18 Fevereiro 2014
O Papa Francisco começou nessa segunda-feira a se encontrar, pela terceira vez, com um seleto grupo de oito cardeais que o aconselham sobre a reforma da Igreja Católica mundial, mas ainda não está claro exatamente quais reformas estão na forja.
A reportagem é de Joshua J. McElwee, publicada no sítio National Catholic Reporter, 17-02-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
A reunião do grupo, conhecido formalmente como Conselho dos Cardeais, abre uma semana no Vaticano que poderia ser uma premonição sobre o efeito das reformas pretendidas pelo papa da estrutura de comando central da Igreja.
No espaço de oito dias, o pontífice irá:
- ouvir os relatórios de três grupos que estudam a reforma das finanças do Vaticano;
- acolher os cardeais de todo o mundo para uma cerimônia especial que irá somar novos membros às suas fileiras; e
- lançar preparações mais formais para um encontro de bispos do mundo em outubro, que pode levar a mudanças nas práticas pastorais da Igreja voltadas à vida familiar.
Respondendo a perguntas em uma coletiva de imprensa nessa segunda-feira à tarde, o porta-voz vaticano, o padre jesuíta Federico Lombardi, disse que o Conselho dos Cardeais não tinha contado a ele se eles tomaram alguma decisão na segunda-feira de manhã ou se esperam fazê-lo antes que as suas reuniões encerrem na quarta-feira.
Indicando a importância dos próximos dias, Lombardi disse que o Conselho dos Cardeais se reuniu com outra comissão papal destinada a estudar estruturas econômicas e administrativas do Vaticano, a Comissão Referente sobre a Organização da Estrutura Econômico-Administrativa da Santa Sé.
O porta-voz disse que o Conselho dos Cardeais também deve se reunir com um grupo separado que estuda a reforma do Instituto para as Obras de Religião, conhecido comumente como o banco vaticano.
Com essas reuniões, os oito cardeais, sob a direção de Francisco, poderiam estar começando a afundar as suas mãos no conturbado passado financeiro do Vaticano.
Embora o Vaticano tenha anunciado em dezembro que a comissão econômico-administrativa havia contratado a empresa de auditoria holandesa KPMG para aconselhar o Vaticano na atualização dos seus procedimentos contábeis, está em curso na Itália o julgamento do Mons. Nunzio Scarano, um contador do ministério das finanças do Vaticano, que é acusado de usar suas contas bancárias vaticanas para lavar dinheiro.
O grupo de cardeais, que inclui prelados de seis continentes, já se reuniu anteriormente em outubro e dezembro. O Papa Francisco anunciou a formação do órgão consultivo em abril, dizendo que ele estava destinado a "estudar um projeto de revisão" da burocracia do Vaticano.
O único norte-americano do grupo é o cardeal Sean O'Malley, de Boston. O cardeal hondurenho Óscar Rodríguez Maradiaga atua como o seu coordenador.
Depois da reunião do Conselho dos Cardeais, Francisco deve abrir, na quinta-feira, um encontro de cerca de 100 cardeais de todo o mundo, que irão se dirigir a Roma esta semana para uma cerimônia formal, conhecida como consistório, para acrescentar 19 novos membros nas suas fileiras.
Francisco anunciou os novos cardeais em janeiro, escolhendo prelados que despontam principalmente do Sul global, incluindo lugares como Haiti, Burkina Faso e Filipinas.
Lombardi disse na segunda-feira que o encontro de todos os cardeais irá começar na quinta-feira de manhã com uma reflexão sobre a questão da vida familiar proferida pelo cardeal Walter Kasper, um teólogo alemão e ex-presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos.
O discurso de Kasper ao grupo de cardeais ocorre apenas algumas semanas depois que a Conferência dos Bispos da Alemanha divulgou um contundente relatório, que mostra uma clara divergência entre o que a Igreja ensina sobre casamento, sexualidade e vida familiar, e o que os católicos alemães acreditam.
Esse relatório, que compilou as respostas oficiais de cada uma das 27 dioceses da Alemanha e de cerca de 20 organizações e instituições católicas alemãs, foi realizado em preparação para a reunião dos bispos de todo o mundo, em outubro.
Esse encontro, conhecido como sínodo, foi anunciado por Francisco no ano passado para se concentrar em questões da vida familiar. Em preparação ao evento, o arcebispo Lorenzo Baldisseri, secretário-geral do Sínodo dos Bispos do Vaticano, pediu que as conferências episcopais ao redor do mundo distribuíssem um questionário sobre as opiniões dos católicos sobre questões como o casamento entre pessoas do mesmo sexo, sexualidade e divórcio, de um modo "tão amplamente quanto possível".
Espera-se que o escritório vaticano para o Sínodo, chefiado por Baldisseri, se reúna esta semana e na próxima para filtrar as respostas do questionário de todo o mundo e iniciar o planejamento específico para o evento de outubro.
Embora Lombardi tenha dito na segunda-feira que as perguntas sobre se a escolha de Kasper era uma indicação de que a questão do divórcio e do novo casamento seria conversada entre os cardeais eram "legítimas", ele também disse que não tinha uma resposta.
"Não há um segredo" acerca dos resultados da pesquisa dos bispos alemães, disse o porta-voz.
Lombardi também disse que o futuro cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano, somou-se ao Conselho dos Cardeais na segunda-feira para as discussões, mas ele não sabia qual papel formal Parolin desempenha junto ao grupo.
Era uma "comunicação de fato" de que Parolin esteve presente com o grupo, mas não havia nenhuma "comunicação formal" de como o secretário participa das reuniões, disse o porta-voz.
Em resposta à pergunta de outro repórter sobre se os membros da imprensa poderiam esperar que um membro do grupo conversaria com eles mais tarde na semana, Lombardi respondeu: "A Sala de Imprensa está a serviço dos cardeais".
Durante a reunião do Conselho dos Cardeais de outubro, O'Malley se reuniu com os jornalistas durante uma coletiva para anunciar a formação de uma nova comissão na burocracia central da Igreja com a tarefa de assessorar o pontífice na proteção das crianças com relação ao abuso sexual e no trabalho pastoral com as vítimas de abuso.
Lombardi foi claro ao dizer na segunda-feira que os conselhos separados que aconselham o papa não tomam decisões. Os conselhos, disse, podem tomar uma decisão somente se o papa concordar com ela.
"Se não", disse Lombardi, "não há uma decisão".
Em outras palavras, enquanto Francisco começa uma possível semana premonitória, todas as reformas permanecem como prerrogativa sua.