Tragédia parisiense. “Esses monstros não terão sido produzidos pelo sonho de nossa razão econômica?”

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Por: Jonas | 17 Novembro 2015

Na avaliação do teólogo jesuíta José Ignacio González Faus, “quando o ódio se junta com a religião, esta se corrompe, o ódio se potencializa e acaba cumprindo o sábio refrão latino: ‘a corrupção do ótimo é o péssimo’. Por isso, dado o quanto é infinitamente manipulável o nome de Deus, é necessário recuperar o que escreveu, outrora, José A. Marina: a ética nasce das religiões, mas depois esta deve criticar a mãe, para evitar que algo tão valioso como a fidelidade se confunda com algo tão monstruoso como o fanatismo”. Seu artigo é publicado por Religión Digital, 15-11-2015. A tradução é do Cepat.

 
Fonte: http://goo.gl/ol8z1W  

Eis o artigo.

Escrevo estas reflexões principalmente para mim mesmo: pela necessidade de me tranquilizar diante da barbárie do atentado de sexta-feira, em Paris. Temo que muitos não as aceitem. Pediria para que tentem refleti-las, antes de condená-las.

1. Há ao menos uma coisa na qual todos estaremos de acordo: os autores de semelhante selvageria são uns verdadeiros monstros. Agrava esta constatação o fato de que não se trata de seis ou sete monstros excepcionais, mas, ao contrário, de dezenas ou centenas de milhares; e, sem dúvidas, os organizadores são mais monstruosos que os pobres executores.

2. Porém, isso não é tudo o que cabe dizer: porque todos nós, seres humanos, somos capazes do pior e do melhor. Podemos chegar a ser santos, mas também podemos chegar a ser monstros. E, então, fica a pergunta: como estes jovens puderam chegar a semelhantes níveis de desumanidade? Ao tentar compreender, deparo-me com os seguintes dados:

3. O profeta Isaías deixou escrito que “a paz é fruto da justiça”. Parece lógico, então, que o fruto de um mundo tão injusto como o nosso e onde as diferenças entre os seres humanos são arrepiantes, tenha que ser, necessariamente, a guerra e a violência.

4. Todo ser humano morto antes do tempo violentamente é uma tragédia que deve ser chorada. E não cabe estabelecer aqui alguns mortos de primeira classe (que são os nossos), e outros mortos sem importância que não merecem nenhum dia de luto.

5. Falando de monstros, recordo um célebre quadro de Goya: “o sonho da razão produz monstros”. Esses monstros não terão sido produzidos, em parte ao menos, pelo sonho de nossa razão econômica? Por essa razão do máximo benefício, do mínimo salário, de nossa monstruosa “reforma” trabalhista, das aposentadorias de três milhões para os banqueiros, da pilhagem do terceiro mundo, do luxo, do esbanjamento e da ostentação como motores da economia, do monopólio do petróleo e do armamento cada vez maior, para defesa dessa desordem toda?... São esses, na realidade, os nossos verdadeiros valores, ou os outros aos quais apelamos para nos justificar? Não se deve esquecer que, na história, quando as coisas se distorcem e não se endireitam a tempo, acabam levando a situações insolúveis, ou cuja solução só pode vir de uma mudança radical de rumo, que apenas pode se realizada pouco a pouco e em longo prazo.

6. Segundo a moral cristã, tudo o que uma pessoa tem de mais, uma vez coberta suficiente e dignamente suas necessidades, deixa de lhe pertencer e passa a ser de quem necessita. A propriedade privada não é um direito absoluto, mas, ao contrário, um direito secundário que só vale na medida em que sirva para realizar “o destino comum dos bens da terra”, que é o verdadeiro direito primário (ver, por exemplo, Popularum Progressio n. 22). De acordo com isto, muitos imigrantes, aos quais rejeitamos de mil maneiras, não vêm nos tirar o que é nosso, mas, ao contrário, recuperar o que é seu. Não seria então mais seguro, ao invés de fechar nossas fronteiras, colocar fronteiras em nossa avareza?

7. Ignacio Ellacuría falava com insistência de “uma civilização da sobriedade compartilhada” como única saída para nosso mundo (ele formulava a questão de forma ainda mais dura: uma civilização “da pobreza”). O sonho de um crescimento constante da riqueza está destroçando o planeta. No momento atual, destruímos anualmente quase 50% a mais do que a terra pode repor. Por isso, além das medidas urgentes que é preciso tomar agora (de investigação e proteção), não parece imprescindível que caminhemos, a longo prazo, para essa nova civilização? Não acredito que algum cristão que se oponha a esse projeto de Ellacuría possa merecer, de verdade, o nome de cristão.

8. Essa “desordem estabelecida” (E. Mounier) ou esse “pecado estrutural” de nosso mundo desenvolvido, do qual desfrutamos e que outros padecem, não será um dos progenitores desses e de outros monstros? Porque quando o ódio se junta com a religião, esta se corrompe, o ódio se potencializa e acaba cumprindo o sábio refrão latino: “a corrupção do ótimo é o péssimo”. Por isso, dado o quanto é infinitamente manipulável o nome de Deus, é necessário recuperar o que escreveu, outrora, José A. Marina: a ética nasce das religiões, mas depois esta deve criticar a mãe, para evitar que algo tão valioso como a fidelidade se confunda com algo tão monstruoso como o fanatismo.

9. Tudo isto deveria nos ajudar a não reagir com ódio, para não entrar naquela espiral de violência que Helder Câmara tanto temia. É preciso fazer justiça, é claro. No entanto, sem que chamemos de justiça o prazer de provocar dano, pois, então, estaríamos colocando-nos no mesmo nível humano que esses monstros.

10. Alguns sociólogos afirmam que hoje já estamos na “terceira guerra mundial”. Só que hoje as guerras ocorrem de outra maneira, para evitar irmos ao campo de batalha. Por isso, pode ser bom concluir recordando que a humanidade saiu de catástrofes e calamidades ainda piores do que a que nos ameaça hoje. O povo judeu, após o desastre do exílio, onde se sentiram abandonados por Deus, pôde reconstruir o Templo e preservar seu monoteísmo. No século passado, após a atrocidade do Holocausto e da Segunda Guerra Mundial, a humanidade viveu, segundo muito economistas, uma pequena idade de ouro. Nem sempre é possível fazer tudo, mas sempre é possível fazer algo. E esse algo, por pouco que seja, torna-se hoje, para todos nós, uma grave obrigação.