O Papa Francisco “não representa uma posição progressista, mas sim uma posição radical”, segundo cardeal Kasper

Mais Lidos

  • De Rerum Novarum a Leão XIV: não era o vapor, mas a ética; não são os dados, mas a dignidade. O que vale não é mensurável. Artigo de Paolo Benanti

    LER MAIS
  • Deus Trindade: circularidade-encontro-amor. Comentário de Adroaldo Palaoro

    LER MAIS
  • Juventude e novas direitas, para além dos estereótipos e dos extremos. Entrevista com Beatriz Besen

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

11 Novembro 2014

Na quinta-feira, dia 7 de novembro, o cardeal Walter Kasper, presidente emérito do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, recebeu a Medalha Johannes Quasten por Excelência em Erudição e Liderança em Estudos Religiosos, da Universidade Católica da América, em Washington, D.C.

A reportagem é de Vinnie Rotondaro, publicada por National Catholic Reporter, 07-11-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Kasper, teólogo alemão conhecido por seus escritos sobre o papel da misericórdia nos ensinamentos da Igreja, proferiu uma palestra de 50 minutos sobre o significado e a importância do Papa Francisco.

O que se segue são alguns destaques de sua fala, intitulada “Contexto Teológico da Visão Eclesiológica e Ecumênica do Papa Francisco”.

Kasper, apelidado de “o teólogo do papa”, começou referindo-se a Francisco como “um papa das surpresas”.
“Não menos surpreendente”, disse ele, fazendo referência aos primeiros dias deste pontificado, “foi que o novo papa, dentro de um curto período, conseguiu iluminar a atmosfera sombria que havia se estabelecido como um mofo na Igreja”.

O cardeal mencionou a “atenção benevolente da imprensa” da qual este papa tem desfrutado (uma surpresa) e a grande aceitação e entusiasmo mostrado por grande parte dos leigos com a visão e o estilo de Francisco (outra surpresa).

Porém, “como era de se esperar”, disse, “há, evidentemente, as vozes críticas que dizem: ‘Este papa não nos agrada, pois ele agrada demais”.

“Estas atitudes são nos devem surpreender”, acrescentou Kasper, cujas ideias sobre a Comunhão para os católicos divorciados e recasados enfureceu, grandemente, alguns dentro da Cúria Romana. “Há muitos entre nós”, disse o religioso, até mesmo entre o episcopado e o clero mais jovem, que realmente não confiam neste novo estilo e neste novo entusiasmo”, os quais demonstram uma “atitude condescendente do tipo ‘vamos esperar para ver’”.

Ao comentar sobre a tensão presente na Igreja atualmente, Kasper brincou que aquilo que para muitos é “o começo de uma nova primavera é, para outros, um período de frio temporário”.

Embora possam existir alguns esforços para “trivializar o Papa Francisco” ou para se apropriar dele tendo em vista “os próprios conceitos de reforma que se possa ter”, especialmente nos países europeus e nos EUA, disse Kasper, o papa argentino “não se se encaixa em nossos esquemas, agora desgastados, de progressista ou conservador”.

Ele “não pode ser categorizado, muito menos apropriado, por alguma escola específica – ele não é um teólogo acadêmico no sentido profissional, mas um homem de encontro e prática”.

Para o Papa Francisco, “a realidade tem primazia sobre as ideias”, disse o cardeal. E com um foco no Evangelho, ele “tem a intenção de superar a ausência de alegria na Igreja e no mundo moderno”.

Ele quer “dar um novo começo para a Igreja”, declarou Kasper, mas não desfazendo a tradição. Pelo contrário, o “Papa Francisco se encontra dentro de uma grande tradição, que remonta aos primórdios”.

“Ele não representa uma posição progressista, mas sim uma posição radical, entendido no sentido original da palavra, ou seja, voltando às raízes, ao ‘radix’”. Ao voltar ao passado, ele, na verdade, está “construindo uma ponte com o futuro”.

No centro da visão do Papa Francisco encontra-se o conceito de misericórdia, disse Kasper – a “misericórdia de Deus”.

“A misericórdia se tornou o tema de seu pontificado”, disse. “Com ele, o Papa Francisco abordou incontáveis indivíduos, tanto dentro quanto fora da Igreja”. Ele “comoveu estas pessoas de forma muito intensa, atravessou os seus corações”.

E “quem aqui entre nós não depende da misericórdia?”, perguntou-se o palestrante. “Quem aqui entre nós não depende da misericórdia de Deus e de um companheiro misericordioso?”

Kasper fez notar o fato de que Francisco não está sozinho na ênfase na misericórdia. Ele “se encontra dentro da tradição de muitos santos importantes (...) e também em continuidade com seus predecessores”, tais como São João XXIII, São João Paulo II e o Papa Bento XVI, todos os quais falaram ou escreveram sobre o assunto.

“Não obstante, para alguns o discurso do papa sobre a misericórdia se tornou desconfortável”, disse Kasper. “Eles percebem o perigo à espreita por trás dele”.

Mas “quando compreendido corretamente, a misericórdia não é uma fraqueza pastoral complacente”; é, isto sim, “a verdade revelada”. “Ela não abole a justiça, mas a ultrapassa”.

“No centro do entendimento do Papa Francisco sobre a Igreja encontra-se, de acordo com o seu histórico na Argentina, a imagem da Igreja como Povo de Deus”, disse Kasper. Trata-se de uma compreensão “antiga”, compreensão renovada pelo Concílio Vaticano II, mas que veio a ser vista com suspeitas no ocidente.

O estilo do pontífice não é aquele de um “populismo benevolente”, completou o cardeal alemão. “O seu estilo pastoral baseia-se numa teologia integral. Com base nesta teologia, ele é averso a todo o clericalismo. Ele quer a participação do Povo de Deus na vida da Igreja. Das mulheres e dos homens. Dos leigos e do clero, jovens e velhos”.

“Ele ressalta a importância do ‘sensus fidei’, e diz que a Igreja deve estar aberta para ouvir as pessoas”.

A Igreja Católica não deve se centrar em si mesma, disse Kasper. Pelo contrário, deve ser uma igreja “em movimento”. E uma igreja que seja uma “casa aberta”, a igreja do Deus aberto, “pressupõe renovação e reformas”, disse ele.