A vida religiosa ainda é subversiva?

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19 Agosto 2021

 

"Hoje vivemos num mundo mais complexo e, por isso mesmo, a vida consagrada deve questionar-se para ler com profundidade os sinais dos tempos, renovando seus carismas nos vários contextos em que é chamada a ser sinal. É necessário deixar-se guiar por aquilo que está presente em sua origem: um sinal de contradição que sempre subverteu a ordem estabelecida", escreve Ademir Guedes Azevedo, padre, missionário passionista e mestre em teologia fundamental na Pontifícia Universidade Gregoriana, Roma.

 

Eis o artigo.

 

Infelizmente, para alguns o adjetivo subversivo tem a ver com ideologias. Mas quando o associamos a vida religiosa assume um outro sentido totalmente diferente. Remete-nos a fonte cristalina, ou seja, ao Evangelho, base fundante desse estilo de vida.

Em que sentido, a partir da fé, alguém se torna subversivo? Só fixando-nos na vida de Jesus podemos descobrir. Partamos de uma constatação desconfortável para alguns: Jesus foi um leigo e, como tal, teve que confrontar-se com o braço forte da religião, pois entrou na mira dos sumos sacerdotes. Cheios de si, tais senhores, piedosos e doutos nas Escrituras, eram convictos de serem detentores de um poder justificado por uma tradição religiosa. Jesus, ao invés, sente-se livre e sua autoridade era diferente, pois era confirmada no serviço oblativo para com os mais necessitados. Ele era atraído por uma ternura sem igual, nunca antes revelada, senão em sua própria vida, tratava-se de uma descoberta subversiva: há um Abbá diferente e bom, o qual perdoa imerecidamente e acolhe pecadores e gente de má fama. Essa descoberta vertical, definiu completamente o modo horizontal de Jesus encarar a vida e as relações. Ele estava tornando-se um subversivo, pois deu-se conta da existência de um amor sem limites. À medida que os fracos iam descobrindo esse segredo, iniciou-se uma revolução perigosa, pois perturbava o sono da classe poderosa de Israel.

Mas essa consciência foi se tornando algo mais claro na vida dos primeiros discípulos só com a ressurreição de Jesus: Pedro, até então medroso e traidor, enfrenta as autoridades do Templo, Maria de Madalena põe-se em marcha para anunciar que o amor venceu, Paulo vê sua vida ao avesso quando descobre o ressuscitado e não consegue mais viver se não for em Cristo. Jesus subverteu a vida deles. Algo inédito aconteceu, irrompeu na história e começou a contagiar sobretudo os mais simples.

Foi também esse evento que fez arder, inquietar, sacudir e apaixonar, os famosos padres do deserto que lançaram as bases para a vida religiosa. Insatisfeitos com a frieza e o distanciamento que a comunidade cristã estava assumindo, começaram a propor uma forma de vida mais radical, pois indicavam com o testemunho da própria vida o caminho a retomar: nunca esquecer do Evangelho, pois só ele nos purifica dos excessos que iludem a vida cristã. Não havia também essa mesma intenção todos os fundadores que viriam posteriormente? Sem dúvidas!

Hoje vivemos num mundo mais complexo e, por isso mesmo, a vida consagrada deve questionar-se para ler com profundidade os sinais dos tempos, renovando seus carismas nos vários contextos em que é chamada a ser sinal. É necessário deixar-se guiar por aquilo que está presente em sua origem: um sinal de contradição que sempre subverteu a ordem estabelecida. Se a vida consagrada perde sua característica de ser contestadora, então é chegado o momento de retomar com ousadia a sua referência ao Evangelho que sempre pôs os valores mundanos em crise. Não por acaso insistia recentemente o Papa Francisco, ao recordar da missão da vida consagrada: “Inculturar a fé e evangelizar a cultura”.

Fé inculturada não significa acompanhar a onda, mas nutrir um senso crítico que expressa a profecia que aponta para o reinado de Deus. Evangelizar a cultura é uma das tarefas mais difíceis, pois corre-se o risco de demonizar tudo o que não pertence ao mundo eclesial. Mas a cultura do Evangelho é mais ampla, pois nela todos são acolhidos.

Para a vida religiosa de hoje atualizar a sua profecia e tornar-se evangelizadora deve reaprender a ser subversiva em suas opções. Trata-se de um testemunho que reflete um estilo de vida. Será que nossas comunidades pensam nisso? E a formação das novas gerações fazem da palavra profecia um projeto de vida? Ainda se fala de doar-se e consumar-se inteiramente pelo Reino, ou esse vocabulário é estranho nas nossas redes sociais e em nossas rodas de conversa? Suscitamos aquela inquietação que desinstala e convoca a uma conversão? Minha conclusão é: ou é subversiva ou não é vida religiosa!

 

 

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