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O místico perdido na sua infância. Artigo de René Girard

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09 Novembro 2015

Nós, ocidentais, nunca estamos satisfeitos com o que o Céu nos manda; todos sonhamos com conquistas originais e gestos incomparáveis.

Publicamos aqui um artigo póstumo do antropólogo, filósofo e historiador francês René Girard, falecido no dia 5 de novembro passado. O texto foi publicado no jornal La Repubblica, 06-11-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto

Eis o texto.

O padre Ambroise-Marie Carré era tão zeloso na sua pregação que exercia essa arte até mesmo nos teatros, nos cassinos e nos cinemas, onde o acesso lhe era facilitado pela amizade de inúmeros artistas.

Não se falou muito sobre o Pe. Carré, exceto pelas suas pregações e pela sua intensa atividade pastoral. Ele tinha outras coisas em mente. E a mais importante para ele era o drama espiritual que acompanhou a sua vida. As suas confidências a esse respeito são poucas, fragmentárias, nem sempre fáceis de interpretar.

O texto mais importante conta com apenas cerca de 20 páginas. Encontra-se no início de um livro intitulado Chaque jour je commence, publicado em 1975: "[Essa recordação] me acompanha como uma presença ao mesmo tempo doce e emocionante. Me acompanhará até a última hora. Um olhar basta para reanimá-la, um olhar para aquela janela do edifício onde, em Neuilly, a minha família morava. Quantos anos eu tinha? Quatorze, eu acho. Uma noite, no pequeno vão que eu usava como quarto, eu senti, com uma força incrível que não deixa espaço para a hesitação, que eu era amado por Deus, e que a vida, lá, diante de mim, era um dom maravilhoso. Sufocado pela felicidade, caí de joelhos".

Obviamente, o padre viu em Neuilly a maior obra da sua vida, um pico intransponível. No entanto, com o passar do tempo, ele se acostumou com a sua felicidade. E, pouco a pouco, ele a reduziu a um simples ponto de partida para uma concepção dinâmica do seu futuro religioso.

Esse projeto reflete uma ambição mística tipicamente ocidental e moderna. Nós, ocidentais, nunca estamos satisfeitos com o que o Céu nos manda; todos sonhamos com conquistas originais e gestos incomparáveis.

Como muitos outros aspirantes modernos à santidade, o Pe. Carré tomou como modelos aqueles que a nossa sociedade admira, os homens de ação, os "diretores", os "empresários", no sentido quase norte-americano da livre empresa.

Com o passar dos anos, o padre estava na expectativa, cada vez mais impaciente, de novas experiências místicas que não chegavam nunca.

Os efeitos dessa seca espiritual se somaram aos desastres no mundo e à desordem na Igreja, para minar a confiança do Pe. Carré na bondade e, às vezes, até mesmo na existência de Deus: "Senhor, se Tu existes, devolve-me as minhas certezas. E se, no entanto, Tu me deixares na escuridão, concede-me a profunda convicção de que este momento de angústia tem a sua utilidade". A que o Pe. Carré se agarrou por toda a vida? Ao "único evento que jamais pôs tanta evidência na fé".

Em vez de se comportar como uma criança mimada e reclamar cada vez mais, o Pe. Carré compreendeu que deveria cultivar modestamente, devotamente, a graça da sua juventude. Não foi Deus que o jogou na incerteza, mas a sua ambição excessiva.

Depois de meio século de uma espera sempre vã, o Pe. Carré decidiu finalmente olhar para as coisas na cara: pela primeira vez, realmente tentou reviver o evento extraordinário que, às vezes negativamente, mas sobretudo de modo positivo, tinha dominado toda a sua existência.

E, de repente, eis que o milagre dos dias antigos se renovava. Diante dos seus olhos, a experiência de Neuilly mudava, e uma bela adormecida surgia, radiante, no bosque, de uma longa noite escura.

O Pe. Carré buscou testemunhas próximos dele e os encontrou; por exemplo, Julien Green, do qual cita uma frase: "A recordação de uma graça passada pode ser uma nova graça". Parece que o texto mais revelador também é o mais tardio de todos. Trata-se de uma nova conclusão para a reedição de um livro sobre La Sainteté.

Ele será publicado em janeiro de 2004, o mesmo mês da morte do Pe. Carré. É um equilíbrio admirável de toda a vida religiosa do seu autor: "Entro no meu 96º ano. O Senhor me encheu de graças, já que me conservou por tanto tempo no doce reino da terra, provavelmente para exercer o ministério da senilidade, que consiste em oração e intercessão".

Longe de definir a existência neste mundo como um vale de lágrimas, o Pe. Carré celebra o "doce reino da terra". Nos seus períodos de "excitação", eu acho que ele se culpou muito pelo seu amor excessivo pelas coisas deste mundo. Agora, o perdoamos.


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