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18 Março 2015

Achar maneiras de minimizar o efeito dos arrotos de bois e vacas --por incrível que pareça, uma fonte importante de gases que aquecem o planeta --pode ser mais difícil do que se imaginava, indica um novo estudo.

Esperava-se que, conforme a criação de bovinos ficasse mais eficiente --ou seja, com os animais ganhando o mesmo peso, mas consumindo menos comida--, seria reduzida a emissão de metano (CH4), gás causador do efeito estufa produzido durante a digestão dos bichos.

A reportagem é de Reinaldo José Lopes, publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 17-03-2015.

Cientistas brasileiros descobriram, porém, que isso não acontece. Bois que engordam facilmente soltam tanto metano quando os comilões.

É uma notícia ruim, porque, de maneira geral, o gabo brasileiro não é conhecido por ser econômico em gases. O fenômeno pode estar ligado à alimentação do rebanho, que é de qualidade relativamente pobre (rica em celulose) e levaria as bactérias do estômago dos bichos a trabalharem bastante e, assim, gerarem mais metano.

O estudo, coordenado por cientistas do Instituto de Zootecnia de São Paulo, sugere, portanto, que vai ser preciso intervir em outros aspectos da criação de bovinos do país para diminuir as emissões.

Calcula-se que o metano seja responsável por cerca de 20% do aquecimento global até agora. Mas o aumento de emissões da molécula preocupa porque seu efeito é dezenas de vezes mais potente que o do dióxido de carbono (CO2), o principal gás-estufa.

A "usina" de metano no organismo dos bovinos é o rúmen, uma das estruturas que compõem o complexo estômago dos ruminantes.

Para "quebrar" as moléculas mais complexas presentes nos vegetais que comem, o organismo dos bichos conta com a ajuda de bactérias que povoam o rúmen. É o metabolismo dos micróbios que acaba produzindo o metano.

CÁPSULAS E CABRESTOS

A coordenadora do estudo, Maria Eugênia Zerlotti Mercadante, explica que o método para medir as emissões do gado brasileiro (animais da raça nelore) envolve, antes de mais nada, a colocação de cápsulas de SF6 (hexafluoreto de enxofre) no rúmen dos bichos.

Se as cápsulas estiverem funcionando direito, liberarão a substância num ritmo constante. O aparato de medição, que inclui um cabresto especial com um cano muito fino, vai sugando tanto o SF6 quanto o metano. Se a proporção de SF6 for a esperada, quer dizer que a medição está sendo feita corretamente.

Esse cano desemboca num receptáculo de PVC, que guarda os gases que serão posteriormente analisados.

O procedimento foi feito em 464 animais em fase de crescimento, junto com medidas de seu consumo de alimentos e de produção de fezes, no pasto e em confinamento.

Os resultados: embora os animais mais eficientes consumissem 10% menos alimento e tivessem uma capacidade de absorção de nutrientes 4% maior para ganhos equivalentes de peso, não houve diferenças significativas quanto ao metano nos arrotos.

"A dieta dos nossos animais é muito mais fibrosa do que a dos bois nos EUA, por exemplo", explica Maria Eugênia. "É possível que, no nosso contexto, os animais mais eficientes sejam aqueles cujo organismo ataca mais essas fibras, o que acabaria levando à maior produção de metano."

Segundo a pesquisadora, isso não significa necessariamente que os animais mais eficientes não teriam nenhum efeito benéfico para o clima - ao consumir menos comida, por exemplo, eles poderiam contribuir para uma cadeia produtiva menos poluente, daí o interesse em entender o organismo deles para investir no melhoramento genético do rebanho.

O estudo, feito com a Embrapa e a Unesp de Jaboticabal, teve apoio da Fapesp e do CNPq.