"João viu e deu testemunho, e este continua a ecoar no nosso testemunho. “Eis...”, “Ele é...”: o testemunho de João Batista não é um discurso autorreferencial e autocentrado, mas aponta para Jesus e para a referência central de Seu projeto. Em tempos em que as narrativas religiosas são, muitas vezes, instrumentalizadas para fins narcisistas e performáticos, o testemunho de João nos confronta: a nossa vivência de fé fala de Cristo ou fala de nós mesmos? Como apresentamos Jesus ao mundo com a nossa vida, com a nossa forma de ser e conviver?"
A reflexão é de Raquel de Fátima Colet, FC. Ela é religiosa da Congregação Filhas da Caridade, Província de Curitiba. Irmã Raquel é doutora, mestra e bacharela em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). É assessora provincial da Pastoral Escolar Vicentina.
Primeira leitura: Is 49,3.5-6
Salmo: Sl 39(40),2.4ab.7-8a.8b-9.10 (R. 8a.9a)
Segunda leitura: 1Cor 1,1-3
Evangelho: Jo 1,29-34
“Com prazer faço a vossa vontade, guardo em meu coração vossa lei!” (Sl 39).
Queridas irmãs e irmãos, com esta exclamação do salmo 39, introduzimos nossa reflexão sobre a liturgia do 2º Domingo do Tempo Comum, deste dia 18 de janeiro de 2026. Ecoando a mística batismal que celebramos no domingo passado, as leituras deste final de semana são marcadas por um forte apelo vocacional. São para nós um convite para revisitarmos de forma orante o chamado que, como discípulos e discípulas de Cristo, recebemos para sermos “luz entre as nações”. Sob as lentes desse testemunho luminoso da vontade de Deus, queremos, então, ler a Palavra e relê-la em nossa vida.
Na primeira leitura (Isaías 49, 3.5-6), que integra o segundo cântico do Servo de Javé, Isaías nos apresenta a essência de sua vocação profética: saber-se escolhido por Deus, desde o princípio, para glorificá-lo e ser instrumento de unidade e salvação entre o Seu povo. Deus é glorificado no seu servo, que é consciente de ter sido eleito pelo Ele e da missão que recebeu: restaurar as tribos de Jacó, reconduzir os remanescentes de Israel, ser luz das nações (v. 6).
Escrito no contexto do exílio babilônico (538 a.C. – 597 a.), o texto nos fala de um recomeço que não equivale a um retorno histórico ou geográfico, mas ao alargamento da salvação de Deus “aos confins da terra”. Ou seja, a restauração de Israel não habita no passado, mas no futuro de Deus, fecundado pela memória da Aliança e pela profecia no presente. O servo compartilha do sofrimento e das esperas do povo exilado, e é nesse contexto que sua vocação se realiza enquanto instrumento de comunhão. Ele é luz porque sua presença sinaliza um caminho de esperança para os seus.
Relendo a nossa vida, somos convidados a assumir a consciência vocacional do servo de Javé. Desde o princípio, o Senhor nos amou e nos chamou para sermos instrumentos luminosos de Sua salvação. Pensemos nos exílios geográficos e existenciais de nosso tempo, que afetam a vida de nossa gente. Diante de tantas dispersões e disputas por territórios, sejam eles reais e simbólicos, somos chamados a ser instrumentos de unidade, de restauração, de reconciliação.
A segunda leitura (1Cor 1,1-3) nos narra o início da primeira carta de São Paulo à comunidade de Corinto. O apóstolo escreve desde Éfeso, no período de sua terceira viagem missionária. O texto comunica sua solicitude e responsabilidade pastoral sobre a comunidade que fundou, ciente das situações de conflitos e escândalos que a acompanham. Corinto era uma cidade de contrastes; como importante centro portuário e comercial, era marcada pela pluralidade cultural, religiosa, mas também por divisões, disputas, imoralidades. A comunidade cristã estava inserida nesse contexto e vivia seus próprios contrastes. Em um território com forte influência da cultura helênica, os cristãos estavam cercados por costumes morais e visões ideológicas que conflitavam a fé cristã.
