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06 Abril 2011

As Nações Unidas apostam todas as suas fichas na queda do presidente de facto da Costa do Marfim, Laurent Gbagbo, para dar um sinal claro aos demais políticos africanos de que, a partir de agora, os resultados de eleições terão de ser respeitados. Em conversa com o "Estado", altos funcionários da organização e o ex-secretário-geral Kofi Annan confirmaram que, em Abidjã, está em jogo uma questão que vai "muito além das fronteiras da Costa do Marfim".

A reportagem é de Jamil Chade e publicada pelo jornal O Estado de S.Paulo, 07-04-2011.

O ano de 1960 entrou para a história como "o ano da África, quando 16 países conquistaram sua independência. Em 2011, meio século depois, 25 nações africanas terão eleições - 19 escolherão um novo presidente. "Se Gbagbo prevalecer, um precedente muito perigoso será aberto", disse Annan.

O ex-secretário-geral da ONU diz que os líderes africanos devem ser convencidos de que a rotatividade de poder é fundamental. "Se os políticos entram em campanha eleitoral, precisam aceitar os resultados", afirmou.

A tarefa de convencer a região a aceitar a democracia não é fácil. A União Africana (UA) é comandada pelo presidente de Guiné Equatorial, há 32 anos no poder, que defende uma transição democrática em seu país apenas em 2020.

Democracia

Na ONU, algumas eleições deste ano são consideradas de alto risco. Uma delas é da República Democrática do Congo (ex-Zaire), em novembro. O presidente Joseph Kabila já anunciou que será candidato a mais um mandato. Para o Movimento para a Libertação do Congo (MLC), liderado pelo ex-presidente Jean-Pierre Bemba, as condições das eleições são "inaceitáveis". Em 2006, Bemba foi derrotado por Kabila, que herdou o poder de seu pai, Laurent-Désiré Kabila, em 2001.

No Zimbábue, a dúvida é se Robert Mugabe aceitará uma eventual derrota na eleição, ainda sem data definida. Em Madagáscar, a esperança é a de que a votação coloque fim a uma disputa política e conclua o processo de transição para a democracia. No entanto, Madagáscar ameaça bater um recorde bizarro: cerca de 200 partidos políticos foram criados no país nos últimos meses.

Em Zâmbia, o presidente Rupiah Banda quer um novo mandato e fará campanha com recursos das exportações de minério. A brasileira Vale é uma das empresas que passou a investir no país. Em Seychelles, o presidente James Michel também quer mais cinco anos no poder.

Mudança

Uma situação semelhante vive o Djibuti, que terá eleições amanhã. A oposição declarou que não concorrerá às eleições, alegando que não há garantias de que a votação será justa. O presidente Frederic Guelleh é considerado o amplo favorito. No Egito e na Tunísia - que tiveram seus presidentes recentemente depostos -, eleições ainda testarão até que ponto as revoltas populares no mundo árabe de fato inauguraram uma nova era na região ou apenas promoveram uma mudança aparente.