A Indonésia lamenta o massacre de crianças

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28 Julho 2021

 

"Mas as crianças não: crianças valem mais. Em todo o mundo deveria ser assim, em todo o mundo a dor e a morte de crianças deveria ser um escândalo inaceitável e inominável. E, portanto, se centenas de crianças morrem na Indonésia por causa da Covid porque não há leitos, vacinas ou medidas sanitárias adequadas, devemos nos desesperar e focar cheios de medo, como se aquelas crianças fossem nossas", escreve Elena Loewenthal, escritora italiana, estudiosa do judaísmo, em artigo publicado por La Stampa, 27-07-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

Morrem como moscas, exceto que a comparação é terrivelmente inadequada. Centenas de crianças morrem de Covid-19 na Indonésia em um ritmo tão cruel quanto regular, em sintonia com o aumento das infecções em um dos países mais populosos do mundo.

Superlotação, lentidão desarmante nas vacinações e baixo rastreamento - provavelmente essas crianças são muito mais do que as relatadas pelos números da mortalidade "oficial". Na semana de meados de julho, das cento e cinquenta crianças que não sobreviveram, pelo menos a metade tinha menos de cinco anos. Por quê? Por que esse dado que, em meio a uma pandemia sem precedentes, nos deixa estupefatos apesar de tudo ter sido visto nos últimos meses?

Mais uma vez, essa maldita pandemia parece capaz de nos surpreender com seu esgar zombeteiro, agora atingindo justamente aquela faixa etária que parecia quase imune. Será culpa da variante Delta, será culpa do despreparo global diante desse gigantesco imprevisto que nos atormenta há quase um ano e meio. Mas talvez seja principalmente culpa de outra coisa, esse massacre de inocentes. Essa coisa é chamada de desigualdade.

Um antigo adágio judaico diz que "o mundo depende da respiração das crianças ...": ter que imaginar aquelas crianças que morrem porque o vírus as sufoca é um escândalo que diz respeito a todos nós. Porque essas crianças morrem de Covid não por fatalidade, mas porque vivem em uma parte do mundo muito diferente da nossa, já que o sinal deste nosso mundo é a desigualdade.

Porque na Indonésia, quando as crianças adoecem, não sabem "para onde levá-las", segundo um pediatra, porque os hospitais estão lotados, os pacientes ficam em casa e contaminam adultos e crianças, numa cadeia sem fim.

Assim, é tão sacrossanta a campanha de vacinação do Primeiro Mundo, é tão essencial que nossos jovens e nossos filhos sejam protegidos do contágio por meio de vacinação e de medidas sanitárias quanto acabar com as desigualdades e fazer com que isso aconteça em todos os lugares, não apenas aqui, em nosso ocidente protegido. Porque se há algo que esta maldita pandemia nos ensinou é que o vírus não liga para fronteiras e distâncias: para o microrganismo letal, o Primeiro Mundo é tão bom quanto o Terceiro.

Mas as crianças não: crianças valem mais. Em todo o mundo deveria ser assim, em todo o mundo a dor e a morte de crianças deveria ser um escândalo inaceitável e inominável. E, portanto, se centenas de crianças morrem na Indonésia por causa da Covid porque não há leitos, vacinas ou medidas sanitárias adequadas, devemos nos desesperar e focar cheios de medo, como se aquelas crianças fossem nossas. E meter em nossas cabeças de uma vez por todas que essa maldita pandemia só vai acabar graças a duas coisas: as vacinas para todas e a consciência de que o vírus não discrimina absolutamente nada. Para ele somos todos iguais, nos quatro cantos do mundo. Pensando bem, não podemos culpá-lo. 

 

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