Uma reflexão sobre São Bernardo de Graciliano Ramos. Artigo de Faustino Teixeira

São Bernardo, 1972 (Reprodução de frame do YouTube)

13 Julho 2021

 

"Aqui está a chave de compreensão do romance: um personagem que busca ardentemente fazer com que tudo se encaixe como propriedade sua. E foi um processo crescente de bestialização. No início, era alguém pobre, guia de cego, filhos de pais desconhecidos e que foi criado pela preta Margarida. Aos poucos foi sendo dominado pela vontade de poder", escreve Faustino Teixeira, teólogo, professor e pesquisador do PPG em Ciências da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora – MG.

 

Eis o artigo.

 

Num projeto bem interessante levado adiante no Paz e Bem, em parceria com o IHU, da Unisinos, sobre cinema em perspectiva, debatemos no dia 07 de julho de 2021, o filme de Leon Hirszman sobre o romance de Graça: São Bernardo. O debatedor era o médico e estudioso de cinema, Angelo Atalla, com interlocuções minha e de Mauro Lopes.

 

Fiquei responsável de falar resumidamente sobre o livro, e foi bem interessante. É uma obra que me encanta desde a juventude, e sobre ela já tinha feito menção em artigo escrito sobre o tema da saúde: O projeto ético como afirmação de saúde[1].

 

O romance São Bernardo, de 1934, retrata de maneira admirável a construção de um personagem, Paulo Honório, que representa alguém seduzido pela sede de poder e que não vacila diante dos meios para alcançar o domínio de todos. Tudo o que importa é possuir e dirigir o mundo. Esse perfil traçado por Graciliano Ramos expressa de forma viva o horizonte de muitos de nossos contemporâneos, que raramente se colocaram ou colocam seriamente a questão do sentido. O filósofo francês, Luc Ferry (1966), sublinha em seu livro L'homme-Dieu ou le sens de la vie (1996), que em nossa vida cotidiana quase sempre nos escapa o significado último de nossas atividades consideradas “úteis”, ou seja, o sentido do sentido.

 

O romance de Graça foi escrito antes que ocorresse a consolidação das Leis de Trabalho, criada em 1943, e descreve uma difícil situação de exclusão dos mais sagrados direitos dos trabalhadores. Para entender o romance pude me servir de dois artigos essenciais escritos por Luiz Costa Lima[2] e Antonio Candido[3].

 

Na visão de Antonio Candido, o livro de Graça é “curto, direto e bruto”. São raros os livros que se apresentam como o dele

“tão honestos nos meios empregados e tão despidos de recursos; e esta força parece provir da unidade violenta que o autor lhe imprimiu. Os personagens e as coisas surgem nele como mera modalidades do narrador, Paulo Honório, ante cuja personalidade dominadora se amesquinham frágeis e distantes. Mas Paulo Honório, por sua vez, é modalidade duma força que o transcende e em função do qual vive: o sentimento de propriedade”[4].

 

Aqui está a chave de compreensão do romance: um personagem que busca ardentemente fazer com que tudo se encaixe como propriedade sua. E foi um processo crescente de bestialização. No início, era alguém pobre, guia de cego, filhos de pais desconhecidos e que foi criado pela preta Margarida. Aos poucos foi sendo dominado pela vontade de poder, elevando-se a grande fazendeiro, “respeitado e temido, graças à tenacidade infatigável com que manobrou a vida, pisando escrúpulos e visando o alvo por todos os meios”[5]. É um homem marcado pelo sentimento fixo de propriedade. Os outros lhe interessam na medida em que se ligam a seus negócios, como mercadorias. E diz com tranquilidade que fez coisas boas que lhe trouxeram prejuízo e coisas ruins que lhe proporcionaram lucro. A lógica que rege a sua conduta é a do utilitarismo, e quando relata os passos de sua vida a estética de sua escrita “é a da poupança”. Como diziam os caboclos da região, “todo caminho dá na venda”.

 

Paulo Honório tem um olhar quantificado. Mesmo quando pensa na construção da igreja e da escola, sua reflexão restinge-se ao poder de capital que isso implica. O personagem diz, à certa altura:

“A verdade é que não me preocupo muito com o outro mundo. Admito Deus, pagador celeste dos meus trabalhadores, mal remunerados cá na terra, e admito o diabo, futuro carrasco do ladrão que furtou uma vaca de raça. Tenho portanto um pouco de religião, embora julgue que, em parte, ela é dispensável num homem. Mas mulher sem religião é horrível”[6] .

 

Como assinala Costa Lima, “a educação, a religião e as criaturas servem e são aceitas pelo proprietário conquanto não pretendam ser mais dos que instrumentos de lucro e de defesa da propriedade”[7].

