Papa Francisco pede muito à Igreja?

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30 Janeiro 2015

Papa Francisco surpreende com escolhas insólitas de palavras sobre temas como o planejamento familiar. Terror e problemas internos na Igreja. O seu chefe quer muito da Igreja Católica Romana? Francisco fala muito, demais segundo alguns. Uma coisa é certa: nunca antes um Papa tinha chamado tanta atenção da opinião pública, nem o “globe-trotterJoão Paulo II. Isso depende em parte dos mecanismos congestionados da era midiática. Mas também Francisco tem sua parcela de responsabilidade. Concede seguidamente entrevistas e nas suas viagens ao exterior concede também coletivas de imprensa. Suas palavras não são sempre compreendidas de forma unívoca.

O comentário é de Julius Müller-Meiningen, jornalista alemão radicado em Roma, publicada pelo Augsburger-allgemeine.de, 27-01-2015. A tradução é de Ivan Pedro Lazzarotto.

Confusões sobre os meios contraceptivos e amor ao próximo

Os bons católicos não devem colocar no mundo filhos “como coelhos”, disse Francisco na sua mais recente viagem à Ásia. Na cúria, não são poucos os religiosos que se puxaram os cabelos. O Vaticano viu-se forçado a readequar as palavras desenvoltas pelo papa, esclarecendo que o papa se alegra que existam famílias numerosas, apenas quis expressar a importância de um planejamento familiar responsável, em harmonia com a proibição da igreja para os métodos contraceptivos artificiais.

Em resposta a uma pergunta referente ao atentado terrorista À revista satírica francesa Charlie Hebdo, Francisco disse: “Se alguém ofender minha mãe, que espere de mim um soco”. E assim gerou confusão para o mandamento cristão de amor ao próximo. Os comentaristas reagiram histericamente, de novo o Vaticano se sentiu no dever de esclarecer. Não, Francisco não quer defender o ato terrorista, mas somente mostrar que os sentimentos religiosos devem ser respeitados.

Mais um pastor que deseja se comunicar do que um defensor da fé

O Papa causa confusão. Se expressa de forma ambígua, torna-se falível. Esse dilema faz ridicularizar principalmente os ambientes católicos que tinham apreço pelas palavras claras do seu antecessor e que encontraram nele uma certeza para sua fé. Francisco é diferente, interpreta o seu papado de forma totalmente nova. Desenvolve não muito o seu papel de defensor da fé quanto aquele de pastor com desejo de se comunicar e que então fala de forma espontânea. As palavras do Papa provocam agitação, perturbação.

Para a Igreja católica, a princípio, é algo bom. Francisco quer ser escutado, a precisão das suas expressões para ele é algo secundário. A sua missão é a de transformar a Igreja em uma instituição compreensível às pessoas. A escolha das palavras corresponde à sua imagem de uma Igreja que se integra e não de uma instituição que exclui, que ouve apontando o dedo contra os outros. “A realidade é mais importante que as ideias”, é uma das suas citações preferidas, que oferece uma indicação para a compreensão do seu pontificado. Resta portanto a pergunta: quanta confusão e imprecisão pode suportar uma instituição que mantém a clareza dogmática como um dos seus elementos constitutivos?

Afirmações vagas nas mais diversas direções

Francisco quer muito da sua instituição. As tensões que foram manifestadas durante o Sínodo sobre a família no episcopado mundial são expressões daquela crise interna onde os efeitos deveriam se tornar mais visíveis somente depois do pontificado do Papa, que hoje tem 78 anos. Não seria surpresa se os cardeais no próximo conclave escolhessem uma pessoa menos extrovertida e um defensor da fé mais concentrado sobre a clareza doutrinal.

Ao mesmo tempo, esse Papa, já há dois anos da sua eleição, não pode ser enquadrado, ainda, segundo as categorias tradicionais. A sua atenção para os aspectos pastorais, práticos, parece estar em contraste com atitudes que o fazem parecer conservador. Francisco defendeu mais de uma vez a controversa “encíclica da pílulaHumanae Vitae, na qual Paulo VI proibia o uso de métodos artificiais de controle de natalidade. Francisco não ataca somente a cúria, mas também o aborto ou a “colonização ideológica” da família, critica indiretamente o matrimônio gay. Há quem sustente que existe o perigo que as afirmações vagas do papa possam ser desfrutadas das mais diferentes formas. Do contrário, esse fenômeno parece como o melhor recurso de Francisco.