"O papa não escreveu estas cinco palavras simples"

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31 Agosto 2016

"Na Amoris laetitia, o papa escreveu mais de 56.600 palavras, mas não escreveu estas cinco palavras simples: 'É possível dar a comunhão aos divorciados recasados'. Se ele não as escreveu, creio que ninguém as deva inserir, e ninguém deve fazer o que ele não disse." É isso que diz o jesuíta Domenico Marafioti em uma límpida apresentação da exortação pós-sinodal Amoris laetitia, publicada no número de agosto de Ascolta, periódico da associação de ex-alunos e amigos da Abadia de Cava.

A nota é de Sandro Magister, publicada no blog Settimo Cielo, 25-08-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O padre Marafioti é uma pessoa de grande autoridade. Ele é decano da Faculdade Teológica da Itália Meridional em Nápoles e leciona teologia dos sacramentos, particularmente do matrimônio, da ordem e da penitência.

Ele pertence à Companhia de Jesus, assim como o Papa Francisco. E, de fato, ele escreve que quer fazer da exortação "uma leitura inaciana e católica". Inaciana no sentido de "que é preciso sempre tentar interpretar bem aquilo que o outro diz (Exercícios, n. 22)". E católica no sentido de que é preciso "ler esse texto de acordo com a normal fé católica".

Mas deixemos a palavra a ele, na parte do artigo que ele dedica ao oitavo capítulo da Amoris laetitia, aquele sobre o qual "muitos discutem".

Eis o texto.

"Ele não deu essa autorização"
por Domenico Marafioti S.J.

O ponto mais difícil de interpretar é o número 305 da Amoris laetitia, que diz: "Por causa dos condicionalismos ou dos fatores atenuantes, é possível que uma pessoa, no meio de uma situação objetiva de pecado (…) possa viver em graça de Deus, (…) recebendo para isso a ajuda da Igreja". Não nos deteremos a considerar em que sentido pode-se estar em graça de Deus estando em uma situação objetiva de pecado. Certamente, é certo que todos, em qualquer situação, recebam "a ajuda da Igreja".

Nesse ponto, o documento remete à nota número 351: "Em certos casos, poderia haver também a ajuda dos sacramentos". E entende a confissão e a comunhão, e especifica que a eucaristia "não é um prêmio para os perfeitos, mas um remédio generoso e um alimento para os fracos".

Como interpretar o texto e essa explicação em nota? Existem duas alternativas, uma "segundo o ensinamento da Igreja", como o próprio papa diz no número 300; e outra que acabaria introduzindo o divórcio na Igreja Católica.

A primeira é esta. O papa diz "em certos casos". De fato, existem dois casos em que é possível dar a comunhão aos divorciados recasados: quando há a certeza moral de que o primeiro matrimônio era nulo, mas não há as provas para demonstrar isso em sede judiciária (e, portanto, não se pode obter a anulação canônica); e, depois, quando os dois divorciados recasados aceitam se abster dos atos próprios dos cônjuges e, portanto, não vivem mais como marido e mulher. Nesses dois casos, pode-se dar a comunhão, com a atenção para evitar o perigo de escândalo.

Mas se note que o papa usa o condicional "poderia haver": isso significa que nem mesmo ele está completamente certo de que essa é a coisa mais oportuna. Essa observação vale principalmente para a segunda alternativa. De fato, alguns poderiam interpretar essas palavras como se o papa autorizasse a dar a comunhão aos divorciados novamente casados, cujo primeiro matrimônio era verdadeiro e justo, e, na segunda união, vivem como marido e mulher. Mas ele não deu essa autorização.

De fato, é preciso dizer com simplicidade que o papa, na Amoris laetitia, escreveu mais de 56.600 palavras, mas não escreveu estas cinco palavras simples: 'É possível dar a comunhão aos divorciados recasados'. Por que ele não as escreveu? Algum motivo há. Se ele não as escreveu, creio que ninguém as deva inserir, e ninguém deve fazer aquilo que ele não disse.

O Papa Francisco, na realidade, não quer ir contra o magistério dos papas anteriores. Eis três afirmações precisas deles, em particular de São João Paulo II, que, na Familiaris consortio, n. 84, diz: "A Igreja reafirma a sua práxis, fundada na Sagrada Escritura, de não admitir à comunhão eucarística os divorciados que contraíram nova união". Na Reconciliatio e paenitentia, n. 34, ainda João Paulo II diz que a Igreja convida os seus filhos que se encontram nessas dolorosas condições, ou seja, são divorciados recasados, "a aproximarem-se da misericórdia divina por outras vias, mas não pela via dos sacramentos, especialmente da penitência e da eucaristia". E Bento XVI, na Sacramentum caritatis, n. 29, reitera: "O Sínodo dos Bispos [sobre a eucaristia, de 2005] confirmou a prática da Igreja (…) de não admitir aos sacramentos os divorciados recasados".

O contexto especifica o valor dessas claras afirmações. Lendo os documentos da Igreja, não se pode pôr em conflito um sínodo com o outro, e um papa com o outro. Para a hermenêutica da continuidade, não se pode atribuir ao Papa Francisco a intenção de mudar esse ensinamento do magistério. Quem faz o contrário não presta um bom serviço ao papa e à Igreja.

Para o restante, estamos todos de acordo de que a eucaristia é um "remédio" para os doentes, mas existem certos doentes que são alérgicos a certos medicamentos, por exemplo aos antibióticos: se os tomarem, não se curam, mas pioram. E é verdade que é um "alimento para os fracos", mas agora sabemos que existem as intolerâncias alimentares, por exemplo ao glúten, e a melhor coisa, como o pão, se revela prejudicial para aqueles que o comem.

São apenas exemplos, e outros poderiam ser trazidos para dizer a mesma coisa: a eucaristia, que é para a vida, pode se tornar motivo de morte. Assim já dizia São Tomás de Aquino: "Sumunt boni sumunt mali, sorte tamen inaequali, vitae vel interitus"; comem os bons, comem os maus, com destinos diferentes, de vida e de morte.

A eucaristia é necessário para a vida cristã e para o caminho espiritual. Porém, se for recebida sem as disposições devidas, revela-se contraproducente, como dizem claramente os textos de Mateus 22, 1-14 e 1Coríntios 11, 27-30.

Estamos em um momento delicado, em que é preciso acolher o convite do Papa Francisco de favorecer a integração dos divorciados recasados na comunidade eclesial, mas não se deve comprometer a verdade da práxis sacramental da Igreja. A prudência e o discernimento ajudarão a encontrar o caminho certo.

* * *

Em outra passagem do seu artigo, o padre Marafioti faz uma curiosa comparação entre a Amoris laetitia e a exortação anterior do Papa Francisco, Evangelii gaudium, sobre a indissolubilidade do matrimônio.

Ele escreve:

"Na Amoris laetitia, há um avanço em relação à Evangelii gaudium: neste primeiro texto (n 66), o papa não tinha falado de indissolubilidade; agora, por nada menos do que oito vezes, apresenta o matrimônio como 'exclusivo e indissolúvel' (nn. 52, 53, 86, 123, 124, 134, 218)".

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