Vale a pena ser moderado?

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

27 Março 2017

“No momento atual, a Rede Sustentabilidade tem o melhor programa de governo da esquerda brasileira. Suas propostas combinam satisfatoriamente responsabilidade econômica, redistribuição de renda e ambientalismo. A Rede tem tentado participar do debate sobre o ajuste fiscal no Congresso de maneira mais propositiva. E ninguém lhe dá a menor bola”, escreve Celso de Rocha Barros, doutor em sociologia e analista do Banco Central, em artigo publicado por Folha de S. Paulo, 27-03-2017.

Segundo ele, “será muito ruim se a esquerda ainda estiver no seu trabalho de luto quando a chance de vitória passar de novo na sua frente”.

Eis o artigo.

A maioria dos textos apresentados para discussão durante a preparação do próximo Congresso do PT dão a impressão de que foram escritos por gente pensando "Olavo deveria ter tido razão".

Todos querem que o PT seja mais bolivariano, mas intervencionista, mais radical, e ninguém parece entusiasmado com o que André Singer chamou de "reformismo fraco" do lulismo. Há quem faça a autocrítica dos casos de corrupção, mas pouca gente parece disposta à moderação em questões programáticas.

É fácil entender porque isso está acontecendo.

Foram dois anos de massacre depois de dez anos de acordos difíceis. O final do ciclo petista, em que Dilma foi traída por todos os seus aliados de centro e de direita enquanto tentava, finalmente, fazer um ajuste fiscal rigoroso, deixou a militância com pouco entusiasmo por compromissos. Para a militância petista atual, aliado de direita é um sujeito que você tem que comprar para que ele vote a favor do programa do partido dele.

Além disso, o clima político internacional não favorece a moderação. Muita gente acha, por exemplo, que o esquerdismo liberal de Hillary Clinton favoreceu a vitória do populismo conservador de Trump. Ninguém quer abrir o flanco do voto popular para a direita antiliberal de Bolsonaro.

E, finalmente, a esquerda está radicalizando porque ninguém está vendo muita disposição para conversar do outro lado.
No momento atual, a Rede Sustentabilidade tem o melhor programa de governo da esquerda brasileira. Suas propostas combinam satisfatoriamente responsabilidade econômica, redistribuição de renda e ambientalismo.A Rede tem tentado participar do debate sobre o ajuste fiscal no Congresso de maneira mais propositiva. E ninguém lhe dá a menor bola.

Tanto na votação da PEC do teto de gastos quanto na votação picareta sobre terceirização na semana passada, lá estava o deputado Alessandro Molon falando em nome da turma de Marina Silva, propondo modificações que tornassem o ajuste mais equitativo. Nenhuma foi discutida a sério pelos governistas.

Os deputados conservadores são maioria, já estão todos comprados com cargos, e ninguém tem medo da esquerda desde que o PT caiu.

Por mais que me deprima dizer isso, não há, no momento, qualquer incentivo para a esquerda moderar seu discurso. A militância de esquerda não quer voltar ao mesmo jogo político, a direita quer comprar sua anistia na Lava Jato com reformas liberais que agradem o empresariado, e o clima político no mundo não é de moderação.
Mas ninguém deve fazer estratégia só pensando no ponto em que se está. Nisso, como em tudo, devemos fazer como o Zico: não lançar a bola onde o centroavante está, mas onde ele vai estar.

A correlação de forças vai mudar nos próximos anos, e talvez antes de 2018. Essa marra com que os parlamentares conservadores têm agido vai murchar quando o voto voltar a contar. A Lava Jato agora vai explodir na direita. E a moderada Hillary pode ter perdido para Trump, mas o radical Corbyn tampouco foi capaz de parar o Brexit. Não adianta proteger demais o flanco esquerdo e perder o centro.

De qualquer forma, será muito ruim se a esquerda ainda estiver no seu trabalho de luto quando a chance de vitória passar de novo na sua frente.

Leia mais