13 Janeiro 2011
Na Irlanda, o país mais em crise da Europa, ainda há algo que funciona. É a fábrica do soro que faz desaparecer as rugas. Toda a produção mundial vem da cidadezinha de Westport, que pode se considerar verdadeiramente como a capital do lifting.
A reportagem é de Enrico Franceschini, publicada no jornal La Repubblica, 10-01-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Apesar de tudo, ainda há algo que funciona no país mais em crise da Europa. Enquanto a Irlanda perdeu seu rosto, obrigada novamente a emigrar em busca de trabalho, como nos anos 1930, e a pedir esmola à União Europeia de Bruxelas para evitar a falência, há irlandeses que enriquecem fazendo o lifting a todo o planeta.
Por trás de uma futurística vitrine de vidro e aço, na pitoresca cidadezinha de Westport, na costa ocidental da Ilha de Emerald, se esconde uma moderna fonte da juventude: toda a produção mundial do Botox – o soro que faz desaparecer as rugas do rosto de estrelas do cinema, divas do pop, apresentadoras de TV e de milhões de pessoas dispostas a serem injetadas por uma minúscula agulha nas têmporas – sai daqui.
Desde que começou a funcionar há 20 anos, o estabelecimento da Allergan, com os seus 800 funcionários, produziu mais de 26 milhões de frascos de uma substância química conhecida oficialmente como Botulinum, gerando 370 milhões de euros por ano de faturamento. Hoje, a produção está de tal forma automatizada que, na realidade, o Botox requer o trabalho de apenas 80 pessoas: uma média de 4 milhões de euros de lucros anuais por operário, nada mal como taxa de produtividade na era da globalização.
Aqui dentro jamais chegou a recessão que esvaziou o boom do Tigre Celta, como era chamada a Irlanda nos anos de crescimento prodigioso. A fabricazinha de Westport expande seus lucros em um ritmo de 10% anuais: caíram para 8% só em 2009, no ápice da flexão econômica.
"Estamos em êxtase", admite David Pyott, o administrador delegado, um advogado escocês de 55 anos, com o rosto de um bebê, ou seja, o primeiro a publicizar com orgulho o seu mágico elixir. "As vendas enfraqueceram levemente no momento mais forte da depressão, quando os nossos clientes faziam evidentemente todas as injeções a cada quatro-cinco meses ao invés de três, como seria a regra. Depois, tudo retomou o ritmo de antes". Crise ou não, não se renuncia ao Botox: uma vez que se começou a usá-lo, é psicologicamente difícil largar. Reencontrada a juventude, quem gostaria de voltar a ser velho e decrépito?
Como para o Viagra, os efeitos do Botox também foram descobertos por acaso. Nos anos 1950, alguns pesquisadores se deram conta de que a bactéria Clostridium botulinum podia temporariamente relavar, paralisando-os, os músculos do rosto. A primeira aplicação médica remonta a 1989, quando foi usado para curar uma paciente do Canadá que sofria de estrabismo e um reflexo incontrolável de fechar as pálpebras. Os médicos notaram um curioso efeito colateral: a substância fazia desaparecer as rugas da testa e do resto do rosto.
Foi preciso uma outra década antes que ele estivesse pronto para o lançamento. Apareceu no mercado no ano 2000 e desde então se tornou um fenômeno global. Homens e mulheres, idosos e pessoas de meia idade recebem a injeção regularmente. Uma testa lisa como óleo tornou-se a norma para atores, modelos, apresentadores de TV e para todos aqueles que, por ofício, devem aparecer em público, incluindo políticos.
Os chamados "pés-de-galinha" desapareceram do rosto de uma geração de pessoas de 40-50 anos, pelo menos daqueles que têm os meios para se permitir um "remédio" semelhante três ou quatro vezes por ano: senão, o efeito desaparece, e as rugas surgem novamente.
"O melhor ainda está por vir", prediz o administrador delegado. Por enquanto, os lucros do Botox são divididos em 50-50 entre usos cosméticos e terapêuticos. "Mas nos próximos cinco anos 70% do faturamento virá do uso terapêutico", aposta Pyott. Não porque vai diminuir o uso cosmético, mas sim porque estão em curso de aprovação as licenças para novas aplicações farmacêuticas.
Agora, o Botulinum já é utilizado para uma ampla variedade de distúrbios, do excesso de sudoração nas axilas a diversas formas de espasmo. Logo, será lançado também como cura contra a dor de cabeça, particularmente contra a enxaqueca crônica, da qual dezenas de milhões de pessoas sofrem. Até 2015, portanto, a Allergan poderá duplicar os seus lucros. Uma pena, pensam os irlandeses destroçados pelas dívidas, que não basta uma injeção de Botulino para fazer com que a enxaqueca passe de um só golpe, também na economia nacional.