13 Abril 2015
Publicamos aqui a declaração da fraternidade La Pierre d'Angle, que reúne pessoas do movimento ATD Quart Monde, que atende pessoas miseráveis e excluídas, em vista do Sínodo ordinário dos bispos sobre a família. O texto foi publicado no sítio Garrigues et Sentiers, 08-04-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.
A La Pierre d'Angle é uma fraternidade de pessoas do Quarto Mundo [pessoas em situações de miséria e exclusão social] e de outras que a ela aderem. Ela reúne 18 grupos na França e no Quebec, em torno da pessoa de Jesus e da espiritualidade do padre Joseph Wresinski [1].
A fraternidade La Pierre d'Angle favorece um espírito comum, que poderia ser definido da seguinte forma: aprofundar, vivendo-a, a espiritualidade do padre Joseph Wresinski; não deixar de buscar os mais pobres e os mais esquecidos, e lhes dar prioridade; aprender com a experiência de vida dos mais pobres; descobrir com eles como a presença de Deus já se manifesta nas suas vidas; favorecer para cada grupo e para cada membro dos grupos uma participação incrementada na vida da Igreja e do mundo; transmitir a experiência de vida e a reflexão dos mais pobres para a Igreja e para o mundo.
Nos dias 21 e 22 de março, a fraternidade La Pierre d'Angle se reuniu para oferecer a sua contribuição para o Sínodo sobre a família. O texto que se segue é uma coleção das palavras dos participantes.
Os títulos são da redação. Cada parágrafo corresponde a uma intervenção. Contato: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
A família concreta
A família significa estar todos reunidos, como em torno de uma refeição, para uma festa ou em uma morte. Ela está bem quando não falta ninguém. Há alegria em estar juntos, até mesmo os mortos estão presentes.
Mas ela sofre quando faltar qualquer um. Ela se perguntar o porquê, ela se critica.
A família também é a alegria de ter feito algo de bom. É preciso muito amor para construir uma família e fazê-la crescer. É preciso amar por primeiro. É preciso amor.
A família em perigo
Também é preciso seguranças para alimentar os seus filhos, e um teto e um trabalho. Se ela não tiver todas essas coisas, ela perde a sua saúde e perde os seus pontos de referência e as suas forças.
A família é frágil: as provas me fizeram compreender o que é uma família e como ela pode ser facilmente destruída quando a vida é muito difícil.
Há famílias pobres, e as crianças sofrem as consequências disso: vão mal na escola e são zombadas. Há uma grande preocupação com as crianças. A escola é um meio para o futuro. Mas qual será o futuro para elas? Inquietamo-nos com isso.
A família vulnerável
A miséria rompe os laços familiares. A relação de sangue é importante, mas, se as crianças são enviadas para uma instituição, perdem-se as suas raízes e a sua história.
Eu fui colocado em uma instituição e nunca entendi por que a minha mãe não me criou. Eu estive por muito tempo em uma instituição e era rebelde. Agora, eu sei que eu vou lutar sempre para que os meus filhos e para que a nossa família permaneça unida. Quando sofremos durante a infância, corremos o risco de repercutir isso sobre os nossos próprios filhos.
Eu sou um órfão desde o nascimento. Minha vida foi despedaçada. Teoricamente, a família é a alegria, a felicidade, a ternura; mas, às vezes, é também a escuridão, a dor, a tristeza, a infelicidade. Existem duas cores. É preciso aceitar que, às vezes, a família é um lugar de sofrimento e de agonia. A família é uma responsabilidade de uma vida inteira. É preciso perdoar tudo. Mas dificilmente perdoamos os nossos pais, é mais fácil perdoar os nossos filhos.
Quando as crianças são retiradas dos seus pais, vivem todas as carências. As famílias pobres não têm os meios para se fazer ouvir. Somos acusados dos nossos infortúnios. São os nossos filhos que nos dão a força para continuar lutando, porque, quando não temos a a sociedade do nosso lado, é muito difícil.
