm a capacidade de ler o Evangelho fora das igrejas”.

 

A reportagem é de Marco Grieco, publicada em Domani, 28-05-2022. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

O próprio Zuppi voltou ao assunto, depois, divertido: “Mas, me diga, onde mais um padre deveria estar, nos salões?”. No entanto, entre as palavras mais usadas pela imprensa italiana para saudar a sua nomeação para a presidência da Conferência Episcopal Italiana (CEI) estão: últimos, rua, padre Matteo, título com o qual, aliás, ele foi apresentado pelos jornalistas italianos na coletiva de imprensa do último dia 27.

 

Mas, além de padre, Zuppi continua sendo um dos cardeais italianos mais familiarizados com o ambiente vaticano, já o tendo respirado em família: ele é sobrinho-neto do falecido cardeal Confalonieri e filho de um dos mais famosos jornalistas da era conciliar.

 

Diplomacia a partir de baixo

 

No entanto, o que torna Zuppi tão simples desde os primeiros anos do sacerdócio, como lembrava o seu amigo, Dom Vincenzo Paglia, ao Corriere della Sera? É da Comunidade de Santo Egídio que se deve partir, o lugar do Trastevere onde amadureceu a sua vocação e deu os primeiros passos no diálogo e na assistência aos últimos, especialmente aos idosos e toxicodependentes.

 

Ele não tinha nem 30 anos quando, jovem vice-pároco de Santa Maria em Trastevere, foi entrevistado pelo telejornal Tg1 às vésperas da partida de um carregamento de 44 toneladas de produtos alimentares para Moçambique.

 

Como ele mesmo lembrou, a sua abordagem ao continente africano veio de João Paulo II, o papa que repetidamente criticou os efeitos do capitalismo global: eram os anos do afropessimismo, quando as políticas neoliberais aprisionavam o desenvolvimento do continente em uma dívida insuperável, quase sempre traduzida em conflitos civis, especialmente na África austral.

 

Foi nesse rastro que a Comunidade de Santo Egídio se inseriu, rebatizada por Igor Man como “a ONU de Trastevere”, e Zuppi se tornou a ponta de lança da sua “diplomacia silenciosa”.

 

Em 2004, falando sobre os acordos de paz de Roma à revista Messaggero di Sant’Antonio, ele explicou que o diálogo é uma “dinâmica complicada”: “Não basta falar. Mas falar é buscar uma solução; é o início da solução. Depois, há uma dinâmica que se estabelece. E, a certa altura, começa a existir uma cumplicidade entre os negociadores”.

 

Não se pode entender a abordagem de Zuppi aos marginalizados se não considerarmos essa “diplomacia a partir de baixo”, implementada nos anos da mediação em Moçambique, que tece relações a partir daquilo que une. No jornal Il Fatto Quotidiano, Francesco Antonio Grana assim o descreveu: “O retrato de Zuppi é tão simples quanto a sua desarmante capacidade de entrar em diálogo com todos os seus interlocutores, sem qualquer barreira”.

 

O político

 

No entanto, por mais vasto que seja, o mundo de Zuppi é fundamentalmente romano. Porque, se é verdade que ele prefere um simples “padre Matteo” ao título cardinalício, ele não é um outsider. O seu mundo de referência são os muros do liceu clássico Virgilio, na Via Giulia, onde teceu as suas primeiras relações com personalidades de destaque da sociedade italiana, desde o falecido David Sassoli ao próprio Riccardi, ex-ministro do governo Monti, até Francesco De Gregori.

 

Ele também é coetâneo de Riccardo Di Segni, rabino-chefe da comunidade judaica de Roma, que lembrou ao jornal La Repubblica o “conceito de equipe” que os une aos seus companheiros ainda hoje. Seu pai, Enrico Zuppi, foi um expoente de destaque do jornalismo vaticano nos anos da virada do Concílio Vaticano II, liderando o L’Osservatore della Domenica de 1947 a 1979 e mantendo relações estreitas com personalidades eminentes como o Papa Paulo VI, Giuseppe Prezzolini e Raimondo Manzini, como mostra a sua correspondência.

