“O inferno não existe, e Jesus não fez milagres.” Entrevista com Alberto Maggi

Foto: Max Pixel

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

25 Fevereiro 2022

 

Se o ataque viesse de um incansável anticlerical, soaria algo óbvio. Mas, quando é um dos biblistas mais populares e apreciados na Itália quem declara que “a Bíblia é perigosa e faz perder a fé em vez de despertá-la pelo modo como já estamos acostumados a lê-la”, então a denúncia deve ser levada a sério, e o efeito surtido é perturbador.

 

A reportagem é de Giovanni Panettiere, publicada em Quotidiano Nazionale, 24-02-2022. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

O padre Alberto Maggi, 76 anos, rosto conhecido pelos seus comentários sobre os Evangelhos aos telespectadores da Tv2000 – a emissora de televisão da Conferência Episcopal Italiana (CEI) –, não tem medo de enfatizar que “o inferno como lugar de condenação eterna não existe” e de esclarecer que “Jesus realizou sinais, não milagres”.

Quem pensa e diz isso é um religioso da Ordem dos Servos de Maria, que conta com estudos na École Biblique de Jerusalém, o instituto mais prestigiado do mundo para quem quer abordar as Escrituras com rigor científico, e uma experiência de quase 30 anos à frente do Centro de Estudos Bíblicos de Montefano, na zona de Macerata.

 

Eis a entrevista.

 

Digamos que é preciso uma certa franqueza para definir a Bíblia como perigosa.

Ou talvez basta a experiência dolorosa de alguém como eu, que se formou em um ambiente familiar racionalista e que se defrontou com esse livro complexo que, entendido de forma literal, é absurdo.

 

Mesmo?

Pensemos em um episódio como o narrado em Marcos 11, no qual Jesus amaldiçoa uma figueira sem fruto, embora não fosse a época. Ou ele era um tolo, ou o evangelista fez com que ele passasse vergonha, ou há outra coisa.

 

O que, Pe. Maggi?

O fato de que não é possível interpretar os Evangelhos e, de maneira mais geral, todo o corpus bíblico sem levar em conta o contexto histórico em que foram escritos, os gêneros literários utilizados e o alcance simbólico de muitas passagens. Sem essas premissas, aqueles que deveriam ser textos destinados a fazer crer se tornam instrumentos idôneos para nos afastar da fé ou para fazer com que a percamos.

 

Então Martinho Lutero estava enganado ao sugerir que se entregasse a Bíblia na mão dos leigos?

As pessoas devem ser colocadas em condições de poder interagir com aquela que é a Palavra de Deus, mas é preciso um acompanhamento. Os Evangelhos não são crônicas e não foram escritos para serem lidos por todos. Eles tinham de ser transmitidos oralmente pelos leitores à comunidade, por sujeitos preparados para os reportar de forma adequada.

 

Hoje, quase em todas as casas há uma cópia da Bíblia, mas poucos a folheiam.

Deve-se compreender isso, é uma história pouco convincente cujo final já conhecemos e sobre a qual pesam condicionamentos externos que acabam nos fazendo pensar no absurdo do seu relato.

 

Quais, por exemplo?

O conceito de inferno como lugar de condenação eterna. Na Bíblia, essa palavra não aparece. Em seu lugar, há a dicção de submundo como o reino dos mortos. Há poucos anos, a última edição das Escrituras editada pela CEI também foi corrigida, mas, como prevalece a lógica do “sempre se pensou e sempre se fez assim”, há pouco esforço para mudar a mentalidade comum.

 

Então, ninguém está condenado para a eternidade no fim dos seus dias, em meio ao choro e ao ranger de dentes?

Ninguém. Nos Evangelhos, no máximo se fala de uma vida biológica que se encerra com a morte, à qual se segue ou uma existência sem fim no espírito por quem, fiel ou não, amou, ou uma morte segunda, definitiva. Essa escuridão eterna cabe a quem rejeita a oferta de vida em plenitude por parte do Senhor, que não pode ser e nunca é imposta. Não sabemos quem e quantas pessoas rejeitaram a proposta divina, rejeitando a sua luz. Paulo nos fala da misericórdia de Deus que nunca deixa de nos procurar até ao nosso último suspiro.

 

E como lidamos com os milagres?

Essa palavra também é estranha aos Evangelhos. Jesus realizou sinais para favorecer a fé, não extrapolou as leis da física. A ressurreição de Lázaro, por exemplo, tem um significado teológico, não histórico. Naquele “deixem-no ir” de Cristo aos presentes em frente ao sepulcro do seu amigo está o sinal/convite do Mestre a deixar de chorar pelo morto, como se se quisesse mantê-lo ainda conosco. Ele deve ser libertado, deve-se deixá-lo ir para a vida verdadeira, a eterna.

 

É possível objetar que, removendo o inferno e os milagres, dilui-se o discurso cristão?

Muito pelo contrário, ele é purificado de uma exegese literalista incapaz de captar a real mensagem libertadora de Deus.

 

O que você aconselharia a quem quer se aproximar dos Evangelhos?

Leia-os palavra por palavra, servindo-se de um bom comentário. Deixe de lado aquilo que lhe foi ensinado quando éramos pequenos, seja maduro e sacie a fome de Deus que há em cada um de nós.

 

Leia mais