Ninguém escuta as famílias pobres porque elas se expressam mal. Os assistentes sociais não nos ouvem. Eles fazem o que querem, colocando as crianças em instituições e dividindo as famílias.
A família confiante em Deus
Sendo uma pessoa religiosa muda muitas coisas. Sempre temos alguém em quem confiar. Deus é a vítima das minhas lamentações. Eu posso dizer tudo a ele. Com Deus, eu posso ter confiança, o que eu digo a Ele permanece no seu coração. Ele é tolerante, e n'Ele eu posso ter confiança.
A fé muda tudo: isso nos dá a força do perdão.
O Senhor faz parte da nossa família. Deus ajuda, é um raio de sol.
Crer em Deus é crer no amor, simplesmente isso. Deus nos faz crer em nós mesmos, e nos tornamos uma luz para os outros.
Com a fé em Jesus, nunca estamos sozinhos. Podemos reencontrar alguém dentro de nós mesmos e dizer-lhe quando estamos cansados. Ele restaura a força e apazígua o coração. Deus dá a paz e o equilíbrio. Como quando Jesus caminha sobre as águas, temos a impressão de que Ele está nos nossos sofrimentos e que caminha sobre eles para destruí-los. Ele diz: "Coragem, não tenha medo", mesmo quando o vento sopra forte, e as ondas são grandes.
Às vezes, nas dificuldades e nas nossas angústias, podemos perder a confiança, e a dúvida nos assalta. Deus sofre conosco. Ele chora quando choramos. Então, Ele também precisa que nos ocupemos d'Ele e que O consolemos.
Queremos que Deus seja tolerante conosco, mas é preciso que nós também sejamos tolerantes com os outros e com Deus.
Eu escuto o silêncio e sinto Deus no silêncio. Ele responde no silêncio. Mas, nas cidades, é difícil estar em silêncio, ouvimos a televisão dos vizinhos, os motores das motos dos jovens que fazem rachas. Os jovens, quando não têm nada para fazer, ficam entediados e fazem coisas estúpidas.
A oração é como uma fonte de paz, é como reencontrar alguém como uma fonte. Jesus muitas vezes foi até a montanha para ficar sozinho na natureza. Eu me comparo a Ele e, no silêncio, encontro a paz para reencontrar, mais tarde, a minha família.
A família, lugar do perdão
O problema do perdão é muito difícil.
É preciso tempo, paciência e perdão para reacomodar as feridas do passado. Também é preciso compreender o que aconteceu.
Eu não conheci a minha família. Minha mãe nos abandonou quando eu tinha seis anos. Eu não entendi o porquê e, mais tarde, quando ela quis me rever, eu não pude acolhê-la. Ela procurava o amor junto de mim. Agora, ela morreu, e eu lamento por não podido revê-la.
O Amor na família é o mais importante, permite perdoar.
Eu acredito fortemente na força do perdão, porque, se estamos sempre em conflito com nós mesmos e com os outros, não podemos acolher o outro. É uma forma que permite avançar, especialmente quando há separações de longo tempo. O perdão é uma força que nos faz ir além das nossas capacidades. O perdão é o amor, e sem o amor não se pode em frente. Devemos perdoar e perdoar a nós mesmos. Amor e fé podem ajudar a curar as feridas.
O caminho da fé não pode ser feito todo sozinho.
Como se reconstruir depois de uma infância difícil e quando as condições da infância se repetem na idade adulta? Para se reconstruir, é preciso uma força interior, e essa força são os outros que a doam. Aprendemos a falar, aprendemos a confiar. Crescemos juntos em uma história. Estamos mais à vontade com nós mesmos, e a paz pode crescer em nós e com os outros, especialmente com os nossos filhos.
O álcool é muito difícil. Ele faz perder todos os seus direitos. Encontramo-nos sozinhos na rua e na violência. Perdemos todos os pontos de referência. Não podemos mais ver os seus filhos. Não temos mais ninguém. Não temos mais como sair. É preciso que venha alguém para nos ajudar a sair da rua. Pouco a pouco, eu reencontrei o gosto de rever os meus filhos. Só se tem uma família, mas a La Pierre d'Angle é a minha segunda família. Ela me mostrou o caminho, e agora eu posso ajudar os outros.
