Nossos filhos expostos à pornografia. Artigo de Massimo Recalcati

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08 Novembro 2021

 

"A busca compulsiva da pornografia como objeto de consumo imediato que satisfaça o hiperativismo neolibertino de nosso tempo não introduz de forma alguma à vida erótica, mas apenas a um consumismo sem desejo", escreve Massimo Recalcati, psicanalista italiano e professor das Universidades de Pavia e de Verona, em artigo publicado por La Stampa, 04-11-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Segundo ele, "o problema mais geral é que nosso tempo tende cada vez mais a favorecer os objetos às relações. Trata-se de uma verdadeira intoxicação. É o que Pasolini já definia em sua época como “sistema dos consumos”.

 

Eis o artigo.

 

O alarme foi lançado novamente recentemente pelo Presidente do Tribunal de Menores de Bari, Riccardo Greco: nossos filhos estão expostos ao consumo de imagens pornográficas sem nenhum filtro. Trata-se de uma exposição potencialmente nociva, pois pode promover comportamentos imitativos que corromperiam o acesso saudável à vida sexual ao enfatizar a agressão, a violência e o consumo de corpos como um fim em si mesmo. Esse alarme não é injustificado e deveria ser levado a sério. O nosso tempo, se por um lado se libertou com razão e definitivamente dos tabus que obrigavam a vida sexual a subordinar-se à máquina repressora de uma moral abertamente sexofóbica, agora o risco é o de um sexo não tanto sem tabus, mas sem amor, erotismo e mistério.

Se o nosso tempo dissolveu a sombra escura dos tabus, parece promover - também devido a uma presença massiva de pornografia acessível na rede sem qualquer filtro – uma inédita dissociação não só entre o sexo e o amor, mas também entre o sexo e o erotismo. A ligação entre sexo e amor mostra como a presença do amor é decisiva para subtrair a sexualidade do risco de sua mercificação. Se, de fato, o impulso sexual tende a buscar a sua satisfação de forma anônima, independentemente do nome próprio do parceiro - há relações sexuais, mesmo entre as muito jovens, que acontecem no mais absoluto anonimato -, o amor sempre lembra a imprescindibilidade e a insubstituibilidade do nome próprio. Ao ligar o corpo ao nome, ele torna este corpo único, amável justamente, portanto não serial, não anônimo, não um simples instrumento de gozo.

A força do amor consiste, de fato, em fazer convergir o impulso da pulsão sexual sobre o caráter único do nome do amado. Caso contrário, sem a presença do amor, a pulsão sexual desdobra seu movimento anarquicamente. Na época da adolescência, essa anarquia da pulsão obviamente não deve ser demonizada. É parte integrante da vida de todo adolescente. Em primeiro plano está a curiosidade legítima por um novo mundo de conhecimentos, sensações e experiências que giram em torno do corpo sexual. O despertar primaveril da juventude exige que esse corpo encontre suas satisfações fora da família. O problema é que essa abertura necessária pode dar origem a um acúmulo desordenado de sensações que, em vez de constituir uma experiência, tende a destruir toda forma de experiência. Bion definia o dependente de drogas como aquele que não sabe esperar.

O consumo febril de materiais pornográficos ou o acúmulo superficial de relações sexuais casuais podem ser uma manifestação significativa dessa dificuldade. Mas a espera, como, de resto, o véu e a distância, a poesia e o cuidado, é uma figura fundamental do desejo. Não saber esperar à distância pode significar proceder no sentido do consumo compulsivo de sensações sem se dar a possibilidade de torná-las uma experiência que contribui a moldar a vida. Ao acentuar o consumo sem filtro das novas sensações, a experiência erótica - não apenas a do amor - se torna impossível. Como se pode sair disso?

É justamente a cultura que nos ensina, muito mais profundamente do que qualquer curso especializado em educação sexual, que se deveria aprender a tratar o corpo como se fosse um livro. Não é por acaso que muitos hoje falam também da morte do livro. Não se pode ler um livro sem dar-se o tempo certo, sem se conceder uma pausa, uma reflexão, sem o cuidado e a dedicação que o exercício da leitura exige. Não é o mesmo para o encontro erótico entre os corpos? A busca compulsiva da pornografia como objeto de consumo imediato que satisfaça o hiperativismo neolibertino de nosso tempo não introduz de forma alguma à vida erótica, mas apenas a um consumismo sem desejo.

O corpo erótico, de fato, ao contrário do corpo pornográfico, é um corpo que se torna sujeito de experiência. Nem sempre é necessário o grande amor para que isso aconteça, mas uma cultura que torne nossos filhos e filhas sensíveis à presença do outro não como objeto a ser saqueado, mas como sujeito a ser conhecido. O corpo pornográfico exclui a dimensão da relação da vida sexual, enquanto o corpo erótico se baseia justamente na existência de uma relação. Mas o problema mais geral é que nosso tempo tende cada vez mais a favorecer os objetos às relações. Trata-se de uma verdadeira intoxicação. É o que Pasolini já definia em sua época como “sistema dos consumos”.

 

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