Padre Lenaers, o jesuíta que reescreve a ressurreição

Cruz. | Foto: PxHere

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

09 Março 2018

O homem moderno deixou de acreditar na ressurreição.

Na esteira do Iluminismo, considera verdadeiro somente o que ele pode provar. Por isso não sabe que sentido dar ao túmulo vazio e à vitória de Cristo sobre a morte, o terceiro dia do Calvário. Aquilo que os Evangelhos relacionam com o mistério do final de Jesus para ele parece impossível, inventado, pior ainda, ridículo.

O artigo é de John Baker, publicada por Pacem in Terris, 18-02-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Em um contexto em que valem apenas os atos de à ciência, aqueles que acreditam, e não estamos falando aqui da grande maioria que segue um cristianismo-religião civil (muitos assumem o ditado de Benedetto Croce que afirma "não podemos não nos chamar de cristãos”), estão diante de uma encruzilhada: continuar a professar a vida eterna, aquela do Nazareno e, consequentemente, a nossa própria, da maneira que foi transmitida nos saecula saeculorum, confinando-se às margens da modernidade, ou adaptar-se ao sentimento comum e repudiar a ressurreição, recusando-se, assim, a crer, como adverte Paulo em 1 Cor. 15-14: ( "Se Cristo não ressuscitou, logo é vã a nossa pregação é também é vã a vossa fé")?

De que lado virar-se? Para a conservação ou a renúncia?

O teólogo Roger Lenaers foge ao dilema e propõe uma terceira via para os cristãos do novo milênio. Há muitos anos empenhado na tentativa de conjugar cristianismo e modernidade, o jesuíta belga, acaba de publicar um livro, Gesù di Nazareth. Uomo come noi? (Jesus de Nazaré. Homem como nós?, da editora Gabrieli), que levanta a possibilidade de "emancipar a noção de ressurreição do revestimento mitológico que a envolve". Um caminho, o de desmitificar a Bíblia que não é novo (o precursor foi o exegeta alemão Rudolf Karl Bultmann, mas que, garante o padre Lenaers, evita a colisão entre o dogma de fé e as respostas da ciência moderna.

Na prática, para o teólogo "a noção de ressurreição surgiu em uma cultura pré-moderna: é uma tentativa culturalmente determinada de definir experiências que na época não era possível explicar de forma diferente e melhor".

Na época, porque hoje as mesmas situações podem ser "expressas de forma diferente e melhor e isso, além de possível, é irrenunciável." Mas para fazer isso é preciso abandonar as certezas dadas por uma linguagem hiperbólica, adotada pelos evangelistas para descrever algo tão inimaginável como o retorno à vida de Jesus. "É muito fácil e, portanto, pouco plausível - adverte padre Lenaers – pensar em uma ressurreição corporal". O que aconteceu com Cristo foi mais "uma fusão com o mistério original que é Deus", realizada não depois de três dias, mas no Gólgota no exato momento do sacrifício na cruz. É naquele instante que o Filho do homem adquire a sua glorificação, explica o teólogo apoiando-se no Evangelho de João, o único dos quatro que "rompe por um instante a lógica mitológica".

Morte e ressurreição, por conseguinte, já não são mais duas etapas distintas. Elas coincidem. E nós podemos ver Jesus vivo (ressuscitado), da mesma forma que os discípulos de Emaús para os quais no caminho de volta para casa o desconhecido abre os olhos. "Propicia para eles um olhar interior - explica o jesuíta – uma experiência de significado e plenitude à qual participam crendo em Jesus como naquele que vive. Das cinzas frias não nascem faíscas e de uma morte não surge vida".

Chegamos assim que outro fundamento da fé: a ressurreição dos mortos, ou, como se dizia antigamente, da carne. "Os bilhões de seres humanos que foram se sucedendo na história do mundo – questiona-se o padre Lenaers - e que agora se tornaram pó (ou até menos), todos deveriam ressurgir, sãos e salvos, em carne e ossos, despertados do sono da morte pelas trombetas do Dia do Juízo?". Assim entendia o dogma da igreja pré-moderna. Mas, hoje, também poderia ser feita uma releitura de tal paradigma? O jesuíta aceita o desafio: "Cada um de nós 'ressurgirá', mais ou menos plenamente, com base na possibilidade que teve a semente divina de se desenvolver na profundidade do nosso ser. E nós não ressurgiremos no Dia do Juízo, mas no momento da morte. Como Jesus". Verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Igual a nós, também na ressurreição.

 Leia mais