La Pierre d'Angle, minha família de coração
No grupo, são tecidos laços. Não estamos mais sozinhos. É uma família do coração.
A La Pierre d'Angle existe graças ao padre Joseph Wresinski. Eu o conheci, ele sempre me ajudou. Ele me ensinou a viver, ele me ensinou a não baixar a cabeça. Quando ele morreu, eu perdi um pai.
Pertencer à família da La Pierre d'Angle significa viver diferentemente, falar com a caridade do coração. Nesse lugar do evangelho, eu me reencontrei. É uma riqueza e uma felicidade. Na minha família do Quarto Mundo, amamo-nos e nos damos coragem.
Com o Quarto Mundo, pode-se falar livremente sem ser interrompido. Não debocham de nós, não somos julgados. Somos ouvidos e, juntos, fazemos grandes coisas.
Ela me foi de grande ajuda quando o meu filho caiu na delinquência. Eu pensei em Jesus na cruz. Eu me disse que eu não deveria deixar os braços caírem, e o meu filho consegui se superar.
Jesus é como uma estrela, que está sempre lá.
Eu caí na delinquência. Eu fiz muita besteira. Eu causei acidentes. Eu vi a tristeza que eu causava aos meus pais. Minha mãe rezava muito. Jesus me mostrou os gestos que ele fez. Então, eu parei. Ele vai me levar para longe disso. Eu quero me tornar uma pessoa de bem. Hoje, eu faço um curso de formação.
A La Pierre d'Angle representa uma família, porque aqui há sinceridade e amizade. Não somos julgados. Sabemos que a vida é difícil. Nas paróquias, não é a mesma coisa, não há relações. É preciso que a Igreja mude o olhar sobre as famílias pobres, para lhes encorajar e as escutar. Os mais pobres têm muito a dizer, eles conhecem a vida de uma forma diferente.
La Pierre d'Angle, um lugar para viver o Evangelho
Eu conhecia muito Maria. Na La Pierre d'Angle, eu aprendi a ler a Bíblia, aos 42 anos. Lendo a Bíblia, eu descobri Jesus e aprendi a conhecer Deus. Isso me deu força para enfrentar todas as dificuldades. É Cristo que me dá a força! Quando eu me sinto no fundo do poço, eu penso n'Ele e me levanto, pela minha família.
A Bíblia é um instrumento que Deus utiliza para falar conosco e para nos fazer refletir, sobre Deus e sobre a vida. Os textos nos fazem descobrir coisas que nunca vimos. Não os compreendemos todos iguais, não os lemos da mesma maneira. Avançamos uns pelos outros.
É a nossa vida que nos faz falar. Quando a dor é muito forte, podemos perder a confiança. Tentando voltar ao topo e rezando a Jesus para que nos ajude. Sabemos que há alguém lá em cima que estende a mão.
Ler o Evangelho é importante. Ele permite reconhecer que há um outro dentro de nós. Ele dá um sentido, uma direção. Estando à escuta da Palavra de Deus, devemos colocá-la em prática. Também podemos dizer que somos pessoas religiosas através dos nossos atos.
Deus me deu a força de me comprometer pelos outros. Para evitar que os seus filhos fossem colocados em uma instituição, eu trabalhei para colocar o apartamento de uma família dentro das condições apropriadas.
Eu acredito em Deus, eu o busco, e Ele me encontro, e eu o busco de novo. Crer é complexo, nunca paramos de fazer perguntas.
Nota:
1. O padre Joseph Wresinski (1917-1988) é o fundador do Movimento ATD Quart Monde ("Aide à toute détresse Quart Monde": Ajuda a toda miséria do Quarto Mundo). A maioria dos membros da La Pierre d'Angle são também membros do ATD Quart Monde, mas a fraternidade é independente em relação ao movimento.