Colômbia. ‘Tchau, Duque, tchau’, canta a juventude sem oportunidades

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02 Junho 2021

 

“Ficará na memória das gerações de agora e nas do futuro esse belo canto juvenil que ressoou ao longo das mobilizações: Duque tchau, tchau Duque”, escreve Alpher Rojas Carvajal, analista político, em artigo publicado por El Tiempo, 28-05-2021. A tradução é do Cepat.

 

Eis o artigo.

 

As grandes mobilizações populares das últimas semanas, uma cena cultural das carências e expectativas, em cidades, povoados e zonas rurais da Colômbia, - por certo - caracterizadas por seu curso pacífico e a contagiosa alegria dos contingentes juvenis, não são meros agregados numéricos simbólicos, mas poderosos coletivos humanos com capacidade de se integrar e interagir, com solidariedade, na conquista de propósitos comuns e apontar para este atribulado país horizontes de paz e prosperidade.

Por isso, os integrantes deste novo movimento social já têm um capital social acumulado que mais do que justifica o denodado esforço de sua convocação e o reconhecimento geral a essa lealdade a todo custo de marchar no espaço público que dinamiza a emoção. Se virem a necessidade de suspender suas ações de reivindicação social - o que não seria um ponto de chegada, mas de partida -, o mundo já se notificou de sua marca significativa e de seu exemplar processo de busca de objetivos.

De passagem, essas multidões emitiram atestados de óbito às forças políticas tradicionais e à ultradireita bélica e despótica no poder, que já vinham atrasadas pelo ritmo febril do trem da história. No atual estado de degradação do discurso político, sua ausência nos grandes processos de busca da superação das tensões de longo prazo, na evolução da sociedade, e sua falta de sintonia com a opinião e de comunicação construtiva, nesta hora do país, provocaram sua invisibilidade. Esse espaço pode ser ocupado pelas novas maiorias que fizeram sentir seu projeto unitário desde o 21N. São conscientes de que o poder deriva, basicamente, da capacidade de agir em comum. Como diria Noam Chomsky: “Uma experiência é algo do qual se sai transformado”.

Basta dizer que tiveram, como nenhuma outra causa, uma força configuradora de estruturas que, provavelmente, se verá refletida nas próximas eleições presidenciais e parlamentares, pela via da redemocratização da sociedade e modernização das instituições, com espaços de equidade e justiça, e o esvaziamento da podridão que hoje as corrói.

Derrubar um ministro e sua reforma tributária, mais a da saúde - projetos centrais no modelo de ajuste estrutural -, em um país que possui um enorme passivo social e no qual existem estratos sociais menos favorecidos pela hierarquização do sistema social e econômico (em 2020, “a pobreza monetária saltou para 42,5%” e, atualmente, possui uma das mais profundas e amplas brechas de desigualdade entre ricos e pobres do mundo), é um acontecimento que já entrou para a história com a categoria de heroico. Assim como também ficará na memória das gerações de agora e nas do futuro esse belo canto juvenil que ressoou ao longo das mobilizações: Duque tchau, tchau Duque.

O mundo democrático não poderia deixar de se surpreender ao apreciar o sereno e, ao mesmo tempo, vibrante, indeclinável e chamativo desfile de estudantes, operários, camponeses, a maioria – senão todos – dos 115 povos indígenas, comunidades afrodescendentes, ambientalistas e intelectuais, artistas, donas de casa e avós por estas ruas cinzas das metrópoles colombianas e das maltratadas veredas camponesas, e que esse fenômeno coletivo tenha brotado em plena luz do dia, como um manancial humano em todo o seu esplendor - como José Ortega y Gasset escreveu em sua obra clássica A rebelião das massas - : “Esse cromatismo interior das pessoas simples e dignas”.

Naturalmente, era de se esperar que a comunidade internacional também estremecesse de horror pelos excessos da Força Pública contra líderes sociais e ex-combatentes do conflito interno armado (256 até o momento) que já haviam se reinserido, assim como pela nefasta ação dos vândalos, embora nada de diferente seria possível esperar do regime de barbárie do uribismo e seu séquito ultradireitista que agora domina a opinião editorial da Revista Semana. A reação foi sentida nesta mesma semana de dolorosos massacres e abusos sexuais.

Reconhecidos centros de pesquisa e pensamento, assim como analistas políticos internacionais e organismos multilaterais vinculados à Organização das Nações Unidas (ONU), puseram sua lupa científica do campo sociológico sobre o processo simultâneo de crise e despertar vivido pela sociedade colombiana, atraídos pela natureza atípica de um processo que mobiliza tantas pessoas e opiniões e que desencadeia agitados debates acadêmicos, nos quais se busca identificar o que pensam essas maiorias dos 80% que apoiam a paralisação nacional.

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