Um rei de amor

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

22 Novembro 2013

Para nos fazer contemplar o Rei do Universo, a liturgia põe diante dos nossos olhos a figura de um rei-servidor que morre na cruz sem honrarias nem triunfos. Nu, aniquilado, achincalhado, este rei de miséria inaugura um reino onde o amor, a misericórdia e a compaixão reinam para sempre.

A reflexão é de Marcel Domergue, sacerdote jesuíta francês, publicada no sítio Croire, comentando as leituras do Domingo 24 de novembro de 2013, Festa do Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo. A tradução é de Francisco O. Lara, João Bosco Lara, e José J. Lara.

Eis o texto.

 Fonte: http://fineartamerica.com

 Referências bíblicas:

1a leitura: 2 Samuel 5,1-3
2a leitura: Colossenses 1,12-20
Evangelho: Lucas 23,35-43

Rei sim, mas não como os outros

A Bíblia quer expressar algo indizível. Para isso, recorre então a diversos gêneros literários: o mito, a poesia, textos legislativos, relatos... Como o núcleo central visado por esta ronda de escritos nos escape sempre, as palavras usadas não têm mais o seu sentido habitual, nem mesmo a palavra “deus”. Tomemos como exemplo a palavra “pastor”, usada com referência a Davi, a quem Deus tirou de detrás do rebanho de ovelhas para fazê-lo pastor de seu povo, Israel: palavra que com freqüência designa o rei. Pastor esquisito, este. Mesmo sendo apenas um empregado, qualquer pastor normal vive de seu rebanho: as ovelhas o alimentam e o vestem com sua carne e sua lã. Mas, no caso do pastor bíblico, nada disto é o que acontece. No capítulo 10 de João, lemos que o verdadeiro pastor, ao invés de viver das suas ovelhas, é aquele que dá a sua vida por elas. O mesmo tipo de constatação se confirma para todas as palavras que designam o Messias e sua atuação, aí incluída a palavra “redenção” ou “resgate”. O mesmo vale para o “Rei” e o seu “trono”. Corremos o risco de ver este personagem como um ser à parte e que, por seu poder e autoridade, estaria muito distante de nós. E, no entanto, todo o relato bíblico nos vai direcionando para a figura de um “soberano” sem poder algum sobre os seus súditos, submetido às decisões destes até mesmo quando elas o levam à morte. Este que poderíamos imaginar ser uma espécie de autocrata cheio de vontades misteriosas, imprevisíveis e desconcertantes, revela-se enfim como o servidor. O primeiro se faz o último e o “Todo Poderoso” vem a nós sob a forma de “Todo Fraqueza”.

“Este é o rei dos judeus”

Não só dos judeus, mas também dos pagãos; não só dos justos, mas também dos malfeitores. A inscrição irônica colocada no alto da Cruz não exprime isto suficientemente. Os que olham para Jesus crucificado proferindo zombarias não sabem que estão prestes a cumprir as palavras da Sabedoria 2,17-20: “Vejamos se suas palavras são verdadeiras (...) condenemo-lo a uma morte vergonhosa, pois diz que há quem o visite.” Levando Jesus à morte, seus inimigos querem demonstrar que ele não é verdadeiramente rei; nada de tropas que o defendam nem apoiadores que o sustentem. Não compreendem que Jesus vai se mostrar ali mais rei do que qualquer outro rei, só que de outro modo, pois vai sujeitar “o último inimigo, a morte”. Só que o triunfo do Cristo não é deste mundo, como ele declarou a Pilatos, quando este lhe perguntou se de fato ele era rei, título que Jesus jamais se conferiu. Somos vítimas da mesma ilusão que os espectadores da crucifixão quando confundimos a realeza do Cristo, única em seu gênero, com o poder, político ou moral, da Igreja; quando nos afligimos por causa do recuo da fé em certas regiões ou categorias sociais; quando cultivamos a influência. Como anunciar o “Reino” sem gozar de influência? A única boa resposta para esta questão, sem dúvida, é o amor. Para Jesus, ser rei significa dar a sua vida.

Elevado acima de tudo

A segunda leitura nos explica que o Pai nos fez entrar no Reino de seu Filho. Repitamos: não entramos neste Reino como súditos, mas como herdeiros. Somos chamados a compartilhar da realeza do Cristo, quer dizer, dominar todas as forças da criação, tudo o que poderia exercer poder sobre nós, seduzir-nos e nos dominar. Só assim poderemos alcançar a nossa verdade de homens que é ser a imagem e semelhança do Deus invisível. Temos então diante de nós o Cristo que não é outro senão esta verdade que se tornou visível e audível. Todos os que não estão satisfeitos com o caráter ainda muito aproximativo de sua semelhança com Deus escutam a sua voz. Aí reside o seu poder: na atração que exerce sobre nós a nossa própria verdade (ler João 18,36-38). Alcançar a humanidade plena é compartilhar da realeza do Cristo. Como isto equivale a fazer nosso o amor que vai até o dom de si mesmo, em vez da vontade de poder e de dominação, eis que está vindo o reino da paz “sobre a terra e nos céus”. Mas estamos ainda sob o regime da violência e das injúrias que Jesus supera, “elevado acima de tudo”. E, no entanto, o Reino já está aí: o malfeitor crucificado com o Cristo lhe pede que se lembre dele “quando estiver em seu Reino”. Jesus responde: “Hoje mesmo”. O Reino está aqui desde que aceitemos, na fé e no amor, sermos com o Cristo.