Amoris Laetitia? “É de chorar!”

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09 Mai 2016

Amoris Laetitia é uma Exortação Apostólica que leva por título A alegria do amor, e que nos faz chorar”, afirma D. Fellay, bispo responsável pela Fraternidade São Pio X.

A declaração da Fraternidade São Pio X sobre a Exortação pós-sinodal Amoris laetitia do Papa Francisco, de 19 de março de 2016, é publicada pela página eletrônica A entidade, 07-05-2016, em várias versões. A tradução da versão espanhola é de Benno Dischinger.

Eis o texto.

Amoris Laetitia é uma Exortação Apostólica que leva por título A alegria do amor, e que nos faz chorar.

Entre as numerosas tomadas de posição, explicações e comentários divulgados sobre Amoris laetitia, três estudos realizados por sacerdotes de nossa Fraternidade tem sido publicados recentemente: A exortação pós-sinodal Amoris laetitia: uma vitória do subjetivismo do Rev. Padre Christian Thouvenot. A Casa Generalícia aprova e subscreve por inteiro estes estudos, que se complementam harmoniosamente e dão uma visão de conjunto do documento do Papa Francisco.

O procedimento seguido nos dois sínodos e as circunstâncias que os rodearam já provocaram numerosas perguntas: no consistório extraordinário de fevereiro de 2014, só se convidou o Cardeal Walter Kasper para que precisasse o tema do sínodo, quando era notório que militava há anos pelo levantamento da proibição de direito divino de dar o Corpo de Cristo aos pecadores públicos.

O informe provisório, Relatio post disceptationem, publicado em outubro de 2014 durante o primeiro sínodo, não correspondia aos resultados das discussões. No informe final se incluíram os temas que não haviam sido aprovados pelo sínodo. Precisamente antes do segundo sínodo ordinário, o Papa publicou dois Motu próprio que se referiam exatamente ao tema do sínodo, facilitando o procedimento canônico das declarações de nulidade de matrimônios.

E uma carta confidencial de treze cardeais que expressava os temores sobre o resultado do sínodo, era qualificada publicamente como conspiração. A questão da admissão à sagrada comunhão dos divorciados tornados a casar já foi tratada várias vezes pela Igreja que respondeu claramente, inclusive nestes últimos anos [1]. Portanto, um novo debate sobre o ensinamento constante e a prática da Igreja só podia prejudicá-las e obscurecê-las, em vez de lançar nova luz. É o que sucedeu.

De um documento pontifício se espera uma exposição clara do Magistério da Igreja e da vida cristã. Pois bem, como outros o destacaram com razão, Amoris laetitia é mais um tratado de psicologia, de pedagogia, de teologia moral e pastoral e de espiritualidade. A Igreja tem a missão de proclamar os ensinamentos de Jesus Cristo a tempo e além do tempo e de apresentar as conclusões que se impõem para o bem das almas. Compete-lhe recordar a Lei de Deus, e não minimizá-la nem explicar como, em certos casos, seria inaplicável. Deve afirmar os princípios cuja aplicação concreta deixa aos pastores de almas, ao confessor, como também à consciência iluminada pela fé, uma regra próxima do obrar humano.

Em sua busca de uma pastoral da misericórdia, o texto está marcado, em certas passagens, pelo subjetivismo e o relativismo moral. A regra objetiva é substituída, à maneira protestante, pela consciência pessoal. Este veneno tem suas raízes, entre outras coisas, no personalismo que, na pastoral familiar, já não coloca o dom da vida e o bem da família em primeiro plano, senão a realização pessoal e o desenvolvimento espiritual dos cônjuges.

Com respeito a este ponto, há que lamentar uma vez mais a inversão dos fins do matrimônio esboçada na constituição pastoral Gaudium et Spes do Concílio Vaticano II, inversão que se encontra também em Amoris laetitia. A chamada lei da gradualidade lança por terra a moral católica.

As consequências de Amoris laetitia já se fazem sentir na Igreja: um pároco, em conformidade com seu dever, se nega a dar o Corpo de Cristo a pecadores públicos, enquanto ouro convida todo o mundo à santa comunhão. O Presidente da Conferência Episcopal das Filipinas declarou que Amoris laetitia seria imediatamente posta em prática em seu país e que, portanto, em certos casos, pessoas divorciadas e tornadas a casar receberiam a comunhão [2]. Uma divisão profunda se perfila no seio do episcopado e do Sacro colégio. Os fiéis estão desorientados e a Igreja toda sofre por esta ruptura.

Questionar a obrigação de observar em todos os casos os mandamentos da lei de Deus, em particular o da fidelidade conjugal, é capitular ante a ditadura dos fatos e do espírito da época: já em numerosos países – na Alemanha, por exemplo – se pisoteia, desde faz muito, a prática que deriva deste mandamento divino. Em lugar de elevar o que está ao nível do que deve ser, se rebaixa o que deve ser ao que é, à moral permissiva dos modernistas e progressistas. Os que já não convivem dentro do matrimônio, mas que nesta situação tem permanecido fiéis à promessa que fizeram ante o altar, de maneira muito virtuosa e às vezes heroica, se sentem traídos. É para chorar.

Rogamos humilde, porém decididamente, ao Santo Padre que revise ao menos o capítulo 8 [oito] de Amoris laetitia. Como nos textos do Concílio Vaticano II, o que é ambíguo deve ser interpretado de maneira clara, e o que está em contradição com a doutrina e a prática constante da Igreja deve ser retirado, para glória de Deus, pelo bem de toda a Igreja, pela salvação das almas, especialmente daquelas que estão em perigo de deixar-se enganar pela aparência de uma falsa misericórdia.

Menzingen, 02 de maio de 2016 - na festa de Santo Atanásio.

Notas:

[1] Cfr. Exortação apostólica Familiaris consortio (n° 84); Catecismo da Igreja Católica (n° 1650); Carta da Congregação para a Doutrina da Fé de 14 de setembro de 1994; Declaração do Conselho Pontifício para os textos legislativos de 24 de junho de 2000.

[2] Declaração de 9 de abril de 2016: “Esta é uma disposição de misericórdia, uma abertura de coração e espírito que não necessita de nenhuma lei, nem aguarda diretrizes ou indicações. Pode e deve pôr-se em prática imediatamente”.