Pai-Nosso. “Não nos induzais” ou “não nos exponhais”: em busca de um verbo

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08 Junho 2017

“Em palavras simples, Jesus constata que, na vida, nós devemos enfrentar provações que também podem se tornar tentações a abandonar Deus. Pedimos, portanto, que o Senhor não nos faça entrar em situações de tamanha dificuldade.”

A opinião é do pastor valdense italiano Eric Noffke, professor de Novo Testamento na Faculdade Valdense de Teologia em Roma, em artigo publicado por Riforma, 04-05-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A partir do primeiro domingo do Advento de 2017, a Igreja Católica francesa vai introduzir na sua liturgia uma nova tradução do Pai-Nosso (na realidade, já publicada em 2013), que substitui a frase “et ne nous soumets pas à la tentation” por “et ne nous laisse pas entrer en tentation” [a tradução em português diz: “e não nos deixeis cair em tentação”]. Essa escolha foi feita não só como resultado de décadas de debates internos, mas também por uma exigência ecumênica, estando a nova versão difundida nas traduções francófonas contemporâneas.

E na Itália? Pode ser interessante fazer um balanço da situação às vésperas da publicação da “Bíblia da Reforma” (até outubro, será lançado o Novo Testamento). A situação é curiosa. Nas liturgias oficiais, de fato, as posições são muito firmes, desde que, em âmbito protestante, a Riveduta (a Luzzi de 1924) introduziu a tradução “non esporci” [não nos exponhais], enquanto a liturgia católica continua preferindo o “non indurci” [não nos induzais] (como a Diodati ainda em 1641).

Entre as traduções recentes, em vez disso, assiste-se a uma diversificação em relação à tradição. A nova Bíblia da Conferência Episcopal Italiana (2008) propõe um “non abbandonarci alla tentazione” [não nos abandoneis à tentação] (discute-se se se deve adotá-la também em âmbito litúrgico) e a Traduzione Interconfessionale in Lingua Corrente (Tilc) traduz “fa’ che non cadiamo nella tentazione” [fazei que não caiamos na tentação].

Essa incerteza nasce da dificuldade de traduzir o verbo grego eisfero: “levar em”, “fazer entrar”. Jerônimo o traduziu em latim com inducere e daí vem o italiano “induzir”, apenas aparentemente mais literal. A razão da tradução de Luzzi foi bem explicada por Giovanni Miegge: “induzir”, em italiano, implica a ideia de exercer pressão sobre alguém para que faça algo, talvez contra a sua vontade, mas o verbo grego absolutamente não quer dizer isso.

“Expor” certamente é “menos vigoroso, menos elegante e parece uma atenuação, mas, pelo menos, não se presta ao escândalo” (de Il Sermone sul Monte, Ed. Claudiana, 1970, p. 216).

Mas o que significa “fazer entrar na tentação”? Luzzi (citado em Miegge, op. cit., pp. 218-219) parafraseava assim o sentido das palavras de Jesus: “Não nos conduzais a situações tão de provação que se tornem, para nós, uma tentação. Em palavras simples, Jesus constata que, na vida, nós devemos enfrentar provações que também podem se tornar tentações a abandonar Deus. Pedimos, portanto, que o Senhor não nos faça entrar em situações de tamanha dificuldade.

Como diversos exegetas ressaltam, aqui Jesus não quer desenvolver um discurso teológico sobre a teodiceia, sobre a origem do mal e do sofrimento. Em vez disso, devemos ler essa afirmação do Pai-Nosso na ótica dos antigos, segundo a qual Deus conduz a nossa vida, segurando-a firmemente nas suas mãos.

O fato de a versão do Pai-Nosso de Mateus acrescentar, em relação com Lucas, a frase “Livrai-nos do mal” torna ainda mais evidente o conceito em toda a sua simplicidade.

Como traduzir, portanto, o verbo eisfero, respeitando a sua imediaticidade, sem deturpar o seu significado? Na comissão da “Bíblia da Reforma”, a discussão está em aberto, e estamos trabalhando sobre as diversas propostas que nos chegam: de quem propõe permanecer no “expor” até quem preferiria, mais literalmente, “não nos façais entrar na provação”. Se alguém tiver uma alternativa, dê um passo à frente! (Página do Facebook “Bibbia della Riforma” ou o site). 

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