Papa Francisco e a batalha contra a Cúria Romana

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26 Fevereiro 2016

 

Se havia uma coisa odiada pelo cardeal Jorge Mario Bergoglio era a Cúria Romana. “Odiada” poderia parecer um termo demasiado forte, mas para o então arcebispo de Buenos Aires esta era sinônimo de centralismo, à custa das periferias da Igreja Católica onde realmente bate o coração do catolicismo, mas acima de tudo de poder e mundanismo.

Uma Cúria, para Bergoglio tornado Francisco, “última corte da Europa", sofrendo de pelo menos "15 doenças", como o próprio Papa impiedosa e publicamente diagnosticou. À TV mexicana Televisa, Bergoglio contou que quando ele vinha a Roma como um cardeal "o ambiente de fofocas não me agradava. Então eu vinha, e voltava imediatamente. O Papa Bento XVI começou o pontificado com missa de manhã e à tarde, eu já estava no avião de retorno. Agora eu não me importo. Aqui têm pessoas muito boas. O fato de viver aqui me ajuda muito".

O artigo é de Francesco Antonio Grana, publicado por Il fatto Quotidiano, 24-02-2016. A tradução é de Ramiro Mincato.

No documento programático de seu pontificado, Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, Francisco escreveu: 

"É claro que Jesus Cristo não nos quer como príncipes que olham desdenhosamente, mas como homens e mulheres do povo. Esta não é a opinião de um Papa, nem uma opção pastoral entre outras possíveis; são indicações da Palavra de Deus tão claras, diretas e contundentes, que não precisam de interpretações que as despojariam da sua força interpeladora. Vivamo-las sine glossa, - é o convite do Papa - sem comentários. Assim, experimentaremos a alegria missionária de partilhar a vida com o povo fiel de Deus, procurando acender o fogo no coração do mundo".

Uma nova visão do pontificado, objeto da análise de historiadores da Igreja, Anna Carfora e Sergio Tanzarella, no primeiro volume "Il cristiano tra potere e mondanità; 15 malatie secondo Papa Francesco", (ed. Il Pozzo di Giacobbe).

"É preciso - escrevem os dois estudiosos comentando o programa de renovação Bergoglio - descer da condição de superioridade que arrisca não fazer-se sentir humano entre os humanos, descer para ver como os outros veem o mundo; somente descendo podemos encontrar os outros e vê-los nos olhos. Mas essa descida para a condição comum da humanidade que permaneceu sobre terra, que não pertence ao topo da sociedade e do mundo, que não possui uma opção preferencial pelo céu, que não assiste dos terraços, comendo guloseimas, as missas de beatificação, que não é membro do "clube de caça" ou do "novo círculo de xadrez”, deve continuar ir ao encontro derrubando cada muro ou barreira, cada distância e justificação da distância, cada um dos códigos de separação".

Mas, como sublinham ainda os dois estudiosos e como explicou o Papa várias vezes, mais com os seus eloquentes gestos de caridade e acolhimento que com palavras, “ir ao encontro significa também tocar, tocar a carne sofredora dos outros", e não manter-se à "distância do nó do drama humano", aprender a abraçar as pessoas". A terapia que Francisco propõe à Cúria e mais ainda a toda sua Igreja, explicam Carfora Tanzarella, "é aprender a ser mais humano, superar as tentações do poder como dominação, divinização e sacralização, as lisonjas de uma mundanidade espiritual fundada sobre o efêmero e sobre o sucesso camuflados pelas exigências "de resultados pastorais", os falsos misticismos da primazia da ritualidade no lugar do primado da pessoa e da sua escuta".

Prevenir, portanto, antes que curar as doenças de uma Cúria Romana que já São Francisco, século XIII, encontrou encastelada no cimo dos dois principais males que sempre sujaram o rosto da Igreja: cobiça e luxúria. Ou seja, dinheiro e sexo, com escândalos financeiros e o flagelo abominável da pedofilia, que o catolicismo contemporâneo, infelizmente, conheceu muito bem, são herdeiros da história de uma instituição de mais de dois mil anos, que nunca conseguiu vencer a luta contra os vícios capitais. Um combate que nunca quis empreender seriamente. Pelo menos até Francisco chegar no trono de Pedro.