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14 Junho 2014

O Espírito Santo, festejado no domingo passado, nos leva a mergulhar na intimidade do coração de Deus. Ele é dom mútuo, abertura, calor e partilha; é o sopro que desperta, é torrente, doçura, luz, ternura…

A reflexão é de Marcel Domergue, sacerdote jesuíta francês, publicada no sítio Croire, comentando as leituras da Festa da Santíssima Trindade. A tradução é de Francisco O. Lara, João Bosco Lara e José J. Lara.

Eis o texto.

Referências:
1ª leitura: Êxodo 34,4-6.8-9
2ª leitura: 2 Coríntios 13,11-13
Evangelho: João 3,16-18

O Deus desconhecido

Nós, humanos, só podemos existir sendo imagem e semelhança deste que nos faz ser e a quem chamamos de «Deus». Fora isso, há para nós somente o nada. O problema é que só por meio da nossa liberdade podemos ser «como Deus» que é livre para ser o que Ele é: é tomando livremente o caminho que escolhemos. O que Deus criou à sua imagem foram as nossas liberdades. Mas o que devemos escolher para assemelharmo-nos a Ele? O leque de possibilidades à nossa escolha apresenta uma infinidade de modelos que, entre outros textos, podem se resumir na fórmula de Deuteronômio 30,15-20: «Eis que hoje estou colocando diante de ti a vida e a felicidade, a morte e a infelicidade. ... Escolhe pois a vida para que vivas...» Sim, mas onde estão a felicidade e o bem? Onde estão a infelicidade e o mal? É aí que entra o que chamamos de «Revelação». Deus vai nos mostrar «como Ele é» para que possamos nos fazer como Ele, sob o influxo do seu Espírito. E (a) isto podemos acolher ou recusar. Somente por esta «aliança» é que existimos. Sob formas diversas, que vão do mito à história revisitada e interpretada, as Escrituras nos desvendam as peripécias desta descoberta de «como Deus é». Descoberta que só chega ao seu termo no final do Livro, com o Cristo e o pleno acolhimento do seu Espírito. E então, como Deus é? É intercâmbio, reciprocidade, dom de Si; numa palavra, é «Trindade». Assim, resulta para nós que só existimos por nos darmos aos outros, que apenas salvamos o que damos de nós mesmos para que outros sejam.

Para muito além das nossas palavras

Quando dizemos «Trindade», não vamos imaginar termos feito a volta toda do Ser de Deus e que O temos enfim compreendido. Deus não pode ser qualificado nem definido por palavras. Tão logo dizemos «Pai, Filho, Espírito» e a questão se põe novamente. De fato, palavras como pai, filho e sopro referem-se às nossas experiências humanas e ganham um sentido diferente quando aplicadas a Deus. Qual sentido? Não é possível precisar. Estas palavras são como flechas que podem orientar o nosso olhar, mas jamais atingem o seu alvo. Este Pai está de fato muito além de tudo o que podemos colocar sob a palavra paternidade. Por isso Paulo, em Romanos 8,26, escreve que não sabemos nos dirigir a Deus como convém e que o Espírito deve vir a nós para falar a Deus com «gemidos inefáveis», indizíveis, sem palavras. Temos que, enfim, nos manter diante deste circuito vertiginoso do intercâmbio trinitário (ainda palavras!) em silêncio e com abertura, para recebermo-nos d’Ele, que é «Eles», entrando neste seu intercâmbio. Estamos aqui bem longe das figuras de Deus que a Bíblia apresenta para fazer-nos superá-las: o Todo Poderoso autoritário, o senhor da história que, de repente, se torna o autor dos nossos massacres e de todos os nossos males, o juiz impiedoso e vingativo, o inspetor exageradamente meticuloso e exigente. Mas estamos, ao invés disso, diante e dentro de um indizível turbilhão de amor que nos faz ser.

O corpo uno e múltiplo

Deus é, portanto, em Si mesmo, Aquele que faz ser (Pai), Aquele que recebe a Si mesmo e que aceita ser (Filho) e Aquele que vai de Um para o Outro e, de alguma forma, transporta-Os para todas as coisas, concedendo-lhes ser e receber-se. Isto tudo poderia também ser dito sob a forma de núpcias, onde o casal humano seria a imagem de Deus. Daí resulta que só podemos existir de verdade, ou seja, ser imagem e semelhança de Deus, tomando consciência de que somos frutos de uma rede de relações que, de próximo em próximo, estende-se à humanidade inteira. Assumir isto com toda a nossa liberdade equivale a aceitarmos fazer parte deste «um só corpo». Para chegarmos até aí, temos necessidade de que Deus se revele. Sem isto, como poderíamos fazer-nos à sua imagem? A Páscoa nos ensina que Deus é dom de Si: o Pai nos dá o Filho, o Filho nos dá a sua vida e o Espírito é «entregue», derramado, segundo a expressão usada por João (19,30. Ver também 7,39 e 1 João 5,6-7). O fruto da Páscoa é a possibilidade de os homens se fazerem um, assim como o Pai, o Filho e o Espírito são Um. Quando Jesus se dá a nós como alimento e como bebida, ou seja, como o que mantém a vida, acrescenta: «Fazei isto em memória de mim.» Fazer e refazer isto para que todos os tempos sejam investidos desta memória, é pôr no mundo o corpo feito de membros reconciliados que chamamos de Igreja. Sem cessar, ela deve refazer-se, transformar-se e progredir para tornar-se verdadeiramente Imagem.