Uma nova fraternidade. Artigo de Roberto Esposito

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17 Julho 2018

No dia 14 de julho foi o aniversário da tomada da Bastilha, início simbólico da Revolução Francesa. Talvez nunca como este ano, é uma data que deve nos levar a refletir. Porque contém uma questão que desafia a consciência da Europa com uma nova urgência. O que resta daqueles princípios - Liberdade, Igualdade, Fraternidade - que cruzaram as fronteiras da França, inscrevendo-se no vocabulário da civilização moderna? Se eles ainda falam conosco, o que nos dizem? O que nos proíbem e qual seu apelo?

O artigo é de Roberto Esposito, filósofo italiano, publicado por La Repubblica, 14-07-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Desde que foram formulados em uma Europa ainda fechada na jaula do Ancien Régime, a sua vida não foi fácil e seu desenvolvimento não foi simétrico. Enquanto liberdade e igualdade usufruíram, pelo menos no papel, de um crédito universal, o princípio da fraternidade encontrou obstáculos e retrocessos. Incorporado à Constituição francesa somente em 1848, encontrou uma maior dificuldade para ser reconhecido. Sendo mais uma obrigação moral do que um verdadeiro direito, resultou mais difícil conferir-lhe um conteúdo político preciso.

Contestado primeiramente por sua origem cristã e depois até por seu viés masculino, preferiu-se dissolvê-lo em nome de uma genérica solidariedade.

No entanto, justamente a fraternidade é aquilo do que mais precisamos hoje, nesta Europa dividida por interesses contrapostos, varrida pelo vento do medo, entrincheirada nas fronteiras. Só aquela palavra, ignorada e ridicularizada, poderia se opor à espiral de ódio desencadeada pela propaganda feroz dos novos soberanistas. Não que os outros dois princípios da tríade republicana - liberdade e igualdade - tenham tido total sucesso.

O mundo contemporâneo é literalmente destroçado por novas desigualdades e infestado de regimes não-liberais. No entanto, ambos os príncipes conheceram pelo menos uma temporada heroica. A igualdade, no século XIX, quando a luta pelo sufrágio universal reduziu a discriminação e as lutas sociais mudaram as relações de força entre capital e trabalho. E a liberdade, no século XX, quando no Canal da Mancha as democracias detiveram o impacto criminoso do nazismo. Antes que se iniciasse o processo de descolonização e ruísse o último muro em Berlim.

A fraternidade, ao contrário, nunca esteve muito na moda, talvez porque não se refira, como a liberdade e a igualdade, ao indivíduo, mas põe em causa a relação entre os indivíduos e entre os povos. Porque naquela palavra, que parece excessivamente sentimental para ser traduzida em prática, vibra uma exigência imponderável politicamente e irredutível juridicamente.

Não por acaso no Tratado de Lisboa, que menciona os termos de liberdade e igualdade mais de trinta vezes, o da fraternidade não encontra espaço.

Nunca como hoje ele está calado, enterrado por regurgitações populistas, por reivindicações nacionalistas, por vingança contra o trabalho das ONGs. Nunca como hoje o Mediterrâneo vê boiar tantos mortos, homens e mulheres, adultos e crianças, no mar, ainda mais profundo, da indiferença.

Portanto, o século XXI deveria ser o da fraternidade. É isso que nos diz o 14 de julho. Naquela época também, quando a Assembleia Constituinte francesa alinhou aquelas três palavras que ainda hoje estão impressas nos frontões dos edifícios públicos, o mundo olhava em outra direção. Naquela época também a França estava sozinha, entre mil contradições e excessos, para defender a civilização moderna contra a discriminação e o privilégio. Por isso o que aconteceu em Calais e Ventimiglia é ainda mais inaceitável.

Mas a dívida da Europa, e do mundo, com a França permanece grande. Na história e também nas notícias. Esperamos que no domingo, a França jogue a final da Copa do Mundo com seu maravilhoso time interétnico, que não agrada aos racistas europeus. Mas dá uma emoção a mais àqueles que não deixaram de amá-la.

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