 

Não surpreende, portanto, que, com a sua presidência na CEI, se consolide também um papel político da Igreja italiana, que se esvaiu durante os anos da presidência de Bassetti. Por exemplo, Stefano Graziosi, no jornal La Verità, falou da “rede de Santo Egídio”, conectando a sua nomeação ao endosso à ida ao Palácio Quirinal de Andrea Riccardi por parte de Goffredo Bettini, proponente da aliança entre o Partido Democrático e o Movimento Cinco Estrelas: “É desnecessário dizer que o papel de presidente da CEI tem um caráter predominantemente nacional. Mas escolher Zuppi (para o qual o pontífice criou especificamente o título cardinalício de Santo Egídio em 2019) pode ter também uma implicação geopolítica, porque significa fortalecer indiretamente uma organização que já é influente em si mesma”.

 

Mencionando um amigo do purpurado, o ex-presidente do Conselho Democrático, Romano Prodi, Concita de Gregorio no jornal La Repubblica escreveu: “Uma vez, falando de política, ele me disse: ‘Haveria um nome em Bolonha. Infelizmente, já está empenhado em ser cardeal, talvez papa mais adiante’”.

 

No dia seguinte, nas mesmas colunas, Michele Serra falou de Zuppi como do último expoente daquele catolicismo social que condena o mercantilismo, que na política é, ao contrário, visto como um anacronismo do século XX: “Será necessário também que o esquerda secular (à qual eu pertenço com convicção) se pergunte onde estão os Zuppi sem batina, os ateus iluminados não por Deus, mas pelo sentimento de fraternidade, os socialistas verdadeiramente convictos de que ‘socialismo ou barbárie’ não é um slogan de ontem, mas uma necessidade futura, a ponto de poderem trabalhar lado a lado dos padres de rua e se livrarem do lugar-comum da esquerda encastelada nos palácios”.

 

O pároco de todos

 

Não foi em Roma, mas em Bolonha que se sedimentou o mito do Pe. Matteo. Livrando-se do papel de bispo auxiliar próximo demais da Cúria, Zuppi é apreciado pela sua proximidade com os últimos.

 

Em uma das cidades mais ricas da Itália, o purpurado romano escolheu assim uma pastoral da caridade, fazendo-se próximo dos desempregados, como os operários da Saeco, e entrando em diálogo com os mais hostis à Igreja Católica.

 

Ele falou sobre o trinômio caro ao Papa Francisco – terra, teto e trabalho – aos jovens do centro social TPO: foi a primeira vez que um bispo entrou em um centro social, e isso lhe atraiu as críticas dos conservadores, mas também ampliou o seu consenso entre os bolonheses.

 

Por um lado, ele explica a “necessidade de dialogar e debater sempre, com todas as realidades do tecido social”, reiterando, contudo, as “distâncias em muitos pontos com os centros sociais”; por outro discorda de quem o critica: “Do nosso lado, diz-se que falar é legitimar. É precisamente a ideia dos fariseus, que diziam que Jesus se fazia publicano porque falava com os publicanos”, explica em um documentário dedicado a ele, intitulado “Il Vangelo secondo Matteo Z. Professione vescovo” [O Evangelho segundo Matteo Z. Profissão: bispo].

 

Três anos depois da sua chegada a Bolonha, a revista L’Espresso fez um retrato completo dele: “Matteo Zuppi, arcebispo de Bolonha, é uma daquelas raríssimas pessoas dotadas de um carisma de verdade. No jargão de Nova York, eles o chamariam de ‘Mensch’, uma palavra que em iídiche significa ‘homem’ e que é usada para homens e mulheres capazes de escutar do mesmo modo os humildes e os poderosos, e sobretudo assumir responsabilidades”.

 

A cidade emiliana torna-se assim um laboratório daquela que será a sua imagem de pároco de todos, em diálogo com os últimos. Como o papa com Santa Marta, ele também foi morar na casa do clero, não no arcebispado, preferindo a companhia dos padres idosos aposentados.

 

Ele vai à Cúria e pelas ruas de Bolonha de bicicleta, e vem à mente a imagem de Olinto Marella, o religioso dos pobres beatificado justamente em Bolonha em 2020.

 

Matteo Matzuzzi, no jornal Il Foglio, escreveu: “Parar no habitual e um pouco obsoleto clichê sobre o fato de ser um padre de rua e próximo dos últimos (...) seria um problema acima de tudo para ele. Matteo Zuppi não é o cura d’Ars, não está em busca de beatificações e canonizações”. No entanto, a realidade bolonhesa contribuiu para fazer de Zuppi aquele cardeal um pouco “padre” de que todos gostam.

 

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