Por: André | 28 Julho 2014
Uma investigação judicial por "falsificação", "falsificação de documentos” e “fraude" foi aberta na semana passada após as queixas do ex-corretor Jérôme Kerviel (no foto, ao centro) contra seu ex-empregador, o Banco Société Générale. Kerviel, condenado, em março de 2014, a cinco anos de prisão, com dois anos de prisão fechada por "falsificação de documentos, abuso de confiança, inserção fraudulenta de dados em um sistema de computador", fez a promessa de caminhar a pé da Praça São Pedro até a Praça da Bolsa, em Paris. Mas ele foi preso na fronteira italiana e a partir de então o padre Patrice Gourrier (na foto, à esquerda) continua a cruzada de Jérôme Kerviel, percorrendo a França para "denunciar a tirania dos mercados financeiros." Mas, marchar pode mudar as consciências? O padre Patrice Gourrier acredita que sim, ele que, desde o dia 18 de maio, peregrina "por uma economia a serviço da pessoa."
A entrevista é de Arnaud Aubry e publicada no sítio da revista francesa La Vie, 17-07-2014. A tradução é de André Langer.
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| Fonte: http://bit.ly/1qEq57Z |
Eis a entrevista.
Você se encontrou com Jérôme Kerviel na sexta-feira, 11 de julho. Como ele está?
Ele está muito bem para alguém que está preso. Ele sempre está isolado. Os guardas o fazem sair apenas com um ou dois detentos, mas penso que isso o protege: Fleury-Mérogis é uma das maiores penitenciárias da Europa... Em todo o caso, continua combativo, especialmente desde que soube que as três queixas foram aceitas. Também não está abatido porque recebe muitas mensagens pelo Twitter, pelo Facebook. Eu descobri há dois meses que ele está tendo um grande apoio. Eu encontro muitas pessoas pelo caminho. Todas elas são muito sensíveis à causa de Jérôme [Kerviel] e à minha marcha. A prova disso é que raramente eu pago a minha refeição, e muitas vezes as pessoas que eu encontro contribuem para pagar a minha hospedagem em um hotel!
Você se propôs a continuar uma peregrinação que Jérôme Kerviel começou em fevereiro. O que o levou a fazer essa caminhada?
Após ter ido ver o Papa, ele fez a promessa de ir a pé da Praça São Pedro, em Roma, até a Praça da Bolsa, em Paris. Ele admira muito o Francisco, porque o papa fez o que disse que faria: ele atacou as finanças cegas e, ao mesmo tempo, empreendeu a reforma do Vaticano.
Jérôme Kerviel me disse que encontrar o Papa o fez "reencontrar [seus] valores". Como ele foi preso em Menton pelas forças da ordem, eu estou cumprindo a promessa que ele fez ao Santo Padre. Mas atenção, eu não peregrino pelo Jérôme Kerviel, mas por "uma economia a serviço da pessoa".
Qual é o significado da sua luta?
Você sabe, eu abandonei tudo para fazer um alerta sobre as finanças. Com esta marcha, também eu encontrei os meus valores. Desde 2005, eu estava ocupado com a minha paróquia, mas me parece que eu perdi de vista a miséria social. Sabemos que há um ser humano que morre de fome a cada 7 segundos? Quem se importa ou se sente tocado? Eu me dei conta de que não estava mais sendo tocado por esta realidade... Esta peregrinação permite que recupere a sensibilidade. Há alguns dias, eu estava perdido perto de Montpellier e descobri, à margem da rodovia, uma vila construída sobre um depósito de lixo. Eu não via mais esse tipo de situação. Outra vez eu estava andando no centro de uma cidade, ao anoitecer, e me deparei com um grupo de moradores de rua. Eles me viram, com meu hábito de padre e o cartaz nas costas, e me disseram: "Você é padre? Nós estamos perdidos. Nosso amigo se suicidou. O que você pode fazer?" Passei a noite com eles.
Para além destes encontros, como é a sua peregrinação?
Nunca fui preso! Mas a polícia já me pediu duas vezes o documento de identidade, e uma vez inclusive fui levado ao comissariado, em Castelnaudary... Em todo o caso, já andei 500 km em pouco mais de um mês e meio. Eu percorro entre 20 a 25 km por dia e espero chegar em meados de setembro na Praça da Bolsa, em Paris.
Sua caminhada não foi bem compreendida por todos...
É verdade que não caiu no gosto de alguns dos meus paroquianos de Saint-Porchaire, em Poitiers. Mas quero esclarecer que a minha situação é regular: em acordo com o meu arcebispo, eu sou um “padre em ano sabático que realiza, a título pessoal, uma peregrinação de oração e de solidariedade”. Já fui, inclusive, recebido por três bispos: em Toulon, Nice e pelo arcebispo de Toulouse.
Qual é o futuro desta caminhada?
Desde que o Papa foi eleito, senti algo mudar em mim. O cristianismo derrubou o Império Romano, o comunismo, e acredito que pode derrubar as finanças sujas. Quero me dedicar aos 97% de cristãos que não vão mais à Igreja. Após esta caminhada, para mim, nada mais será como antes.
