Apesar da sua narrativa, o Papa Francisco não é nenhum revolucionário ecumênico

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03 Fevereiro 2016

As narrativas, especialmente na forma como são moldadas na imprensa, são uma coisa engraçada. Toda figura pública tem uma e, tão logo elas estejam assentadas, quase tudo o que a pessoa diz ou faz é visto através de tal lente.

A reportagem é de John L. Allen Jr, publicada por Crux, 31-01-2016. A tradução de Isaque Gomes Correa.

Para o Papa Francisco, um elemento-chave de sua narrativa é a (muitas vezes exagerada) noção de que ele é um dissidente liberal. Mesmo quando faz ou diz algo que outros papas já fizeram ou disseram milhares de vezes antes, no seu caso é tido como uma inovação.

Esses últimos dias trouxeram exemplos no front ecumênico, em particular com respeito ao objetivo de estabelecer a unidade entre os vários ramos do cristianismo.

Resumidamente, eis o que aconteceu:

  • Francisco anunciou que irá viajar para Lund, Suécia, no dia 31 de outubro, para uma série de eventos comemorativos ao 500º aniversário da Reforma Protestante, juntamente com a Federação Luterana Mundial e líderes de outras denominações cristãs.
  • O Vaticano e a Federação Luterana Mundial emitiram uma “oração em comum” para as festividades e cerimônias religiosas visando ser usada em todo o mundo por ambas as igrejas.
  • Ao mesmo tempo, foi informado que se ofereceu a Sagrada Comunhão na Basílica de São Pedro a membros de um grupo de luteranos finlandeses que visitavam Roma, desafiando as regras da Igreja, movimento mais tarde descrito como um erro.
  • Durante uma cerimônia ecumênica em 25 de janeiro deste ano, Francisco pediu por “misericórdia e perdão” pela forma como os cristãos trataram uns aos outros, incluindo um pedido de perdão pelo comportamento dos católicos que não refletiram “valores evangélicos”.

Estes movimentos edificaram-se no fato de que, quando Roma dedicou uma praça a Martinho Lutero em setembro passado, a cidade assim o fez com a bênção tácita do Vaticano, e logo depois Francisco visitou a Igreja Evangélica Luterana de Roma, quando também respondeu a uma fiel que lhe perguntara sobre a Comunhão católica, em que ele respondeu dando a entender se tratar de uma decisão pessoal, que ela, a fiel luterana, poderia tomar por si mesma. 

Nos círculos católicos mais tradicionais, essas coisas foram motivos de alarde, quando viram um Francisco exageradamente “suave” no tocante as fronteiras entre o catolicismo e as demais igrejas.

No entanto, se for para julgar Francisco como sendo fraco nesses pontos, então o mesmo deve ocorrer com todos os papas dos últimos 50 anos, incluindo figuras cujas narrativas nos diriam o contrário (como nos casos de São João Paulo II e Bento XVI, por exemplo).

O compromisso católico com o ecumenismo foi ratificado no Concílio Vaticano II.

Mesmo antes de o Concílio terminar, o Papa Paulo VI, em 1964, viajou a Jerusalém para se encontrar com o Patriarca Atenágoras de Constantinopla, no primeiro encontro entre os líderes do cristianismo ocidental e oriental em mais de 500 anos.

Dois anos mais tarde, Paulo VI passou o anel episcopal que havia usado como cardeal-arcebispo de Milão ao Arcebispo Michael Ramsey, de Canterbury, líder da Comunhão Anglicana. Em 1975, quando o novo Patriarca de Constantinopla mandou um enviado ao Vaticano, Paulo ajoelhou-se e beijou seus pés. (Este ato foi especialmente marcante, visto que, em geral, os que visitavam o papa deviam realizar este mesmo gesto como uma forma de submissão.).

Quanto a João Paulo II, o catálogo de suas palavras e atos ecumênicos é tão amplo que fica impossível de se resumir. Mesmo assim, aqui apresento alguns exemplos.

Em dezembro de 1996, o Arcebispo de Canterbury George Carey e vários outros bispos anglicanos foram a Roma. João Paulo deu a Carey uma cruz peitoral de ouro, o mesmo presente que havia oferecido aos bispos católicos em suas visitas obrigatórias a Roma. Ele presenteou os demais anglicanos com cruzes peitorais de prata.

No entanto, segundo a doutrina católica oficial, os bispos anglicanos não são ordenados de forma válida e, portanto, não têm por que ostentar tais símbolos. Os presentes demonstraram um papa sendo mais corajoso com seus gestos do que com suas palavras.

Em outubro de 2002, juntamente no 700º aniversário do nascimento de Santa Brígida da Suécia, João Paulo II tomou parte em uma cerimônia de vésperas na Basílica de São Pedro. Estiveram presentes 13 bispos católicos romanos, mais nove bispos luteranos da Suécia, Noruega e Dinamarca, além de um clérigo luterano e três prelados não católicos (dois ortodoxos e um anglicano).

Os prelados estavam vestidos com roupas litúrgicas, adentraram o local e se sentaram em igual dignidade. Foi difícil não ter a impressão de que João Paulo estava reconhecendo uma fraternidade em ordens sagradas a qual a teologia católica teria dificuldades em explicar, assim como Francisco esteve buscando uma maneira de falar sobre a Comunhão em sua resposta à senhora da comunidade luterana de Roma, maneira em cuja resposta fosse tradicional e, ao mesmo tempo, aberta.

Bento XVI também se encontra nesse grupo que estamos descrevendo. Em sua primeira missa como papa, celebrada na Capela Sistina no primeiro dia após a sua eleição, ele prometeu que “trabalhar incansavelmente para a reconstrução da unidade plena e visível de todos os seguidores de Cristo” seria o seu “compromisso prioritário”.

Vale ainda notar que a polêmica “oração em comum”, publicada pelos católicos e luteranos, baseia-se em uma declaração conjunta de 1999 das duas igrejas concernente à doutrina da justificação. Da parte dos católicos, a figura que, em última análise, salvou o pacto foi o Cardeal Joseph Ratzinger, futuro Papa Bento.

“Foi Ratzinger quem desatou os nós”, disse Dom George Anderson, então presidente da Igreja Evangélica Luterana dos EUA em entrevista no ano de 1999. “Sem ele, talvez não teríamos um acordo”.

A questão de fundo é que, se Francisco deve ser tomado como um revolucionário por sua pauta ecumênica, trata-se então de uma revolução começada muito antes de ele chegar, e que irá, certamente, continuar depois de ele partir.