Francisco aos jesuítas: ''Ajudemos os jovens desempregados em risco de suicídio, drogas e terrorismo''

Papa Francisco na Igreja de Jesus, em 2013. Foto: VaticanNews

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02 Agosto 2018

As frases bem-humoradas (“Apascentar os jesuítas seria como apascentar um rebanho de sapos”) e as análises cruas da realidade contemporânea se alternam no discurso que o Papa Francisco dirigiu aos coirmãos jesuítas que participam, até o dia 20 de agosto, do encontro anual de formação “European Jesuits in Formation”, em Roma.

A reportagem é de Salvatore Cernuzio, publicada em Vatican Insider, 01-08-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Liderados pelo presidente da Conferência dos Provinciais Europeus, Franck Janin, e pelos delegados da formação europeia e da província euromediterrânea, Alessandro Manaresi e Angelo Schettini, no total, eram cerca de 30 jovens que se encontram na manhã dessa quarta-feira, 1º de agosto, com Francisco na “Auletta” da Sala Paulo VI, antes da Audiência geral.

E foi justamente aos jovens e sobre os jovens que o pontífice falou no seu discurso todo de improviso, respondendo a algumas perguntas. Em particular, no centro das reflexões e das preocupações do papa, estão os dramas que hoje dificultam o caminho das novas gerações: o desemprego, em primeiro lugar, que muitas vezes desemboca no suicídio, depois as dependências de drogas e do álcool, e, por fim, o desvio terrorista em que caem os jovens que já sentem que não têm mais nada a perder.

O desemprego “é um dos problemas mais agudos e mais dolorosos para os jovens, porque vai direto ao coração da pessoa”, diz o papa, questionado por um jesuíta inglês. “A pessoa que não tem trabalho sente-se sem dignidade. (...) Não ter trabalho tira a dignidade.” Não se trata tanto “de não poder comer, porque você pode ir à Cáritas e lhe darão de comer”. O problema “é não poder levar o pão para casa: isso tira a dignidade”.

Os motivos para a falta de trabalho dos jovens devem ser buscados, de acordo com Francisco, naquela “reorganização da economia mundial, em que a economia, que é concreta, dá lugar às finanças, que são abstratas. No centro, estão as finanças, e as finanças são cruéis: não são concretas, são abstratas”, ressaltou. “E lá se joga com um imaginário coletivo que não é concreto, mas é líquido ou gasoso. E no centro está isto: o mundo das finanças. No seu lugar deveriam estar o homem e a mulher. Hoje, creio, este é o grande pecado contra a dignidade da pessoa: deslocá-la do seu lugar central.”

Bergoglio recorda, a esse respeito, uma conversa sua com uma dirigente do Fundo Monetário Internacional, que lhe confidenciava que havia conseguido fazer “um diálogo entre a economia, o humanismo e a espiritualidade”, mas não tinha conseguido o mesmo sucesso com “as finanças, o humanismo e a espiritualidade”, porque – explicava – “as finanças não conseguem, porque você não pode aferrar as finanças: elas são ‘gasosas’”.

É verdade, reitera o papa, “as finanças se assemelham em escala mundial à corrente de Santo Antônio! Assim, com esse deslocamento da pessoa do centro e pondo no centro uma coisa como as finanças, tão ‘gasosas’, geram-se vazios no trabalho.”

Além das raízes do problema, também devem ser observadas as consequências, que são igualmente desastrosas. “O número dos suicídios juvenis está aumentando, mas os governos – não todos – não publicam o número exato: publicam até certo ponto, porque é escandaloso. E por que se enforcam, por que esses jovens se suicidam? A principal razão de quase todos os casos é a falta de trabalho. Eles são incapazes de se sentirem úteis e acabam...”, observa o papa com pesar.

Os outros jovens que “não se sentem aptos a enfrentar o suicídio”, buscam, ao contrário, “uma alienação intermediária” e a encontram nas dependências, “uma via de fuga a essa falta de dignidade”.

