O relato de Deus na humanidade da liturgia

Mais Lidos

  • Conhecer Jesus. Artigo de Eduardo Hoornaert

    LER MAIS
  • Freira de 82 anos é morta em convento brasileiro

    LER MAIS
  • Para o pesquisador e membro do coletivo Aceleracionismo Amazônico, é necessário repensar radicalmente as possibilidades políticas tributárias de um paradigma prenhe de vícios modernos

    Pensar de modo abolicionista produz uma ética da generosidade. Entrevista especial com Bräulio Marques Rodrigues

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

09 Junho 2011

É preciso compreender a liturgia como exegese viva da Palavra de Deus e lugar eclesial da própria Palavra. Sim, a liturgia é o lugar da experiência da Palavra e do Espírito.

A opinião é do monge e teólogo italiano Enzo Bianchi, em artigo publicado na revista mensal, italiana Jesus, junho de 2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o artigo.

O "hoje" da vida eclesial, um hoje que se refere a grande linhas dos últimos 15 anos, é marcado pelo conflito: "a liturgia", que, pela sua natureza, quer ser lugar de comunhão e espaço em que o Senhor ressuscitado e vivo doa a paz à sua comunidade ("Pax vobis!", Jo 20, 19.21.26), é "lugar de conflito", de contraposição, de deslegitimação recíproca, de acusações próprias a uma lógica sectária e, em todo caso, não conforme ao espírito do Evangelho.

Toda a Igreja sofre com isso, é uma Igreja afflicta, para retomar uma expressão do magistério, e, nessa verdadeira situação de aporia, em que muitos não sabem o que dizer e o que fazer, registra-se uma paralisia que não é a conservação da tradição nem preparação de um futuro eclesial fecundo.

Mas nos perguntemos: a liturgia que vivemos hoje na Igreja, a liturgia desejada pelo Concílio Vaticano II, é capaz de ser o lugar, o local em que os fiéis podem ser sujeitos da fé cristã, capazes de experimentar o que a fé permite viver, capazes de acolher uma esperança a ser oferecida e proposta aos outros homens?

Ou a liturgia é tentada a se tornar um não lugar, ou seja, um espaço em que os homens não vivem o seu hoje no hoje de Deus, em que não encontra acolhida a humanidade real, concreta e cotidiana, em que se consuma um "sagrado" que não tem nada a ver com Jesus Cristo?

Nesse contexto, alguns elementos assumem uma importância particular para o nosso futuro de fiéis, convictos de que a liturgia é fons et culmen (cf. SC 10) de toda a sua identidade, do seu estar no mundo. Acima de tudo, creio que, em um futuro próximo, um verdadeiro empenho da Igreja deveria ser direcionado à aquisição e à compreensão da qualidade sacramental da Palavra, sem a qual permanece a patologia de um primado do eco da Palavra de Deus dita e pregada, e não da própria Palavra. É Cristo que fala quando se proclamam as Escrituras que contêm a Palavra. Não só: é o Senhor que opera, que age, que cria o evento de salvação. Um destaque, infelizmente ignorado, das premissas ao Ordenamento das Leituras da Missa, de 1981, se lembra disso, assim exprimindo uma das tarefas de quem preside a liturgia: "[Ele] alimenta a fé dos presentes no que se refere àquela Palavra que, na celebração, sob a ação do Espírito Santo, se faz sacramento" (§ 41).

É preciso verdadeiramente compreender a liturgia como exegese viva da Palavra de Deus e lugar eclesial da própria Palavra. Falta ainda uma reflexão adequada sobre a exegese litúrgica das Escrituras e também se ignora o fato de que os fiéis católicos têm o seu contato com as santas Escrituras quase exclusivamente na liturgia eucarística: só mediante essa reflexão se poderá levar os cristãos a viver a verdade do sacramentum como visibile verbum!

Além disso, devo confessar toda a minha preocupação e também o meu sofrimento com uma permanente incompreensão da relação entre liturgia e espiritualidade, ou melhor, com um equívoco que me parece sempre mais profundo e certificado. Quem, como eu, conhece há anos uma vida cristã alimentada pelos pia populi cristiani exercitia, pelas devoções e manifestações da piedade popular, alimentou grandes esperanças na hora da reforma litúrgica: naquele momento, de fato, se descobria e se assumia a convicção de que a vida espiritual pessoal não pode ter outra fonte que a liturgia, a liturgia eucarística sobretudo, a liturgia das horas, a liturgia dos sacramentos.

Como não confessar, por exemplo, que a restauração da vigília pascal desejada pela reforma de Pio XII, no início dos anos 1950, mudou a nossa espiritualidade, pondo no seu centro o mistério pascal, o mistério da morte e ressurreição do Senhor Jesus? A eucologia das coletas do tempo litúrgico e para as diversas necessidades, depois, junto com a liturgia das horas dominicais, eram a fonte da nossa espiritualidade.

Mas o que aconteceu depois, em contradição com a intenção da reforma litúrgica e o amplíssimo material que ela punha à disposição como fonte de espiritualidade autêntica para todo cristão? Por que, na Itália, as dioceses e seus escritórios litúrgicos, quando há uma assembleia diocesana, ou de presbíteros, ou de religiosos, ao invés de celebrar a liturgia das horas, preferem fabricar, comumente com diletantismo, liturgias em que não se é mais capaz de exprimir uma lex orandi?

Infelizmente, na espiritualidade atual, a referência à liturgia está ausente: muitas são as referências à oração; raríssimas as referência à liturgia... É bom que se fale da relação entre Bíblia e espiritualidade, ou da lectio divina, mas o mesmo esforço pela lectio, feito por alguns bispos e Igrejas locais, assim como por muitos fiéis, deveria ser acompanhado por uma maior atenção e por um empenho em favor da liturgia, a fonte da espiritualidade: tudo isso na consciência de que o lugar privilegiado para acolher a Palavra é justamente a liturgia!

Sim, a liturgia é o lugar da experiência da Palavra e do Espírito, mas lugar que continua sendo muito humano, em que o homem inteiro, na sua unidade de corpo, psique e espírito, é sujeito da experiência do Deus que vem a ele.

Portanto, só com uma atenção e uma inteligência que saiba captar a humanidade da liturgia é possível acolher nela o "mistério da fé". Lê-se no prólogo do quarto evangelho: "Ninguém jamais viu Deus; mas o Filho", o homem Jesus, "exeghésato", "no-lo relatou" (Jo 1, 18).

Paralelamente, poderíamos dizer que só na humanidade autêntica da liturgia pode-se encontrar o relato de Deus, porque a liturgia é o exeghésato, aqui e agora, para nós, cristãos.