28 Abril 2015
"É o fim da ilusão: aquele que dizia “Quem sou eu para julgar” revela a sua verdadeira face. Nada mudou. O Vaticano e o catolicismo continuam a ser desatualizados, intolerantes, hipócritas e homofóbicos.", escreve Christine Pedotti, intelectual católica, co-fundadora do movimento Conférence catholique des baptisé-e-s francophones (CCBF), em artigo publicado por Témoignage Chrétien, 23-04-2015. A tradução é de Ivan Pedro Lazzarotto.
Eis o artigo.
No último 1°de março, o embaixador junto a Santa Sé, Bruno Joubert, deixou normalmente suas funções. Até o final de janeiro, a diplomacia francesa designa Laurent Stefanini para seu sucessor. Tem todas as qualidades necessárias. Foi o primeiro conselheiro na Villa Bonaparte (embaixada francesa junto a Santa Sé) de 2001 até 2005, chefe do serviço de problemas religiosos em “Quai d’Orsay” e é católico praticante. Foi recomendado pelo cardeal Vingt-Trois em Paris e pelo cardeal Tauran em Roma. É ainda condecorando com a ordem de São Gregório Magno, a Legião de honra do Vaticano. Mesmo assim o Vaticano, há aproximadamente três meses, se opõe a esta nomeação com um silêncio obstinado que, na linguagem “vaticanesca” equivale a uma rejeição.
Por quê? Laurent Stefanini, solteiro, é, ao que parece, homossexual. O homem não assume nem esconde, e o fato afeta rigorosamente a sua vida privada. Não se deveria nem ao menos mencionar. Mesmo assim já é um fato público, um tipo de incidente diplomático.
Evidentemente, toda a imprensa assume o fato nos seguintes termos: “Papa Francisco rejeita um embaixador homossexual”. É o fim da ilusão: aquele que dizia “Quem sou eu para julgar” revela a sua verdadeira face. Nada mudou. O Vaticano e o catolicismo continuam a ser desatualizados, intolerantes, hipócritas e homofóbicos.
Procuramos porém decifrar o assunto. Primeira coisa: a França cometeu uma gafe? Absolutamente não. A regra do Vaticano é de não aceitar as credenciais de um embaixador em “situação irregular”. Traduzindo: divorciado e novamente casado, concubino ou vivendo em uma união homossexual. E este não é o caso do candidato francês. O problema está então em outro lugar. Se murmura que entre os católicos franceses da linha da “Manif pour tous” teriam reagido, em Roma, à “provocação” do governo francês e contribuído para anular o procedimento.
Infelizmente é plausível. Se falta também que essa não-nomeação seja um episódio da batalha que se desenvolve no próprio Vaticano. É a administração Vaticana, tratada tão duramente pelo Papa, que encontrou uma boa ocasião para colocar o Papa em uma lamentável situação de hipocrisia, ele que a fustiga nos membros da Cúria. De fato, embora a embaixada da França tenha prestígio, não existe motivo para acreditar que a nomeação do embaixador passe pelo escritório do Papa. Então é na administração que o assunto foi bloqueado.
De sua parte, a França mantém sua escolha – e com razão – por meio do porta-voz Stéphane Le Foll. O dossiê chegará então ao ofício do Papa... ou a Villa Bonaparte permanecerá vazia.
A nossa análise? Somos claros: suspeitamos um conluio dos ambientes católicos franceses mais fechados e do lado mais esclerótico da Cúria para colocar dois Franciscos em situação difícil.
Fazendo passar o Francisco francês (ndr: François Hollande) por um bicho-papão antirreligioso e provocador, abalando as fileiras dos católicos de direita que clamam a “cattofobia”.
Acusando o Francisco romano de homofobia, o afastam de uma opinião pública progressista que o apoiou até então. A armadilha é bem organizada. Não fiquemos surpresos: ambos os Franciscos têm inimigos amargos.