“Pensem – diz Francisco – que, por trás de cada dose de cocaína – pensemos –, existe uma grande indústria mundial que torna isso possível, e provavelmente – não tenho certeza – o maior movimento de dinheiro no mundo.”

Não acaba por aí: há outros jovens ainda que “no celular veem coisas interessantes como projeto de vida: pelo menos dão um trabalho... Isso é real, acontece! ‘Ah, eu pego o avião e vou me alistar no ISIS: pelo menos vou ter mil dólares no bolso todos os meses e alguma coisa para fazer!’”.

“Suicídios, dependências e saída para a guerrilha são as três opções que os jovens têm hoje, quando não há trabalho”, reitera o bispo. Que convida os jesuítas, comprometidos nestes dias a discutir sobre o tema da comunicação, a “entender o problema dos jovens” e a “fazer com que esse jovem sinta que eu o entendo”. “Isso é se comunicar com ele!” Depois, é preciso “mover-se para resolver esse problema”, porque “o problema tem solução, mas é preciso encontrar o modo, é preciso a palavra profética, é preciso inventividade humana, é preciso fazer muitas coisas. Sujar-se as mãos...”.

Portanto, o Papa Francisco estimula seus coirmãos a serem “criativos” com o lado de fora e a manter também a própria liberdade e autonomia em seu interior. Porque “sem liberdade não se pode ser jesuíta”, diz.

“O sacerdote me fez rir quando falou em unificar a pastoral dos jesuítas. Eu tinha entendido que se tratava de unificar as almas e os corações dos jesuítas, não as modalidades, porque, se se fizer isso, acaba a Companhia de Jesus. (...) Essa é a originalidade da Companhia: unidade com grande diversidade.”

Com igual bom-humor, Bergoglio troca algumas piadas com os seus hóspedes (“Quando eu era estudante, quando era preciso ir ao encontro do Geral, e quando devíamos ir com o Geral ao encontro do papa, levava-se a batina e a capa. Vejo que esta moda não existe mais, graças a Deus”), depois convida a ter bem em mente dois discursos úteis para entender a missão a que cada jesuíta é chamado.

Acima de tudo o de Paulo VI em 1974, à 32ª Congregação Geral, em que o bem-aventurado dizia que “lá onde estão as encruzilhadas das ideias, dos problemas, dos desafios, lá está um jesuíta”. Para Bergoglio, “é o discurso mais bonito que um papa já fez à Companhia”, considerando-se que se tratava também de “um momento difícil” para a congregação.

O segundo discurso é o do padre Pedro Arrupe, histórico prepósito geral do qual a diocese de Roma recentemente abriu a causa de beatificação, proferido na Tailândia, em um campo de refugiados de Bangkok. Foi o seu “canto do cisne, o seu testamento”, diz o papa, porque, depois de proferi-lo, Arrupe pegou o avião e aterrissou em Fiumicino com o derrame.

“Nesses dois discursos, há o marco daquilo que hoje a Companhia deve fazer: coragem, ir às periferias, às encruzilhadas das ideias, dos problemas, da missão...”, evidencia o Papa Francisco. E insiste: “É preciso coragem para ser jesuíta. Isso não significa que um jesuíta deve ser inconsciente, ou temerário, não. Mas ter coragem. A coragem é uma graça de Deus, aquela parrhesia paulina... E é preciso joelhos fortes para a oração”.

“Sigam em frente, às encruzilhadas, sem medo. Mas estejam ancorados no Senhor”, é o encorajamento final do papa, ao qual se acompanha o convite a rezar ao santo jesuíta Pedro Fabro, do qual, nesta quinta-feira, 2 de agosto, celebra-se a memória litúrgica. “Rezem a ele, para que nos dê a graça de aprender a comunicar”.

Por fim, antes de se despedir com uma Ave-Maria rezada todos juntos, Bergoglio fez um pedido pessoal: “Rezem por mim, não se esqueçam! Este trabalho [de papa] não é fácil... Talvez isso pareça uma heresia, mas habitualmente é divertido”.

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