 

Em certo momento pensa em se casar, mas não propriamente por amor, mas para conseguir um herdeiro para sua propriedade de São Bernardo. Sublinha: “Amanheci um dia pensando em casar”. Isso não por amor, pois achava mulher “um bicho difícil esquisito, difícil de governar”. Queria mesmo era um herdeiro para as terras que tinha adquirido. Foi ao encontro de Madalena, que seria sua esposa, uma mulher que ele reconhecia como bondosa, mas que nunca se revelou integralmente a ele[8]. E ele reconhece que isso se deveu à sua vida e alma agrestes. A bondade de Madalena revelou-se ameaçadora para Paulo Honório, porque ameaçava “a hierarquia fundamental da propriedade e a couraça moral com que foi possível obtê-la”[9].

 

Madalena destoava por sua bondade e desejo humanitário. Seus pensamentos e atos revelavam alguém que colidia com a visão de Paulo Honório. Ele vai percebendo com horror a fraternidade de Madalena e seu “sentimento incompreensível de participar da vida dos desvalidos”[10]. Acabou sendo tomado por um ciúme mortal. Até então “ninguém fazia sombra a Paulo Honório; agora, eis que alguém vai destruindo a sua soberania; alguém brotado da necessidade patriarcal de preservar a propriedade no tempo, e que ameaça perde-la”[11]. Madalena acaba acuada e brutalizada, pois era a única “coisa” que Paulo Honório não conseguiu quantificar. Ela, que chegara em São Bernardo “cheia de bons sentimentos e bons propósitos” esbarrou na brutalidade e egoísmo de Paulo Honório[12]. Acabou não resistindo ao jeito brutal de seu marido e suicidou.

 

Costa Lima, em sua leitura do romance, identifica a ideia de reificação, tomada de autores marxistas como György Lukács e Lucien Goldmann. Com base em Marx, Goldmann sinalizou que

“já na sociedade capitalista liberal, as relações entre os homens tinham perdido muito de seu caráter qualitativo e humano para se transformarem em simples relações quantitativas. Além disso, sua essência como relações sociais e interumanas desaparecia da consciência dos homens para reaparecer sob forma reificada como propriedade das coisas”[13].

 

Talvez desconhecida por Graça, essa categoria marxista encaixa-se como luva para compreender Paulo Honório. A tragédia do personagem do livro ocorre em razão dessa reificação. Ela tem

“suas raízes na reificação da vida e dos valores estabelecida pelo seu afã de posse de S. Bernardo. É este o elemento que constitui o eixo de orientação do romance. Por ele, Paulo Honório 'seleciona' da vida e do mundo os seus aspectos meramente quantitativos ou reduzíveis à quantidade”[14].

 

Como romance “bruto”, podemos também verificar a ausência da presença da natureza como “modo de paisagem”. Em verdade “o verde das folhas, o fluir dos rios, as cores das faces e dos cabelos não combinam com o drama seco, com o lirismo desnudado com que o escritor traduz o seu nordeste”[15]. Não há no romance uma única descrição da paisagem, como indica Antonio Candido. Quando fala do Rio, é “para se falar do açude que constrói Paulo Honório”, e dos matos é para narrar “da limpa para os cultivos”[16]. O personagem “não vê propriamente a natureza, pois repara apenas nas coisas que lhe pudessem ser rendosas”[17]. E esse mundo quantitativo será aquele que o esmagará. Paulo Honório reificado foi fruto da estrutura social que o devorou.

 

Segundo Antonio Candido, o romance vem movido por dois movimentos que o integram: “a violência do protagonista contra homens e coisas” e “a violência contra si mesmo”[18]. Como consequência inevitável, o seu “aniquilamento espiritual”. E sua derrota vem descrita por ele com extremo realismo, uma vez dominado pela profunda solidão que foi fruto de sua ação entre os outros. Ele afirma no capítulo 19:

“Quando os grilos cantam, sento-me aqui à mesa da sala de jantar, bebo café, acendo o cachimbo. Às vezes as ideias não vêm, ou vêm muito numerosas – e a folha permanece meio escrita, como estava na véspera. Releio algumas linhas, que me desagradam (...). Emoções indefiníveis me agitam – inquietação terrível, desejo doido de voltar, tagarelar novamente com Madalena, como fazíamos todos os dias, a esta hora. Saudade? Não, não é isto: é desespero, raiva, um peso enorme no coração”[19].

