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07 Agosto 2013

Os desafios do papado de Francisco são dois: fazer com que a Igreja de Roma entenda que não pode abrir mão de uma cultura tão profunda e "outra" como a chinesa para ser verdadeiramente católica; e fazer com que a China entenda que não pode viver de bispos de segunda linha para ser o que já é no palco do mundo.

A análise é Alberto Melloni, historiador da Igreja, professor da Universidade de Modena-Reggio Emilia e diretor da Fundação João XXIII de Ciências Religiosas de Bolonha. O artigo foi publicado no jornal Corriere della Sera, 05-08-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Para além das novidades subjetivas, o papado de Bergoglio marca uma novidade objetiva que se refere à China. Como jesuíta, o papa pertence a uma tradição inabalável de amor pela China.

Como bispo de Roma que fala a "língua cristã" – o que é a língua cristã senão aquela que ele usou no avião que voltava do Brasil? –, ele assumiu, porém, o dever de conservar e de reconstruir a comunhão das Igrejas, especialmente onde, como na China, ela é mais difícil.

As lideranças chinesas, também elas recentemente renovadas, entenderam essa dupla novidade. E, depois de terem catalogado cuidadosamente a pletora de enviados sem credenciais ou os chamados precursores de melhores relações, os dirigentes de Pequim estão prestes a se resignarem à ideia de que ou encontram um contato direto com a Santa Sé, ou terão se contentar para sempre com jogar para fazer subir a tensão quando ela for baixa e a fazê-la baixar quando for alta demais.

Um sinal da nova posição chinesa veio no Diário do Povo de sexta-feira passada. Não uma figura intermediária, mas justamente Zhang Lebin pessoalmente, o vice-diretor da Administração Estatal dos Assuntos Religiosos, escreveu um artigo sobre o respeito das religiões nas sociedades contemporâneas. Ele explicou que as religiões podem ser fatores positivos ou negativos, que a tarefa da sociedade é favorecer as construtivas, e que "tratar bem" todas as religiões é um princípio jurídico fundamental.

A China, concluía o importante dirigente, honra esse dever de respeito de modo ativo: quando favorece todos os estudos teológicos, encoraja a filantropia dos fiéis, apoia a formação dos diversos cleros e incentiva as fés a desenvolver relações internacionais fraternas para contribuir com aquele mundo "harmonioso", que é a pedra angular da política de Pequim.

A um olho inexperiente, poderiam parecer reivindicações rituais ou de propaganda: ao invés, são um modo "chinês" de reconhecer que a novidade de Francisco não passou despercebida. A prova disso é que, nesses mesmos dias, o Hong Kong Sunday Examiner, normalmente muito duro contra os bispos consagrados também sem o consentimento de Roma, fazia uma singular abertura de crédito ao presidente Xi Jinping: se Xi "sonha com uma nova China", dizia o órgão antagonista do clero patriótico, vejamos qual espaço terá a liberdade da Igreja Católica. Um gesto não muito amplo: mas que assinala um clima de expectativa, ao menos.

Além disso, o fato de que Pequim ainda não forçou a mão sobre a nomeação do novo arcebispo de Xangai – o primeiro que será consagrado depois da morte do santo ancião Aloysius Jin, que passou um terço da sua vida na prisão e que nunca se separou da Igreja "patriótica" por amor ao seu povo e certamente não para fazer carreira – mostra que em Pequim se espera saber quem vai ocupar o posto que era de Pietro Parolin, o artífice do diálogo do qual Bento XVI colheu os frutos, e quem irá desempenhar o papel de secretário de Estado.

Talvez até a nomeação de um ex-embaixador chinês na Itália como vice-ministro da Cultura faça parte de um projeto de diálogo que poderia encontrar as vias do contato direto que – por causa, como sempre, da delegação de Taiwan – não ocorreu por um triz por ocasião da missa de início do pontificado.

O papa, que fala fluentemente "cristão", não deixará fugir esse sinal: e deve encontrar – não lhe será difícil – uma ocasião, como a que levou o genro de Khrushchev ao escritório de João XXIII durante uma visita oficialmente devida a outros compromissos. E o papa da pobreza não vai subestimar que, ao dizer o cristianismo em chinês, a Igreja de Roma pode e deve experimentar a mais radical das pobrezas, a pobreza de cultura, que Dossetti e Lercaro levantaram no Concílio.

Depois, haverá a beatificação de Matteo Ricci, do qual, em maio, foi encerrado o processo diocesano e que é uma espécie de maná do céu para o papa jesuíta. Assim como a canonização de João XXIII feita ex certa scientia encerra meio século de inúteis controvérsias sobre o Holocausto e sobre o Concílio, assim também a beatificação (ou a canonização ex certa scientia) de Ricci e dos seus companheiros poderia encerrar três séculos de hesitações e obter dois resultados históricos: fazer com que a Igreja de Roma entenda que não pode abrir mão de uma cultura tão profunda e "outra" como a chinesa para ser verdadeiramente católica; e fazer com que a China entenda que não pode viver de bispos de segunda linha para ser o que já é no palco do mundo.