Paulo exorta à unidade fazendo referência a duas vocações: a sua própria – ele que fora chamado por Cristo a ser Seu apóstolo - e à vocação da comunidade, chamada a ser santa, juntamente com todos aqueles que creem no Senhor, em quem são santificados (v. 1 e 2). Essa exortação revela o sentido de pertença eclesial e orienta para santidade enquanto coerência de vida com o Evangelho que lhes foi anunciado. Assim, saber-se parte da Igreja que está para além dos limites e da realidade de sua própria cidade é, para os coríntios, um convite a renovarem seu ardor na fé e revisarem seu estilo de vida.
Também nós vivemos em um mundo plural, marcado por contrastes e contradições. É nesse contexto que somos chamados a viver com coerência a nossa fé, pessoal e comunitariamente. Mais do que nunca, a comunidade cristã é chamada a ser testemunho e instrumento de unidade, de comunhão, de reconciliação.
Por fim, o evangelista João nos apresenta o testemunho e vocação de João Batista (Jo 1,29-34). No texto, que integra a parte introdutória do seu evangelho, o autor se ocupa em apresentar Jesus. Com esse propósito, coloca em destaque a figura de João Batista, cuja missão como precursor é mostrar o Messias como o enviado de Deus.
O episódio narrado se dá em Betânia, na margem oriental do Rio Jordão. O texto integra a narrativa da semana que abre a atividade de Jesus. Nos versículos anteriores, João fala de si diante das autoridades: ele não é profeta, não é o Messias; é uma voz que clama no deserto e conclama a preparar os caminhos do Senhor. No segundo dia, que corresponde ao texto deste domingo, João fala de Jesus e, em dois momentos do texto, dá testemunho de quem Ele é: “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (v. 29); “Este é o Filho de Deus” (v. 34).
João, que batizava com água para a conversão dos pecados, apresenta ao mundo Aquele que batiza com o Espírito Santo. Inaugura-se, assim, o tempo do Messias. João apresenta Jesus como o Cordeiro; como aquele sobre o qual está permanentemente o Espírito, que é a vida de Deus. Ou seja, em Jesus é comunicada a plenitude a graça que transforma e liberta. Na imagem do cordeiro, vemos refletida a missão-vocação do servo de Javé e, sobretudo, a vocação redentora do Cordeiro Pascal, Cristo Jesus.
João viu e deu testemunho, e este continua a ecoar no nosso testemunho. “Eis...”, “Ele é...”: o testemunho de João Batista não é um discurso autorreferencial e autocentrado, mas aponta para Jesus e para a referência central de Seu projeto. Em tempos em que as narrativas religiosas são, muitas vezes, instrumentalizadas para fins narcisistas e performáticos, o testemunho de João nos confronta: a nossa vivência de fé fala de Cristo ou fala de nós mesmos? Como apresentamos Jesus ao mundo com a nossa vida, com a nossa forma de ser e conviver?
Ser luz entre as nações! A vocação-missão do servo de Javé, do apóstolo Paulo e do precursor João Batista nos dão testemunho desse convite. Ser luz não é ter os holofotes virados para si mesmo, mas direcionados para os caminhos do Reino vividos e anunciados por Jesus. Caminhos estes que não estão confinados às nossas geografias de opinião, de afeto ou de atuação, mas que se desenham segundo a liberdade do Espírito “até os confins da terra”.
Vocação, testemunho e pertença: essas três palavras emanam como síntese e tarefa da liturgia que aqui meditamos: desde o princípio, o Senhor nos amou e chamou, nos enviou para ser instrumentos junto ao Seu povo e como parte desse povo. Essa consciência de pertença eclesial, humanitária, criacional sustenta e fortalece a nossa fé. Sejamos sempre e sejamos juntos luz entre as nações.