“A perspectiva atual resume-se a reconhecer que o aquecimento global é inevitável”. Entrevista com Jean Jouzel, climatologista

Foto: Pixabay

29 Outubro 2021

 

Em 1987, a prestigiosa revista científica Nature publicou uma série de artigos que expunham a ligação entre a concentração de gases de efeito estufa na atmosfera e as mudanças climáticas. Seus autores acabaram de marcar um ponto de inflexão na abordagem das questões ambientais.



A entrevista é de Grégoire Grossi, publicada por La Vie, 26-10-2021. A tradução é de André Langer.



Ao lado dos glaciologistas Claude Lorius e Dominique Raynaud está um discreto bretão de 40 anos: o climatologista Jean Jouzel. Um ano depois, seria criado o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), do qual Jean Jouzel será o vice-presidente de 2002 a 2015, ajudando a garantir que os governos se apropriem integralmente dessas questões.



De lá para cá, o conhecimento sobre as mudanças climáticas tem se desenvolvido continuamente. E os relatórios do IPCC se sucedem, expondo diagnósticos científicos alarmantes, como as últimas previsões publicadas no verão [no Norte] de 2021.



Este sexto relatório enfatiza mais uma vez a irreversibilidade de alguns fenômenos, assim como o papel decisivo das atividades humanas nessas mudanças. A urgência de agir torna-se cada vez mais imperiosa e os políticos devem assumir as suas responsabilidades. Mas que alavancas ainda têm à sua disposição? Por que o seu papel é decisivo? Seguem as respostas de Jean Jouzel.

 

Eis a entrevista.

 

Quais são os principais pontos do relatório do IPCC 2021?



O primeiro é que o aquecimento global é atribuído de maneira clara à atividade humana. O impacto disso é cada vez melhor documentado e de maneira completa. Mas não é apenas a temperatura. Essa mudança climática também se manifesta pela aceleração da elevação do nível do mar ou pela intensidade mais severa das ondas de calor. O clima atual é o que prevíamos há 30 anos. Este é um segundo ponto importante do relatório: a continuidade. Os vários relatórios do IPCC (seis no total) anteciparam corretamente o que está acontecendo hoje. Com o tempo, há muito mais detalhes nas projeções, o que se traduz de forma concreta na elaboração de um atlas on-line. Outro ponto importante: a observação mais precisa e detalhada dos fenômenos climáticos extremos e sua intensificação (enchentes, ciclones, secas e ondas de calor, por exemplo). É através desses eventos que percebemos a realidade das mudanças climáticas.



O Acordo de Paris, adotado em 2015, foi considerado um sucesso político. Seus objetivos ainda podem ser alcançados?



Na forma inicial da convenção do clima, assim como foi pensada em 1992 na Cúpula da Terra do Rio, a ideia era estabilizar as concentrações de gases de efeito estufa para estabilizar o clima, mas sem nenhuma meta quantificada. O Acordo de Paris, pelo contrário, mostrou bom senso ao definir uma temperatura média que não deve ser ultrapassada no longo prazo (limitar a +2°C, ou mesmo 1,5°C o aquecimento global). A perspectiva atual do legislador resume-se a reconhecer que esse aquecimento é inevitável e a perguntar: “como podemos garantir que os jovens de hoje possam se adaptar a ele, pelo menos no essencial?” Esta é uma decisão política, tomada pela convenção do clima. O papel do IPCC não é decidir, mas fazer diagnósticos. Os governos anunciam uma meta de neutralidade de carbono em 2050, mas não estamos seguindo o caminho... Em termos globais, isso exigiria a redução das emissões em 7% ao ano.

Ainda recentemente, ouvi um político dizer essencialmente o seguinte: “Nós encontraremos soluções neste momento”. Não! Ninguém vai impedir a elevação do nível do mar. A ideia de que seremos fortes o suficiente em 30 ou 40 anos para encontrar soluções está errada. Este não é um jogo e ninguém vai parar esta máquina. Devemos agora dar credibilidade à comunidade científica, o que não se fez há 30 anos.



Na verdade, em 33 anos de existência, a influência do IPCC mudou?



O objetivo do IPCC é fornecer aos governos elementos para a tomada de decisões. Por exemplo, o Acordo de Paris baseia-se efetivamente nas recomendações do 5º relatório do IPCC. O objetivo é alcançado nos textos adotados ao final da COP21. O relatório especial do IPCC sobre as consequências do aquecimento global de 1,5°C (2018), encomendado pela Conferência de Paris, defendeu a neutralidade de carbono em 2050. 130 países finalmente anunciaram essa meta. Ao ver a continuidade entre seus diagnósticos e os textos adotados pelos governos, a comunidade científica pensa que não pregou no deserto. Mas o problema é que existe uma lacuna entre os textos e os compromissos reais.

