Equador. As comunidades de Sucumbíos pedem ao núncio a volta dos carmelitas

Foto: Pixabay

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

13 Março 2018

“Sua visita pode ser a oportunidade para reparar em nível eclesial e superar o que nos divide e impede de apertar a mão como irmãos/irmãs?”, diz carta das comunidades do Vicariato Apostólico de San Miguel de Sucumbíos, Equador, ao novo núncio no país, o espanhol Andrés Carrascosa.

A carta é publicada por Religión Digital, 10-03-2018. A tradução é de André Langer.

Eis a carta.

Prezado Sr. Núncio: receba os nossos sinceros cumprimentos e gratidão por sua visita, pois, por mais de 10 anos não tivemos essa oportunidade, e pela importância que ela tem em si mesma, de acordo com o que o Papa Francisco pede da diplomacia vaticana: que “seja construtor de pontes, de paz e de diálogo entre as nações” e os povos.

Ao nos dirigirmos a você, também somos animados pelas palavras que dom Celmo Lazzari dissera na coletiva de imprensa sobre a finalidade de sua visita: uma oportunidade para você nos conhecer e ouvir.

Queremos falar-lhe com o coração, a partir da nossa identidade e da missão na Igreja Local de Sucumbíos.

Em 1928, os carmelitas descalços começaram sua jornada missionária pelo nordeste equatoriano, hoje Sucumbíos, abrindo estradas, ajudando na formação de aldeias, atendendo a educação, a saúde e espiritualmente os pobres. A partir de 1970, quando começou a exploração do petróleo e milhares de migrantes de todas as províncias do país começaram a chegar a esta região, começou uma intensa busca eclesial, que foi gestando pouco a pouco uma nova maneira de ser Igreja, animada pelo espírito renovador do Concílio Vaticano II e ao ritmo das Conferências dos Bispos do Continente, de Medellín (1968), Puebla (1979), Santo Domingo (1992) e, finalmente, de Aparecida (2007). Tudo isso com a animação e o acompanhamento do nosso pastor, profeta e missionário até o fim: dom Gonzalo López Marañón O.C.D.

Em que consistiu esse “novo modo de ser Igreja”? Em primeiro lugar, buscamos ser fiéis ao Senhor Jesus e ao seu Evangelho; também queríamos viver as orientações da Igreja latino-americana; além disso, tentamos colocar em prática as “Opções Pastorais” da Igreja do Equador; por outro lado, nos esforçamos para apreciar e valorizar a religiosidade popular e as culturas; ao mesmo tempo, fizemos o esforço para passar de uma Igreja clerical para uma Igreja com crescente participação das comunidades e dos leigos; e, finalmente, procuramos viver junto ao povo, suas alegrias e seus problemas.

O resultado foi uma Igreja simples e próxima das pessoas, comunidade de comunidades, ministerial, encarnada nas culturas, participativa, que “caminha com os dois pés” (fé e vida), que dá importância aos leigos e de maneira especial às mulheres.

Dessa maneira, trilhamos 40 anos na “novidade do Espírito”, que sempre inspira o novo, o melhor, o que transforma radicalmente. Não sem deficiências, omissões e erros, conforme consta por escrito em nossas assembleias anuais.

Coincidindo com a saída de dom Gonzalo, por limite de idade, o Dicastério vaticano da Propagação da Fé interveio nomeando um administrador apostólico e proibindo inclusive a visita do nosso bispo emérito, com o mandato de “mudar toda a pastoral”. Para a nossa Igreja, este foi um forte choque, que provocou um conflito cujo nível cresceu até provocar “comoção social” em nossa Província, o que motivou a intervenção do Estado equatoriano.

Ferirei o pastor e as ovelhas se dispersarão: consequentemente, dom Gonzalo nunca mais pôde voltar ao seu querido Sucumbíos, exigiu-se a saída imediata dos padres carmelitas do Vicariato e, o mais grave, nossa Igreja ficou dividida e foi perseguida.

Diante disso, surgiram inúmeras questões: onde foi parar o mandamento do Amor, a “correção fraterna” e o rosto misericordioso de Deus? Por que não nos disseram claramente, qual foi o grande erro que cometemos, para corrigi-lo e, se necessário, pedir perdão? O que a Igreja fez para promover a reconciliação e a reparação? Sua visita pode ser a oportunidade para reparar em nível eclesial e superar o que nos divide e impede de apertar a mão como irmãos/irmãs?

As pessoas simples, com sua capacidade de resiliência, nos ajudaram a resignificar essas perguntas, de modo que, para a nossa Igreja Local, a experiência desses sete anos tornou-se um kairós: uma oportunidade para morrer e ressuscitar que vai florescendo e amadurecendo no silêncio, um fluxo vital que vai gerando sabedoria e esperança na comunidade, uma dança do Espírito que continua comunicando alegria ao seu povo peregrino em Sucumbíos:

Temos o Plano Quinquenal de Pastoral em andamento;

Existem centenas de servidores/as e ministérios que se afirmaram no seu compromisso com suas comunidades;

Como Igreja Local, sempre promovemos a reconciliação, e a obtivemos;

Comemoramos os 25 anos da Escola de Ministérios: pessoas do povo que, de sua pobreza, seguem dando o testemunho irrefutável de uma vida entregue sem reservas;

E acabamos de inaugurar a Escola de Teologia Pastoral para aprofundar a formação permanente dos discípulos/as missionários/as de Jesus.

E agora que veio, Sr. Núncio, aproveitamos a oportunidade para fazer-lhe algumas propostas com vistas ao futuro:

Se o Papa Francisco disse expressamente a dom Gonzalo que “o que aconteceu em Sucumbíos não deve se repetir novamente na Igreja”, acreditamos que uma forma de cura e recuperação seria, com sua valiosa gestão diplomática, manter as portas abertas para a possibilidade do retorno dos padres carmelitas a Sucumbíos.

Remover os empecilhos que impedem a retomada do “Projeto do Centro de Espiritualidade Monte Carmelo, como centro dinamizador da nossa Igreja”, como consta no Plano Quinquenal, sob a orientação da família carmelita teresiana.

Da nossa parte, Sr. Núncio, já perdoamos, e sentimos que diante dos novos e grandes desafios, o Senhor alenta e fortalece o nosso sonho comum de uma Igreja em saída às periferias, apaixonada pelo Reino de Deus.

E uma vez que ainda não conseguimos, pelo menos até agora, ver o Papa Francisco, que foi e segue sendo o nosso desejo, pedimos que seja o nosso mensageiro perante Ele, para testemunhar-lhe o nosso imenso carinho e a nossa firme adesão ao seu ministério que nos ajuda a ser uma Igreja comprometida, uma Igreja pobre e para os pobres.

Reze por nós, pois também nós rezaremos por você, para que seja uma bênção para o nosso país e, de maneira especial, para a nossa Igreja. Atenciosamente.

Leia mais