 

No capítulo final do livro Paulo Honório faz menção aos dois anos da morte de Madalena. Anos que foram difíceis. Assim nasceu a vontade de escrever sobre sua história. Assinala que depois da morte de sua esposa procura “descascar fatos” sentado à mesa da sala de jantar, com o seu cachimbo e o seu café, sobretudo à noite com o cantar dos grilos. Dentre as coisas que relata, com sua vida reificada, sublinha:

“Sou um homem arrasado. Doença? Não. Gozo perfeita saúde (...). Até hoje, graças a Deus, nunca um médico me entrou em casa. Não tenho doença alguma. O que estou é velho. Cinquenta anos pelo S. Pedro. Cinquenta anos perdidos, cinquenta anos gastos sem objetivo, a maltratar-me e a maltratar os outros. O resultado é que endureci, calejei, e não é um arranhão que penetra esta casca espessa e vem ferir cá dentro a sensibilidade embotada. Cinquenta anos! Quantas horas inúteis! Consumir-se uma pessoa a vida inteira sem saber para que! Comer e dormir como um porco! Como um porco! Levantar-se cedo todas as manhãs e sair correndo, procurando comida! E depois guardar comida para os filhos, para os netos, para muitas gerações. Que estupidez! Que porcaria! Não é bom vir o diabo e levar tudo?”[20].

 

Paulo Honório, em seu relato, conclui que todos com os quais tratou durante a vida, todos os que o serviram, não passavam de bichos[21]. Em sua reflexão à noite, sentado à mesa de jantar, sublinha que seu modo de vida inutilizou-o: “Hoje não canto nem rio. Se me vejo ao espelho, a dureza da boca e a dureza dos olhos me descontentam”[22]. O que resta é um homem alquebrado e transformado, incapaz de qualquer nova mudança. Ainda reflete: “Sou um aleijado. Devo ter um coração miúdo, lacunas no cérebro, nervos diferentes dos nervos dos outros homens. E um nariz enorme, uma boca enorme, dedos enormes”[23]. Com a sensibilidade embotada é incapaz de ouvir o choro de seu filho, pois nem a ele sente mais amizade. São deformidades monstruosas que o assomam, mostrando sua face embrutecida.

 

Na mesa em que está sentado, a vela vai se consumindo junto com suas reflexões. Uma cena que também está presente de forma maravilhosa nos dez últimos minutos do filme de Leon Hirszman. Lá fora da fazenda, a noite se desenrola, numa “treva dos diabos” e num silêncio atordoante. O personagem conclui de forma seca: “Vou ficar aqui, às escuras, até não sei que hora, até que, morto de fadiga, encoste a cabeça à mesa e descanse uns minutos”[24].

 

Estamos, sem dúvida, diante de um dos mais lindos romances nacionais, que descreve com uma clareza impar o processo de degeneração do homem humano, para utilizar uma expressão de Guimarães Rosa. Uma redação limpa e curta para descrever a dinâmica da reificação de um personagem. Com meios modestos mas honestos de redação, Graça consegue como poucos tocar na nervura do real, acendendo para nós a “unidade violenta” de uma vida desprovida de significados. Paulo Honório, ao “vencer” na vida acabou vencido por ela, “pois a imprimir a sua marca ela o inabilitou para as aventuras da afetividade e do lazer”[25].

 

 

Notas:

[1] Faustino Teixeira. O projeto ético como afirmação de saúde. Revista de APS, Ano 3, n. 7, dez/2000 a mai/2001, p. 8-14.

[2] Luiz Costa Lima. A reificação de Paulo Honório. In: ____. Por que literatura? Petrópolis: Vozes, 1969, p. 49-70.

[3] Antonio Candido. Ficção e confissão. São Paulo: Editora 34, 1992 (em especial nas p. 24-33.

[4] Ibidem, p. 24.

[5] Ibidem, p. 24.

[6] Graciliano Ramos. São Bernardo. 23 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1974, p. 143 (capítulo 24).

[7] Luiz Costa Lima. A reificação de Paulo Honório, p. 65.

[8] Graciliano Ramos. São Bernardo, p. 115. Na visão de Antonio Candido esse capítulo 24 do livro é “um dos mais belos trechos da nossa prosa contemporânea”.

[9] Antonio Candido. Ficção e confissão, p. 27.

[10] Ibidem, p. 26.

[11] Ibidem, p. 27.

[12] Graciliano Ramos. São Bernardo, p. 193.

[13] Lucien Goldmann. Crítica e dogmatismo na cultura moderna. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1973, p. 23.

[14] Luiz Costa Lima. A reificação de Paulo Honório, p. 53.

[15] Ibidem, p. 55.

[16] Ibidem, p. 56.

[17] Ibidem, p. 57.

[18] Antonio Candido. Ficção e confissão, p. 29.

[19] Graciliano Ramos. São Bernardo, p. 115.

[20] Ibidem, p. 188.

[21] Ibidem, p. 189.

[22] Ibidem, p. 192.

[23] Ibidem, p. 194

[24] Ibidem, p. 194

[25] Antonio Candido. Ficção e confissão, p. 28.

 

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