O falso mito do esforço na América Latina

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07 Julho 2021

 

Corrupção e herança constituem, definitivamente, a combinação explicativa de boa parte da riqueza latino-americana. O esforço é majoritário, mas a riqueza não. Está concentrada em bem poucas mãos”, escreve Alfredo Serrano Mancilla, economista, diretor do CELAG - Centro Estratégico Latino-Americano de Geopolítica, em artigo publicado por La Diaria, 03-07-2021. A tradução é do Cepat.

 

Eis o artigo.

 

Como dizer a uma mulher que seu salário é compatível com o seu esforço, após trabalhar todos os dias da semana, 14 horas seguidas, limpando casas alheias? Como justificamos isso para um jovem que todos os dias acorda às 4h30 para ir trabalhar na construção e voltar para casa à noite? Quem pode assumir que o salário é um fiel reflexo do esforço?

O mito do esforço na América Latina é uma grande mentira, tanto pelo critério da subjetividade, como se o olhamos objetivamente, em números.

No imaginário dos cidadãos latino-americanos, existe uma grande maioria que não se engana com o conto de que as altas rendas provêm do esforço. Há um claro senso comum latino-americano a esse respeito.

Por exemplo, na Argentina, de acordo com a nossa pesquisa CELAG, quando se pergunta qual é a origem da riqueza das famílias mais abastadas, só 15,1% considera que se deve ao esforço. O restante acredita que é uma questão de corrupção ou de herança. No Chile, México, Bolívia, Peru e Colômbia, as porcentagens são muito parecidas (13,4%, 21,7%, 20,7%, 19,9% e 18%, respectivamente).

Mas não é apenas uma questão de subjetividade, o que as pessoas pensam está em sintonia com o que objetivamente acontece.

Essa falsa relação entre esforço e riqueza fica absolutamente demonstrada no livro O capital no século XXI, do economista francês Thomas Piketty. Nesse estudo, conclui-se que a herança é um dos principais fatores para estudar a reprodução do modelo econômico capitalista. Para ele, o controle da riqueza se transmite, em grandes proporções, por via hereditária.

É o que Kathleen Geier chamou de heiristocracy (governo dos herdeiros). Esta espécie de “capitalismo patrimonial”, de alta concentração, condiciona definitivamente o devir da economia real.

Espera-se que as 500 pessoas mais ricas do mundo entreguem a seus herdeiros a soma de 2,4 trilhões de dólares, nas próximas duas décadas. Na América Latina, o fenômeno é idêntico. Mais da metade da riqueza passa de geração em geração, sem se ver afetada por nada, nem por ninguém.

Por exemplo, em um relatório da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), chamado Um elevador social quebrado? Como promover a mobilidade social, destaca-se que na Colômbia são necessárias ao menos onze gerações para que uma criança pobre abandone tal condição. Mais de dois séculos para sair de uma condição herdada desfavorável, por mais que se esforcem. No Brasil, são necessárias nove, no Chile, seis.

O outro eixo é a corrupção, que representa uma significativa porcentagem do Produto Interno Bruto na região latino-americana. Esta é a outra variável observada pela população para explicar a procedência do dinheiro dos que verdadeiramente têm dinheiro. Ao falar de corrupção, não nos referimos apenas a um assunto circunscrito exclusivamente aos políticos. Há tanta ou mais corrupção no setor privado. Ou, melhor dito, nas grandes empresas, porque o valor da corrupção a nível de pequena e média empresa é marginal.

Corrupção e herança constituem, definitivamente, a combinação explicativa de boa parte da riqueza latino-americana. O esforço é majoritário, mas a riqueza não. Está concentrada em bem poucas mãos.

Às vezes, parece que pretendem nos impor esse veredicto tão bem ilustrado no trabalho de El Roto [Andrés Rábago García]: “Proibido ver o evidente”.

 

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