Estado de sítio na Praça Saens Pena

Mais Lidos

  • De Rerum Novarum a Leão XIV: não era o vapor, mas a ética; não são os dados, mas a dignidade. O que vale não é mensurável. Artigo de Paolo Benanti

    LER MAIS
  • Deus Trindade: circularidade-encontro-amor. Comentário de Adroaldo Palaoro

    LER MAIS
  • Juventude e novas direitas, para além dos estereótipos e dos extremos. Entrevista com Beatriz Besen

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Por: Cesar Sanson | 14 Julho 2014

“O que aconteceu hoje na Praça Sans Peña foi talvez a experiência mais autoritária que eu já presenciei em toda a minha vida de militância”. O comentário é de Bruno Cava Rodrigues no facebook, 13-07-2014. Publicamos a seguir os comentários de Bruno Cava e Eduardo Tomazine Teixeira.

Eis o comentário de Eduardo Tomazine Teixeira:

Hoje vi o ESTADO DE EXCEÇÃO em operação na Praça Saens Peña. A polícia, com Brigada de Motociclistas, Cavalaria, Choque, "Robocops", PMs convencionais, Força de Segurança Nacional, bloqueou TODOS OS ACESSOS às imediações da praça, num raio de 50 metros, e IMPEDIU que moradores, vendedores, imprensa, parlamentares, advogados, médicos e manifestantes (ou seja, todos, menos a polícia) saíssem (isso mesmo, saíssem) do perímetro bloqueado. Vários companheiros ficaram em CATIVEIRO pela polícia até o fim do jogo no Maracanã.

Eu tive a sorte de fugir graças à solidariedade de uma moradora, que me abriu os portões e me permitiu sair pela rua de trás. Lembremos também que temos conhecidos (entre eles amigos meus) presos PRESOS PREVENTIVAMENTE para que não participassem dos protestos.

Vocês sabem o que é isso? O que significa? Significa que vivemos numa democracia meramente formal. Que 1964 venceu. Que Junho foi derrotado.

Comentário de Bruno Cava:

Só consegui escapar me disfarçando de morador. Já intoxicado de gás e irritado pela pimenta, tinha me perdido dos amigos. Tentei sair do caldeirão por várias ruas vizinhas, mas em todas havia barreiras do estado onde diziam que não poderia sair, que o direito de ir e vir estava suspenso. Ninguém sai ninguém entra. Minha boca ficou seca quando esgotei as possibilidades e concluí que não havia saída do cerco à Praça Sans Peña. Numa das barreiras, recebi a orientação de que deveria retornar à praça, onde eles fariam uma "triagem" dos manifestantes remanescentes, aqueles que não tinham conseguido fugir. Não queria de jeito nenhum me submeter a isso. Comecei a buscar alternativas.

Depois de 20 minutos, já um pouco sem esperança, notei duas pessoas com jeito de morador, carregando sacos de supermercado com compras, provavelmente levando ao lugar onde eles assistiriam à final. Me aproximei e disse que precisava de ajuda para sair do cerco. Os dois rapazes foram muito gentis, me deram uma das sacolas plásticas para carregar, e colei neles até a barreira mais próxima. Mesmo eles se apresentando como moradores na barreira, numa rua das mais afastadas da praça, num primeiro momento não deixaram ninguém passar.

Só depois de uma espera de quase 15 minutos, alguém deu a ordem que moradores seriam liberados. Mesmo assim, quando passei, um dos policiais, possivelmente tendo me reconhecido, me parou e perguntou em qual rua eu morava. Gritei de uma vez, com genuíno tom de irritação, a primeira rua da Tijuca que pude lembrar. Devo ter sido convincente, porque quando dei por mim já tinha passado da barreira, meu corpo me arrastava para longe do cerco. Livre do caldeirão, ainda pude pensar nalguns companheiros que, eu recapitulava, talvez não tivessem conseguido sair. Me senti um pouco culpado, mas não olhei pra trás.

O que aconteceu hoje na Praça Sans Peña foi talvez a experiência mais autoritária que eu já presenciei em toda a minha vida de militância.