O Ocidente tem uma dívida moral e jurídica para com o mundo em termos ecológicos?



Sim, acho que sim. Mas é uma dívida sem retorno, uma dívida que não pode ser paga. Por outro lado, devemos ajudar os países em desenvolvimento a desenvolver um modelo de baixo carbono. E não “deixar que, por sua vez, também poluam”, como alguns podem defender, o que aumentaria ainda mais as emissões de gases de efeito estufa. Os países mais ricos devem começar a cumprir seus compromissos com os países em desenvolvimento (100 bilhões de euros foram prometidos para a luta contra as mudanças climáticas). Se for ajudado, o continente africano poderá se desenvolver em um modelo de baixo carbono, com possibilidades em energia eólica, solar, biomassa e hidrelétrica. E mesmo, em algumas energias, mais facilmente do que em outros continentes.



Especificamente, a demanda por “justiça climática” nas políticas executadas é cada vez mais forte. O que se quer dizer com isso? Que forma pode assumir?



Alguns países são mais vulneráveis do que outros ao aquecimento global. Frequentemente, são países que pouco contribuíram para o aumento do efeito estufa. Em alguns deles, o clima atual não é propício ao desenvolvimento. Podemos considerar que os países desenvolvidos têm então o dever de ajudar. Mas a justiça climática também aborda a questão das desigualdades sociais, asseveradas pelas mudanças climáticas.

Em parecer do Conselho Econômico, Social e Ambiental (CESE), a advogada Agnès Michelot e eu levantamos a ideia de que as camadas menos abastadas da população vão sofrer mais com as consequências do aquecimento global. É difícil passar por uma onda de calor em uma grande metrópole. No entanto, algumas pessoas não têm dinheiro para ir para outro lugar. A justiça climática trata de perguntar como garantir que os mais pobres não sejam atingidos em cheio pelo aquecimento global. Fizemos uma proposta para que todas as medidas governamentais sejam avaliadas com base em seu impacto sobre os 20% mais pobres. Existem várias possibilidades (como o isolamento térmico das casas), mas isso requer investimentos.

As medidas políticas necessárias têm a mesma eficácia a nível europeu, nacional ou local?



Todos os níveis são importantes. No nível nacional, o papel dos governos é promulgar leis e ter ambições internacionais. Existe a realidade do dia a dia, onde os territórios, as cidades e as comunidades podem atuar. Quando se trata da construção, do planejamento urbano ou da mobilidade, a política local tem ainda mais influência do que o Estado. Todos têm um papel a desempenhar. O mesmo acontece entre as empresas e as ONGs: não adianta ficar em níveis opostos, quando se trata de complementaridade. A educação também é crucial. Agora todos devem olhar na mesma direção. Ao nível das negociações para a Convenção do Clima, é a Europa que é o poder negociador. Ela define o ritmo. Não acredito que a Europa possa conduzir uma política climática sem ter uma política energética. Grosso modo, a energia, os alimentos e a agricultura são responsáveis por 90% a 95% das emissões de gases de efeito estufa.



Você engrossou a campanha com o eurodeputado Pierre Larrouturou para a criação de um “banco do clima”. O que é isso?



Se quisermos alcançar a neutralidade de carbono em 2050, cada investimento hoje deve ser avaliado em relação ao seu baixo carbono. Para isso, podemos concluir um “green deal” eficaz ou utilizar instrumentos, como um banco do clima. O qual vai existir, eu quase diria “por causa de nós”. Porque o Banco Europeu de Investimento (BEI) se apresenta praticamente como o banco europeu do clima. Mas de forma tendenciosa porque, por enquanto, parte significativa de seus investimentos não está marcada pelo selo do combate ao aquecimento global. É imperativo que esta ferramenta seja outra coisa que “green washing” [lavagem verde]!



Você acha que os governos têm interesse em consultar os cidadãos sobre as questões ambientais?



Claro! Vivenciei a Convenção do Clima do Cidadão por dentro, foi fascinante. As propostas dos cidadãos são realmente coerentes, ambiciosas e vão na direção certa. No entanto, não foram suficientemente consideradas: apenas 20% delas vão ser contempladas na lei. Os políticos têm interesse em consultar os cidadãos, mas também em ouvi-los.

 

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