Os três silêncios sobre as diaconisas. Artigo de Alberto Melloni

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27 Setembro 2016

"A ‘restauração’ do diaconato feminino poderia ter um mesmo fim: uma honraria para irmãs e avós, sem impacto sobre a reforma e sobre a missionariedade de Igreja."

A opinião é do historiador italiano Alberto Melloni, professor da Universidade de Modena-Reggio Emilia e diretor da Fundação de Ciências Religiosas João XXIII, de Bolonha. O artigo foi publicado no jornal La Repubblica, 24-09-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Nesta semana, iniciou os seus trabalhos a comissão instituída pelo Papa Francisco sobre o diaconato feminino: ato interno à vida da Igreja, mas crucial para a fisionomia do catolicismo romano do século XX.

A comissão, de certa forma, tem uma tarefa "fácil": deve sugerir apenas quando e como "restaurar" um ministério feminino atestado no Novo Testamento, onde Paulo saúda a grega Febe, "diácono da Igreja da Cencreia". "Diácono", não "diaconisa", como se diria no Concílio de Niceia, indicando figuras que não tinham recebido a imposição das mãos.

Na fluida situação da primeira comunidade neotestamentária, portanto, há um pretexto lexical e teológico: que não será suficiente para aqueles que estão tentando criar a "maioria hostil" ao papa que lhes faltou em matéria matrimonial.

Todos, por outro lado, estão conscientes de que uma "restauração" do diaconato poderia se reduzir a uma operação estéril. O Concílio Vaticano II "restaurou", por exemplo, o diaconato permanente como ministério de uma Igreja serva e pobre, que desfazia o nexo entre celibato e ministério que se afirmou apenas no fim do primeiro milênio.

O resultado foi modesto: o diácono continuou sendo o único ministro casado da Igreja latina (até a decisão de Bento XVI de admitir padres e bispos casados, mas apenas se provenientes da Igreja Anglicana) e se reduziu ao papel de um sacristão na liturgia e de chefe dos voluntários fora dela.

A "restauração" do diaconato feminino (portanto de "diáconas" ordenadas e/ou de "diaconisas" desprovidas da imposição das mãos) poderia ter o mesmo fim: uma honraria para irmãs e avós, sem impacto sobre a reforma e sobre a missionariedade de Igreja.

Porém, a comissão sobre as diáconas também poderia marcar a ruptura de três silêncios ensurdecedores que sufocam as Igrejas há décadas. O primeiro é o silêncio sobre o sacerdócio que todas as mulheres e todos os homens batizados já têm: aquilo que a Igreja latina chama de sacerdócio comum (em oposição ao sacerdócio ministerial que vem do sacramento da ordem). A velha cultura que reivindicava a promoção dos "leigos" – súditos desejosos de serem mobilizados e promovidos – que se regenerou no ativismo e no clericalismo dos movimentos, ainda não foi minada por uma teologia sobre a dignidade daqueles que o Código de Direito Canônico chama de Christifideles. Se Santa Febe fizesse um milagre, a comissão ou um sínodo sobre o ministério poderiam ser a oportunidade para se interrogar sobre isso.

O outro silêncio diz respeito ao repensamento teológico de uma expressão – in persona Christi – graças à qual a cultura da subordinação feminina do mundo antigo venceu a compreensão cristã do batismo em Cristo, no qual não há mais "nem homem nem mulher". Muitas Igrejas se libertaram desse paradigma no fim do século XX ordenando pastoras, sacerdotisas e bispas cristãs na posse dos dons de Deus necessários para a santidade de uma comunidade: a Igreja Católica reagiu à aceleração com um fechamento que queria ser "definitivo" e declarando em 1994 que o tema estava "indisponível" para a Igreja. A sucessão apostólica ao homem-Jesus dos apóstolos-homens vinculava a capacidade de agir in persona Christi a um gênero só: como se a masculinidade de Jesus não fosse um componente necessário à verdade da encarnação, mas um privilégio sexista. O que é normativo de Jesus não é a sua masculinidade declarada pela nudez da cruz (o véu do crucifixo serve para esconder a circuncisão, não o sexo): mas a cruz e a morte de cruz às quais cada cristão, homem ou mulher, está unido no batismo trinitário. Trazer as mulheres para a esfera da única ordem sagrada romperia uma reticência e restabeleceria um equilíbrio muito necessário à cristologia.

O terceiro silêncio com o qual a comissão sobre o diaconato feminino se depara é o silêncio sobre o sacerdócio ministerial masculino agora existente, prisioneiro de um mísero duelo de retórica celibatárias e anticelibatárias. Hoje, em grandes partes da Igreja, vive-se uma alternativa entre celibato e eucaristia: porque, na ausência de célibes a serem ordenados, condenam-se as comunidades a viverem sem eucaristia: uma alternativa em que um nariz saudável sente cheiro de enxofre. E que deve ser enfrentada sem astúcias e sem superficialidades: não pelo papa sozinho, mas também pelos bispos, que não podem se esconder atrás de um dedo.

Os não poucos inimigos de Francisco, jovens ou velhos, não são contrários a que essa discussão seja aberta: eles esperam que o arquipélago antibergogliano se evidencie, enquanto se aproximam as duas escolhas – a nomeação do arcebispo de Milão e do vigário de Roma – das quais dependerá não só o futuro do conclave, mas também a unidade presente de uma Igreja. Que o papa chama a não ser uma federação pelagiana de ativismos, mas uma comunhão daqueles que o Evangelho define como "servos inúteis" e que são os únicos indispensáveis.

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