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17 Dezembro 2015

É a isto que o tempo do Advento nos convida: a "reencontrar o rastro do homem na sua fragilidade".

A opinião é do filósofo francês Bernard Ginisty, cofundador da associação Démocratie et Spiritualité e ex-diretor da revista Témoignage Chrétien. O artigo foi publicado no sítio Garrigues et Sentiers, 16-12-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Propondo todos os anos a liturgia do Advento, a Igreja convida a viver a relação com Cristo como novidade permanente e não como posse satisfeita. Quando Jesus começa a ser falado, João Batista mandou alguns dos seus discípulos para interrogá-lo: "És tu aquele que há de vir, ou devemos esperar outro?".

A sua resposta não consiste em ensinar um dogma ou em tomar posição nas disputas religiosas do seu tempo. "Voltem e contem a João o que vocês estão ouvindo e vendo: os cegos recuperam a vista, os paralíticos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres é anunciada a Boa Notícia" (Mt 11, 3-6). O sinal messiânico é que as pessoas se levantam e que os pobres ouvem uma boa notícia.

Os fundadores das grandes religiões conhecem, em geral, uma longa evolução rumo à sabedoria e à santidade. A abundância dos anos constitui um sinal de bênção. Mas Cristo, de fato, não é um modelo de vida longa. Ele nem mesmo escreve um livro, não cria mosteiros. Morre jovem, e aquela que é definida como a sua vida pública não supera os três anos. A sua trajetória, que os cristãos recordam em cada Eucaristia, é a de uma "passagem", de uma Páscoa.

Os seus discípulos não entenderam nada enquanto Ele ainda está em vida, perdidos como estão na espera de um messias político-religioso. Cristo não tenta recrutar ninguém. Não só: Ele convida cada um a acolher dentro de si a vinda do Espírito. Quando vê os seus discípulos consternados com o anúncio da Sua paixão e morte, Ele lhes diz: "É melhor para vocês que eu vá embora, porque, se eu não for, o Paráclito não virá para vocês" (Jo 16, 7).

Essa vinda do Espírito ao homem nunca é dada de uma vez por todas. Um Deus vivo é um Deus que continua nascendo, e, como diz o Mestre Eckhart, só se pode captá-Lo "no cumprimento do nascimento" (Sermões, tomo 2).

Neste tempo de preparação para o Natal, o Evangelho nos recorda que Deus é um bebê em um estábulo e que está presente no pão partido e partilhado. Deus se "despe" dos ornamentos de poder, de glória, de suficiência. Cristo não nos convida a um projeto de carreira institucional ou à construção de uma perfeição moral, e nem a fugir para um refúgio diante das abominações deste mundo.

Uma das orações mais adequadas que eu conheço é a de Etty Hillesum, jovem judaica de 27 anos, que morreu em uma câmara de gás em Auschwitz em 1943. Assim ela escrevia no seu Diário, poucos meses antes de morrer: "Deus, às vezes não se consegue entender e aceitar aquilo que, sobre esta terra, os teus semelhantes fazem uns aos outros, nestes tempos selvagens. Mas nem por isso eu me fecho no meu quarto, Deus: eu continuo a olhar para as coisas na cara e não quero fugir diante de nada. Eu tento compreender os crimes mais graves, todas as vezes eu tento reencontrar o rastro do homem, na sua nudez, na sua fragilidade; desse homem que muitas vezes se tornou irreconhecível. Sepultado entre as ruínas monstruosas das suas ações insensatas".

É a isto que o tempo do Advento nos convida: a "reencontrar o rastro do homem na sua fragilidade".