A tentação de renunciar, de Pio XII a Paulo VI

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27 Fevereiro 2013

Outros pontífices antes de Bento XVI pensaram em se retirar. Principalmente nas últimas décadas. Roberto Rusconi, historiador do cristianismo e da Igreja, reuniu uma preciosa documentação em Il gran rifiuto. Perché un papa si dimette [A grande recusa. Por que um papa renuncia]. O volume abrange todas as épocas. Pouco mais de 150 páginas, publicado pela editora Morcelliana, será lançado na próxima quarta-feira. Contém muitas surpresas. Acima de todas: o caso de Pio XII, eleito em 1939.

A reportagem é de Armando Torno, publicada no jornal Corriere della Sera, 25-02-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Com a queda do fascismo no dia 25 de julho de 1943 e a chegada dos alemães em Roma, correu um boato – lembra Rusconi – de que "havia um projeto preciso para deportar o papa". Nada aconteceu, mesmo que "o plano havia sido preparado detalhadamente". Naquelas circunstâncias, o pontífice teria preparado uma carta de renúncia, "de modo que, a seu ver, quem seria preso seria Eugenio Pacelli e não o chefe supremo da Igreja Católica". Lembra-se o testemunho de Domenico Tarditi, secretário de Estado, que revelou anos depois que "Pio XII teria dado disposições precisas para que o conclave para eleger o seu sucessor ocorresse em Lisboa".

Depois, João XXIII (1958-1963). Rusconi relata uma memória do antigo secretário do pontífice, Loris Capovilla, do dia 11 de outubro de 2002: "O papa pode renunciar?". Nela, dentre outras coisas, lê-se sobre o encontro com Alfredo Cavagna, bispo e confessor, em uma sexta-feira de Quaresma de 1963: "Eu me faz chamar ao salão e, sem preâmbulos, me diz que o papa não pode renunciar. Pio XII excluiu isso na Constituição De sede apostolica vacante (8 de dezembro de 1945), e cita o parágrafo 99. É evidente que, ao longo da conversa, João XXIII, considerando-se o seu estado de saúde em antecipação do imenso trabalho previsto em dar continuidade ao Concílio, deve ter se declarado disposto a renunciar ao papado. Respondo a Dom Cavagna, que me faz a questão: 'Eu conheço a constituição de Pio XII, lida durante o conclave de 1958. Com essa exortação, Pio XII encoraja o designado a aceitar o voto dos cardeais eleitores e a não se isentar da vontade divina. Não toca em nada a tecla da renúncia'. Dom Cavagna não insiste mais, e nunca mais voltaria a falar comigo sobre o assunto".

Ao contrário, perto do fim do pontificado de Paulo VI (1963-1978), "foi explicitamente prevista a possibilidade de que o já idoso papa, seriamente adoecido, pudesse renunciar". A notícia se espalhou ao se completar o seu 80º aniversário (26 de setembro de 1977). No dia 2 de setembro, o padre Virgilio Levi, vice-diretor do L'Osservatore Romano, talvez para calar muitos rumores, publicou o artigo "Por que o papa não pode renunciar".

Mas,, pouco antes de morrer, o seu confessor, o jesuíta Paolo Dezza, depois cardeal, declarou: "Paulo VI teria denunciado, mas me dizia: 'Seria um trauma para a Igreja' e, portanto, não teve a coragem de fazê-lo". Especifica Rusconi: "Nunca foi confirmado, no entanto, o boato de que ele teria escrito de próprio punho uma carta de renúncia". Ela teria sido útil se, por causa da doença, ele tivesse perdido "a capacidade de entender e de querer".

João Paulo II (1978-2005) colocou-se – depois de ter completado 75 anos e passado por uma operação de um tumor no intestino – "o problema da aplicabilidade das disposições estabelecidas por Paulo VI a propósito da renúncia dos bispos". Ouvidos os canonistas, o pontífice considerou como "grave obrigação de consciência ter que continuar desempenhando a tarefa a que o próprio Cristo me chamou".

Em novembro de 1996, o arcebispo de Viena, Franz König (seu grande defensor no conclave de 1978), declarava à agência alemã DPA: "O papa sabe, e o disse, que a eleição de um novo pontífice, enquanto o velho ainda está vivo, seria um problema. Um papa aposentado, outro no Vaticano: as pessoas se perguntariam qual dos dois conta".

Além disso, relata Rusconi, o próprio pontífice declarou que, na Igreja, "não há lugar para um papa emérito". As suas condições de saúde pioraram, e a questão foi reaberta. O cardeal Julián Herranz, em uma nota do dia 17 de dezembro de 2004, escreveu sobre uma eventual renúncia: "Ele teme criar um perigoso precedente para os seus sucessores, porque alguém poderia ficar exposto a manobras e sutis pressões por parte de quem desejasse depô-lo".

O último boato, não sem conflitos, foi o "possibilista" do cardeal secretário de Estado, Angelo Sodano, no dia 8 de fevereiro de 2005. O papa se recuperou, mas nada aconteceu. Até o dia 11 de fevereiro deste ano.