Cidadãos sem cidades, a rejeição do ius soli é uma automutilação

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19 Setembro 2017

“O oikos, a lei do sangue, de pertencimento, engole a ágora, o comércio de ideias e de paixões com a alteridade, a vida real, e leva ao declínio da democracia”, assinala Sarantis Thanopulos, psicanalista e psiquiatra e membro da Sociedade Psicoanalítica Italiana - SPI e da Associação Psicanalítica Internacional, autor de, entre outras obras, Il diavolo veste ISIS. Lo straniero di casa (Asterios, 2017), Il desiderio che ama il lutto (Quodlibet, 2016) e Lo spazio dell'interpretazione (Borla, 2009), em artigo publicado por Manifesto, 16-09-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

Segundo ele, “a cidade não existe sem trocas, e querê-la assim vai nos transformar em cidadãos sem cidades. Órfãos, sem percepção da própria orfandade, de uma política capaz de por em diálogo o medo de hoje com a esperança de amanhã”.

Eis o artigo.

Os acordos do governo italiano com os líbios têm reduzido drasticamente o fluxo de migrantes. A restrição a jusante cria um congestionamento a montante. A ONG "Médicos sem Fronteiras" denunciou esses acordos que usufruem de financiamentos europeus: alimentam um sistema criminal de violência e abusos nos campos de reclusão na Líbia, onde as massas de migrantes, sem terem via de saída, ficam estagnadas.

Somos prisioneiros de uma política míope, contaminada por uma epidemia de cegueira psicológica e destinada a produzir grandes danos também por suas graves recaídas éticas. A expressão de um quadro coletivo defensivo e rígido, que gratifica as iniciativas restritivas com um vasto e rápido consenso político, mostrou sua verdadeira face, não mais coberta da distância entre nós e a Líbia, na expulsão dos refugiados eritreus de Roma.

A tendência para a expulsão que se esconde por trás das técnicas de contenção.

Paolo Franchi, em seu comentário, expressou uma fundada preocupação sobre o nosso país, "incapaz de provar a si mesmo que pode manter unidas a exigência, incontornável, de segurança e a demanda, infelizmente bem mais facilmente arquivável, de respeito pelos direitos e de solidariedade (quer se trate de migrantes, ou mais simplesmente de pobres)". Não se deixando distrair, captou a conexão entre a expulsão e a sua definição, pela prefeita de Roma, como 'operação de limpeza'. Há um forte apelo para a 'limpeza', ao mesmo tempo social e étnica, que se difunde no Ocidente de maneira homogênea.

Trump, nos Estados Unidos, cancelou o plano para os "Dreamers" programado por Obama, que concedeu a 800.000 jovens - trazidos ilegalmente para o país por seus pais quando eram menores de idade – vistos de estadia de dois anos renováveis para estudar e encontrar trabalho.

Na Suécia, uma mulher afegã de 106 anos, que atravessou, transportada por seu filho e seu neto, montanhas, desertos e florestas, enfrenta o risco de deportação porque o seu pedido de asilo foi rejeitado.

Na Itália, a votação do Ius Soli foi novamente adiada: não teria a maioria parlamentar. Essa atitude cruel nos confrontos daqueles que não têm direitos, tem uma conotação suicida que a estupidez pode tornar invencível. É do nosso interesse imediato que quem nasceu ou cresceu, estuda e trabalha em nosso meio, contribuindo para o nosso desenvolvimento cultural e econômico, usufrua de condições paritárias no plano das possibilidades e dos direitos e não seja colocado em uma posição precária, a ponto de ser expulso ou ter que sair.

É no nosso interesse futuro que essa abertura ao outro com quem co-habitamos, o outro com quem não compartilhamos o pertencimento a uma comunidade, se desenvolva em uma ideia de cidadania excêntrica ao nosso senso de gravidade.

A rejeição ao Ius soli é uma automutilação, não simplesmente a negação de um pensamento ou de uma significação, mas a recusa, a negação da realidade.

Está enraizada no ódio ilegítimo contra a ligação da mãe com o pai, a articulação do nosso vínculo com as relações sociais. O ódio que expulsa, cheio de indiferença, nos confrontos do pai rival, o primeiro migrante, torna os conflitos irreconciliáveis e institui como autoridade uma mãe/pátria virginal que não é mais nem mãe nem cidade.

O oikos, a lei do sangue, de pertencimento, engole a ágora, o comércio de ideias e de paixões com a alteridade, a vida real, e leva ao declínio da democracia.

A cidade não existe sem trocas, e querê-la assim vai nos transformar em cidadãos sem cidades. Órfãos, sem percepção da própria orfandade, de uma política capaz de por em diálogo o medo de hoje com a esperança de amanhã.

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